A câmera de segurança registrou tudo. A mulher sai correndo de dentro da casa, atravessa o quintal, escala um muro de dois metros e cai do outro lado — com um tiro no abdômen. O vídeo, gravado no Jardim Colúmbia, em Campo Grande, viralizou nas redes sociais neste fim de semana e escancara mais um caso de violência doméstica que quase terminou em feminicídio. O autor do disparo: um PM aposentado de 58 anos que morava com a vítima.
O Que Aconteceu
O caso ocorreu na noite de sábado (12), por volta das 22h, em uma casa na rua principal do Jardim Colúmbia, bairro da região sul de Campo Grande. Segundo o boletim de ocorrência, o casal discutiu após o PM aposentado chegar em casa alcoolizado. A discussão escalou, e o homem sacou uma pistola calibre .380 e disparou contra a companheira.
O tiro atingiu o abdômen da mulher, de 32 anos. Mesmo ferida, ela conseguiu correr pelo quintal e escalar o muro que separa a casa do vizinho. A câmera de segurança da residência ao lado captou o momento exato da fuga — imagens que se espalharam pelas redes sociais em poucas horas.
Do outro lado do muro, vizinhos ouviram os gritos e acionaram o Samu e a Polícia Militar. A mulher foi socorrida consciente, mas com sinais de hemorragia interna. Foi levada à Santa Casa de Campo Grande, onde passou por cirurgia de emergência. O projétil perfurou o intestino delgado, e a equipe cirúrgica precisou de quase três horas para conter o sangramento e reparar o dano.
O PM aposentado foi encontrado dentro da casa pela guarnição da PM que atendeu a ocorrência. Não ofereceu resistência. A arma — uma pistola Taurus calibre .380, registrada em seu nome — foi apreendida. Ele foi autuado em flagrante por tentativa de feminicídio e encaminhado à Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
Contexto e Histórico
O Jardim Colúmbia é um bairro residencial de classe média baixa na região sul de Campo Grande, com cerca de 6 mil moradores. Ruas tranquilas, casas com quintal, vizinhos que se conhecem pelo nome. O tiro na noite de sábado quebrou a rotina pacata do bairro e trouxe à tona uma realidade que muitas famílias campo-grandenses conhecem de perto: a violência doméstica.
Mato Grosso do Sul ocupa posições alarmantes nos rankings nacionais de violência contra a mulher. Segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), o estado registrou 14.872 ocorrências de violência doméstica em 2025 — média de 41 por dia. Campo Grande concentrou 5.340 desses registros, quase um terço do total estadual.
O envolvimento de policiais militares — da ativa ou aposentados — em casos de violência doméstica é um problema reconhecido pelas próprias corporações. A Corregedoria da PM de MS abriu 28 procedimentos contra PMs por violência doméstica em 2025. O acesso facilitado a armas de fogo torna esses casos particularmente perigosos: quando o agressor é policial, a probabilidade de uso de arma no crime é significativamente maior.
O caso do Jardim Colúmbia tem agravantes. A vítima já havia registrado ocorrência por ameaça contra o PM aposentado em agosto de 2025, na própria Deam. Na ocasião, relatou que o companheiro a ameaçou de morte durante uma discussão. Porém, semanas depois, retirou a queixa — situação comum em casos de violência doméstica, onde a vítima sofre pressão do agressor ou da própria família para desistir da denúncia.
A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) prevê medidas protetivas de urgência — como afastamento do agressor do lar e proibição de aproximação — que podem ser solicitadas pela vítima ou pelo Ministério Público. No caso de João Guilherme, a medida protetiva não foi solicitada quando a ocorrência foi registrada em 2025, e a retirada da queixa encerrou o procedimento.
O vídeo que viralizou nas redes sociais gerou comoção e revolta. Em menos de 24 horas, as imagens acumularam milhões de visualizações no Instagram e no TikTok. Comentários oscilam entre solidariedade à vítima e indignação com o agressor. Perfis de ativistas pelos direitos das mulheres em MS compartilharam o vídeo com alertas sobre violência doméstica e informações sobre canais de denúncia.
Impacto Para a População
O caso reacende o debate sobre violência doméstica em Mato Grosso do Sul e sobre o acesso de agressores a armas de fogo.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Vítima | Mulher, 32 anos |
| Agressor | PM aposentado, 58 anos |
| Arma utilizada | Pistola .380 registrada |
| Ferimento | Tiro no abdômen (perfuração intestinal) |
| Estado da vítima | Grave mas estável, na UTI |
| Ocorrência anterior | Ameaça registrada em 2025 |
| Autuação | Tentativa de feminicídio |
| Violência doméstica em MS (2025) | 14.872 ocorrências |
Para as mulheres campo-grandenses que vivem situações de violência, o vídeo funciona como alerta e como espelho. A cena da mulher escalando o muro com um tiro no corpo é brutal, mas representa a realidade de milhares que tentam escapar de agressores dentro de casa. A diferença é que a maioria não tem câmera de segurança para registrar.
O caso também levanta a questão do porte de arma por policiais aposentados. A legislação brasileira permite que PMs aposentados mantenham o porte de arma, desde que cumpram requisitos como avaliação psicológica periódica e comprovação de capacidade técnica. Críticos argumentam que agressores com histórico de violência doméstica deveriam ter o porte suspenso automaticamente — o que não acontece na prática.
O Que Dizem os Envolvidos
A Deam informou que o PM aposentado foi autuado por tentativa de feminicídio qualificado e que o inquérito policial será concluído em até 30 dias. A delegada responsável pelo caso afirmou que as imagens de segurança são "prova contundente" e que o agressor confessou o disparo em depoimento.
A PM de MS divulgou nota informando que o agressor está aposentado desde 2018 e que "a corporação repudia qualquer ato de violência contra a mulher". A Corregedoria foi notificada, mas como o autor é aposentado, a apuração administrativa é limitada.
A Santa Casa de Campo Grande informou que a paciente permanece na UTI e que o quadro é grave mas estável. "A cirurgia foi bem-sucedida, mas precisamos monitorar possíveis complicações infecciosas nos próximos dias", disse o cirurgião responsável.
A família da vítima pediu privacidade e informou, por meio de advogado, que vai solicitar medida protetiva de urgência e que pretende acompanhar o processo criminal até o julgamento.
Próximos Passos
A Justiça deve realizar audiência de custódia do PM aposentado nas próximas 24 horas para decidir se ele permanece preso ou se será liberado com medidas cautelares. O Ministério Público deve pedir a manutenção da prisão preventiva, dado o histórico de violência e o risco à vítima.
A Deam vai concluir o inquérito policial em até 30 dias e encaminhar ao Ministério Público para oferecimento de denúncia. Se denunciado e condenado por tentativa de feminicídio, o PM aposentado pode pegar pena de 12 a 30 anos de reclusão.
A Polícia Federal será notificada para avaliar a suspensão do registro de arma do agressor. Enquanto o processo tramitar, a arma permanecerá apreendida.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres em MS anunciaram vigília em frente à Santa Casa para esta terça-feira (15), em solidariedade à vítima e em protesto contra a violência doméstica.
Fechamento
Uma mulher com um tiro no abdômen escalou um muro de dois metros para sobreviver. A cena, registrada por uma câmera de segurança no Jardim Colúmbia, é das mais brutais que Campo Grande já viu — e viralizou porque o Brasil inteiro precisava ver. O PM aposentado está preso. A mulher está na UTI. E o vídeo continua circulando, lembrando que a violência doméstica não escolhe bairro, classe social nem profissão do agressor. Quem estiver em situação de violência pode ligar para o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou para o 190 (Polícia Militar). A Deam de Campo Grande funciona 24 horas na Rua Firminópolis, 100, Jardim Paulista.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Deam — Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Campo Grande
- Sejusp — Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de MS
- Santa Casa de Campo Grande
