Gaeco investiga fraude de R$ 27 milhões na saúde que usava livros em Campo Grande
Operação Gutenberg mira esquema de dispensa de licitação e superfaturamento de compras didáticas como moeda de troca para exames médicos na capital.

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS), em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Delegacia de Combate à Corrupção da Polícia Civil, deflagrou a "Operação Gutenberg". A ofensiva investiga uma sofisticada e bilionária organização criminosa envolvida em crimes contra a administração pública e fraudes em concorrências na comarca de Campo Grande. O esquema desviou estimados R$ 27 milhões de verbas destinadas a cirurgias eletivas e exames de imagem do SUS, utilizando a aquisição superfaturada de livros didáticos e pedagógicos como moeda de troca para pagamentos ilícitos (propinas) a agentes políticos e servidores municipais.
O Que Aconteceu
As investigações da Operação Gutenberg iniciaram-se no final de 2024 a partir de relatórios de inteligência financeira emitidos pelo Coaf, que apontavam movimentações bancárias atípicas e saques em espécie milionários de contas de proprietários de pequenas distribuidoras de livros em Campo Grande.
O Gaeco do MPMS identificou que a Secretaria Municipal de Saúde (SESAU) de Campo Grande vinha contratando, por meio de dispensa injustificada de licitação pública e adesão irregular a atas de registro de preços de outros estados (carona), compras volumosas de cartilhas informativas e livros de saúde pública de qualidade contestável.
Os investigadores de MS descobriram que as compras eram superfaturadas em até 400% do preço real de mercado. O dinheiro excedente repassado às editoras de fachada servia como "moeda de troca" e fundo financeiro para o pagamento de vantagens ilícitas a servidores do escalão de regulação de exames médicos da capital.
Em troca do repasse das propinas oriundas das vendas de livros, os funcionários públicos burlavam a fila eletrônica do Sistema Único de Saúde (SUS), antecipando cirurgias de alta complexidade, exames de ressonância magnética e vagas de internação para pacientes indicados por vereadores da base aliada e empresários ligados à organização de saúde.
Contexto e Histórico
Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul com mais de 900 mil habitantes, concentra a maior rede de hospitais públicos de referência integrada (como a Santa Casa e o Hospital Universitário) do estado, atendendo demandas reguladas de média e alta complexidade de municípios menores de divisas agrícolas.
O teto financeiro do SUS de Campo Grande é historicamente disputado e pressionado por deficits de financiamento público federal. O desvio de R$ 27 milhões por meio de fraudes licitatórias afeta diretamente o tempo de espera de exames complexos de cardiologia e oncologia de milhares de sul-mato-grossenses.
A "Operação Gutenberg" recebe este nome em alusão à prensa de Gutenberg, símbolo da invenção da imprensa de livros móveis, remetendo ironicamente ao fato de que materiais pedagógicos impressos serviam de fachada estrutural para drenar verbas de saúde pública em Mato Grosso do Sul.
Impacto Para a População
As fraudes de dispensa de licitação esticam as filas de cirurgias do SUS de Campo Grande, deixando idosos e crianças sob dor crônica em filas de espera de postos de saúde de bairros periféricos enquanto intermediários enriquecem de forma ilícita.
A tabela a seguir sistematiza as aquisições de materiais sob investigação pelo Gaeco e os desvios estimados em auditorias financeiras em Campo Grande no período do esquema em 2026:
| Lote de Compra Sob Auditoria | Objeto Pedagógico Adquirido | Valor Pago pela SESAU | Desvio Estimado Periciado | Principal Fraude Identificada no Lote | Status do Lote Contratual |
|---|---|---|---|---|---|
| Lote 012/2024 | Cartilhas de combate à dengue | R$ 8,2 milhões | R$ 5,1 milhões | Distribuição de cartilhas não impressas | Contrato rescindido por ordem judicial |
| Lote 045/2025 | Livros de educação preventiva | R$ 11,4 milhões | R$ 7,8 milhões | Superfaturamento de 400% no preço unitário | Sob bloqueio cautelar de bens |
| Lote 018/2026 | Manuais técnicos de enfermagem | R$ 5,6 milhões | R$ 3,2 milhões | Dispensa de concorrência injustificada | Investigação de improbidade civil |
| Outros Aditivos | Atualizações e consultoria TI | R$ 1,8 milhão | R$ 900 mil | Duplicidade de pagamento de notas fiscais | Sob auditoria especial da CGU |
O bloqueio de bens móveis e imóveis dos principais empresários das editoras e ex-secretários municipais envolvidos foi decretado pela 1ª Vara Criminal de Campo Grande para salvaguardar o ressarcimento das finanças públicas de MS.
O Que Dizem os Envolvidos
O coordenador estadual do Gaeco de MS destacou o caráter nocivo do desvio. "Utilizar a saúde de pessoas que dependem da fila do SUS para cirurgias cardíacas como moeda de troca para desviar R$ 27 milhões por meio de compras de livros superfaturados é um crime hediondo. A Operação Gutenberg mostra que o Ministério Público e o Gaeco não pouparão esforços para desmantelar esquemas sofisticados de corrupção corporativa instalados na capital", declarou o promotor do MPMS.
A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (SESAU) informou que apoia integralmente o trabalho de apuração do Gaeco e que abriu sindicâncias administrativas internas para afastar preventivamente todos os servidores citados no inquérito.
A defesa das editoras envolvidas negou a ocorrência de superfaturamento de livros didáticos, alegando que os preços praticados refletem a propriedade intelectual e os direitos de edição exclusiva dos volumes distribuídos.
Próximos Passos
Os auditores da CGU e da Receita Federal periciarão a movimentação de contas Pix e depósitos eletrônicos para comprovar a lavagem de dinheiro em nome de empresas de fachada.
O Gaeco ouvirá depoimentos de médicos reguladores de hospitais de Campo Grande para detalhar as ordens de furar filas do SUS solicitadas pela organização de saúde.
O Ministério Público Eleitoral monitorará possíveis indícios de financiamento ilícito de campanhas municipais na capital de MS usando as verbas desviadas das vendas de livros didáticos.
Fechamento
A deflagração da Operação Gutenberg pelo Gaeco e CGU em Campo Grande desvenda uma rede de corrupção sistêmica que utilizava a compra superfaturada de livros como moeda de troca para desvios na saúde pública de Mato Grosso do Sul. Ao identificar desvios de R$ 27 milhões, bloquear contas e afastar servidores envolvidos em fraudar filas do SUS, o Ministério Público mineiro/sul-mato-grossense protege a integridade e a igualdade de acesso aos tratamentos de saúde. O portal Foco do Estado continuará acompanhando os depoimentos judiciais, a identificação de vereadores implicados e a recomposição do orçamento da regulação de leitos. Para registrar denúncias de corrupção na administração de saúde de sua cidade de forma segura, consulte os canais da Ouvidoria do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
Fontes e Referências
- Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-MPMS): Relatório Técnico Forense e Inquérito Civil nº 06.2026.000305 - Campo Grande (Julho/2026).
- Controladoria-Geral da União (CGU) - Superintendência Regional de Mato Grosso do Sul - Nota Técnica de Auditoria do SUS.
- Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) - 1ª Vara Criminal da Comarca de Campo Grande - Decisões Cautelares de Bloqueio.
- Decreto-Lei Federal nº 2.848/1940 (Código Penal) - Crimes de Peculato, Corrupção Ativa e Fraude em Licitação Pública.
Fonte: Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-MPMS) / Tribunal de Contas de MS
❓ Perguntas Frequentes
A operação investiga um esquema de fraude licitatória e desvio de verbas estimadas em R$ 27 milhões na Secretaria Municipal de Saúde, que utilizava a compra superfaturada de livros didáticos como moeda de troca.
A investigação apura a responsabilidade de ex-secretários municipais de saúde, vereadores da comarca, diretoras de hospitais públicos e empresários donos de editoras de fachada.
As verbas drenadas no esquema eram oriundas do teto de média e alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e de emendas parlamentares federais destinadas a cirurgias.
Luís Fernando
Repórter
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