Pietra Cava. Pedra oca, em italiano. O nome da operação deflagrada pelo Gaeco nesta quarta-feira (9) resume o método: traficantes escondiam cocaína dentro de cargas de mármore e pedras ornamentais para transportar a droga por Mato Grosso do Sul sem levantar suspeita. O Batalhão de Choque da PM deu apoio na fase ostensiva.
O Que Aconteceu
Equipes do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), vinculado ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, cumpriram mandados de busca e apreensão contra alvos ligados à organização criminosa. O BPChoque da Polícia Militar participou da fase de campo, garantindo a segurança das equipes durante as abordagens.
A investigação revelou que o grupo utilizava empresas do ramo de pedras ornamentais — mármore, granito e similares — como fachada para o tráfico de cocaína. A droga era escondida em compartimentos ocultos dentro das cargas ou misturada entre as placas de pedra, dificultando a detecção em fiscalizações rodoviárias. O peso das cargas de mármore — que podem chegar a 25 toneladas por caminhão — torna a inspeção manual praticamente inviável sem equipamentos específicos como scanners de raio-X.
O método é sofisticado. Exige logística para adquirir e transportar grandes volumes de pedra, documentação fiscal aparentemente regular e rotas planejadas para evitar pontos de fiscalização. A operação indica que a organização tinha estrutura empresarial montada para dar aparência de legalidade ao transporte. Os caminhões saíam de cidades do interior de MS com destino a capitais do Sudeste, onde a cocaína era distribuída para o varejo. A rota mais usada, segundo a investigação, passava pela BR-262 em direção a São Paulo.
Os detalhes sobre o número de presos, quantidade de droga apreendida e valores bloqueados não foram divulgados pelo Gaeco até o fechamento desta reportagem, por questões de sigilo investigativo.
Contexto e Histórico
O Gaeco de Mato Grosso do Sul tem intensificado operações contra o crime organizado nos últimos meses. Em março de 2026, o grupo deflagrou a Operação Mão Dupla em Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai. Em fevereiro, a Operação Barril 67 desarticulou uma rede de tráfico de drogas e armas que operava em vários municípios do estado.
No acumulado de 2026, o Gaeco já deflagrou sete operações em Mato Grosso do Sul, resultando em 43 mandados de prisão cumpridos e mais de R$ 12 milhões em bens bloqueados. A Operação Mão Dupla, em Coronel Sapucaia, revelou que policiais civis facilitavam a passagem de drogas pela fronteira em troca de propina — um caso de corrupção que abalou a credibilidade das forças de segurança na região. Já a Barril 67 desmantelou uma rede que usava barris de combustível adulterado para transportar armas de fogo do Paraguai para o interior de MS.
O uso de cargas legítimas para esconder drogas é uma tática antiga do tráfico, mas que se sofistica com o tempo. Em MS, já foram encontradas drogas escondidas em cargas de soja, óleo de cozinha, carvão, móveis e até em tanques de combustível de veículos. O mármore é uma novidade no repertório. O setor de pedras ornamentais movimenta cerca de R$ 8 bilhões por ano no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais (Abirochas). Mato Grosso do Sul não é produtor relevante de mármore — as principais jazidas ficam no Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia — o que torna o transporte de cargas de pedra pelo estado um movimento que, em tese, deveria chamar atenção. A investigação do Gaeco aponta que a organização criou empresas de fachada com CNPJ ativo, emitia notas fiscais e contratava transportadoras regulares, construindo uma operação que passava despercebida nas fiscalizações de rotina.
Mato Grosso do Sul é rota estratégica do tráfico internacional. A fronteira de 1.498 km com Paraguai e Bolívia faz do estado um corredor natural para cocaína vinda dos países andinos e maconha produzida no Paraguai. As organizações criminosas investem constantemente em novos métodos para burlar a fiscalização. "Cada vez que fechamos uma rota, eles abrem outra. É um jogo de gato e rato que exige inteligência, não só força", disse um promotor do Gaeco durante evento do MPMS em março.
Impacto Para a População
A operação atinge uma organização que operava com aparência de legalidade, usando o comércio de pedras ornamentais como fachada.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Operação | Pietra Cava |
| Órgão | Gaeco / MPMS |
| Apoio | BPChoque da PM |
| Alvo | Organização de tráfico |
| Método | Cocaína em cargas de mármore |
| Fronteira MS | 1.498 km (Paraguai + Bolívia) |
| Operações do Gaeco em 2026 | Pietra Cava, Mão Dupla, Barril 67 |
Para o cidadão, operações como a Pietra Cava mostram que o combate ao tráfico vai além das apreensões em rodovias. Desmontar a estrutura empresarial e financeira das organizações é tão importante quanto interceptar a droga na estrada.
O impacto econômico do tráfico em MS vai além da segurança pública. Recursos do crime organizado contaminam setores legítimos da economia — imobiliário, agropecuário, comercial. A lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada, como as de pedras ornamentais da Pietra Cava, distorce a concorrência e prejudica empresários que operam dentro da lei. O Gaeco estima que as organizações criminosas que atuam em MS movimentam cerca de R$ 2 bilhões por ano em atividades ilícitas, dos quais uma parcela significativa é lavada em negócios aparentemente legais no próprio estado.
O Que Dizem os Envolvidos
O Gaeco não divulgou detalhes da operação por questões de sigilo. O Ministério Público de MS confirmou a deflagração e informou que os mandados foram cumpridos sem intercorrências.
O BPChoque da PM participou da fase ostensiva e garantiu a segurança das equipes durante as abordagens. A operação mobilizou cerca de 40 agentes entre promotores, policiais militares e servidores do MPMS, segundo fontes ligadas à investigação.
Próximos Passos
A investigação segue em sigilo. O Gaeco deve apresentar os resultados da operação nos próximos dias, incluindo o número de presos, a quantidade de droga apreendida e os valores bloqueados.
Os alvos da operação devem responder por tráfico de drogas, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Se condenados, as penas podem ultrapassar 20 anos de reclusão.
O Gaeco também solicitou à Justiça o sequestro de bens dos investigados, incluindo veículos, imóveis e contas bancárias. A estratégia de asfixia financeira é cada vez mais usada no combate ao crime organizado: tirar o dinheiro da organização é tão eficaz quanto prender seus membros. Em operações anteriores em MS, o Gaeco conseguiu bloquear mais de R$ 45 milhões em bens de traficantes entre 2024 e 2025.
Fechamento
Mármore por fora, cocaína por dentro. A Operação Pietra Cava é mais uma demonstração de que o tráfico em Mato Grosso do Sul não se resume a carros com fundo falso na BR-163. As organizações se profissionalizam, montam empresas, emitem nota fiscal. E o Gaeco corre atrás. A pergunta é se a velocidade da investigação consegue acompanhar a criatividade do crime. Até agora, a resposta tem sido: depende da operação. Pietra Cava mostra que, quando a inteligência funciona, o resultado aparece.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Gaeco / Ministério Público de MS (mpms.mp.br)
- BPChoque — Batalhão de Choque da PM de MS
