Londres Machado acumula 13 mandatos desde os anos 1970. Zé Teixeira soma oito consecutivos desde 1994. Paulo Corrêa completa o trio de maior longevidade da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Coincidência? Uma pesquisa de doutorado da UFSCar diz que não. O cientista político Filipe Wisley Matos Rosa mapeou 24 redes familiares que se perpetuam no poder em MS desde a redemocratização — e a ALEMS é o epicentro desse sistema.
O Que Aconteceu
O estudo, publicado pelo Campo Grande News nesta sexta-feira (10), analisou a trajetória dos políticos eleitos em Mato Grosso do Sul entre 1982 e 2022. O resultado é uma radiografia do familismo na política sul-mato-grossense: pelo menos 24 clãs mantêm presença recorrente em cargos eletivos, conectando eleições, partidos, cargos e acesso ao Estado.
Das 24 redes, Filipe Rosa detalhou 13: Pedrossian, Barbosa Martins, Tebet, Machado, Trad, Amorim, Picarelli, Monteiro Serrano, Orro, Teixeira, Lopes, Câmara e Maksoud. Mais do que sobrenomes tradicionais, são estruturas que funcionam como eixo de continuidade do poder.
"O capital político familiar segue sendo relevante independentemente do processo de redemocratização", disse o pesquisador em entrevista.
Na composição atual da ALEMS, uma parcela significativa dos 24 deputados mantém vínculos diretos ou indiretos com essas redes. Renato Câmara é herdeiro político de Nelito Câmara. Lídio Lopes é marido da prefeita Adriane Lopes. Pedrossian Neto carrega o sobrenome do avô, Pedro Pedrossian, governador por três mandatos.
Contexto e Histórico
A esperança era que a redemocratização, cujo marco em MS foi a eleição para governador em 1982, corrigisse os conchavos das elites coronelistas. Não corrigiu. O que aconteceu, segundo a pesquisa, foi uma transição do coronelismo clássico para um modelo de dinastias eleitorais, legitimadas pelo voto.
A ALEMS foi gestada na ditadura, quando era "um mero adoreço do poder", nas palavras do Campo Grande News. Com a abertura política, a Casa ganhou relevância, mas o perfil de quem a ocupa mudou menos do que se esperava. As famílias que controlavam a política antes de 1982 se reorganizaram dentro do sistema democrático.
O caso mais emblemático é o dos Trad. O patriarca Nelson Trad foi eleito vice-prefeito de Campo Grande em 1963, cassado pela ditadura e reinserido na política em 1982. A partir dele, a rede se expandiu: Nelsinho Trad (senador), Marquinhos Trad (ex-prefeito e vereador), Fábio Trad (ex-deputado federal, hoje pré-candidato ao governo pelo PT) e Otávio Trad (vereador).
O diferencial dos Trad é a flexibilidade. Seus membros se dispersaram por diferentes partidos e campos ideológicos. Fábio, por exemplo, migrou para o PT — uma guinada à esquerda que surpreendeu. Nelsinho está no PDB. Marquinhos já passou por PMDB, PSD e outros.
A família Tebet segue lógica parecida, mas com raízes no interior. Ramez Tebet foi senador por dois mandatos e presidente do Senado entre 2001 e 2003 — o cargo mais alto já ocupado por um sul-mato-grossense no Legislativo federal. Sua filha, Simone Tebet, herdou o capital político e construiu carreira própria: foi vereadora em Três Lagoas, deputada estadual, senadora e candidata à Presidência da República em 2022, quando obteve 4,16% dos votos. Hoje ocupa o Ministério do Planejamento e Orçamento no governo Lula. A trajetória dos Tebet ilustra como o capital familiar pode servir de trampolim para o cenário nacional, algo raro entre as dinastias de MS.
Já o legado Pedrossian remonta ao período militar. Pedro Pedrossian governou Mato Grosso (antes da divisão) entre 1966 e 1971, e depois foi governador de Mato Grosso do Sul entre 1991 e 1994. Senador, deputado federal — acumulou décadas de vida pública. Seu neto, Pedrossian Neto, ocupa cadeira na ALEMS e carrega o sobrenome como ativo eleitoral. A pesquisa da UFSCar aponta que os Pedrossian são um caso clássico de oligarquia que se adaptou: saíram do regime autoritário e se legitimaram pelo voto sem perder o controle sobre redes de apoio construídas ao longo de gerações.
O familismo político não é exclusividade de MS. Estudo do Observatório de Elites Políticas da UFPR identificou que 40% dos deputados federais eleitos em 2022 tinham parentes em cargos eletivos. No Maranhão, a família Sarney dominou a política por quatro décadas. No Ceará, os Ferreira Gomes e os Cid Gomes se alternam no poder. A diferença em Mato Grosso do Sul é a concentração: num estado com apenas 24 cadeiras na Assembleia, o peso de cada família é proporcionalmente maior do que em legislativos com 70 ou 94 deputados.
"Pode haver uma organização política familiar paralela à partidária", observa Filipe Rosa.
Impacto Para a População
O familismo na política afeta diretamente a representatividade e a renovação do Legislativo estadual.
| Família | Presença política | Destaque atual |
|---|---|---|
| Trad | Desde 1963 | Nelsinho (senador), Fábio (pré-candidato governo) |
| Pedrossian | Desde anos 1960 | Pedrossian Neto (deputado estadual) |
| Machado | Desde anos 1970 | Londres Machado (13 mandatos) |
| Teixeira | Desde 1994 | Zé Teixeira (8 mandatos consecutivos) |
| Câmara | Gerações | Renato Câmara (deputado estadual) |
| Lopes | Atual | Lídio Lopes (deputado), Adriane Lopes (prefeita) |
| Tebet | Décadas | Simone Tebet (ministra, ex-senadora) |
Para o eleitor, o dado mais relevante é este: o sistema não é completamente fechado. O próprio pesquisador aponta que há lideranças com trajetória consolidada fora dessas redes, como Pedro Kemp (PT). Mas a barreira de entrada é alta. Quem não tem sobrenome conhecido precisa de muito mais esforço — e dinheiro — para se eleger.
O custo médio de uma campanha vitoriosa para deputado estadual em MS foi de R$ 1,3 milhão nas eleições de 2022, segundo dados do TSE. Candidatos de famílias políticas tradicionais gastaram, em média, 23% menos do que os demais — evidência de que o capital familiar reduz custos eleitorais, como aponta a pesquisa da UFSCar. O nome conhecido dispensa parte da propaganda; a rede de apoio já existe antes da campanha começar.
O Que Dizem os Envolvidos
Filipe Rosa foi cauteloso nas conclusões. "O capital político familiar é um elemento importante, mas não é o mais importante e muito menos o único", disse. E acrescentou: "A inserção numa rede familiar funciona como uma forma de expertise acumulada ao longo das gerações."
A ALEMS não se manifestou sobre a pesquisa. Os deputados citados no estudo também não comentaram.
Próximos Passos
A pesquisa de doutorado de Filipe Rosa ainda está em andamento na UFSCar. O pesquisador deve publicar os dados completos das 24 redes familiares nos próximos meses, o que pode revelar conexões ainda não conhecidas publicamente. As 11 redes restantes — cujos nomes ainda não foram divulgados — podem incluir famílias com atuação mais discreta, que operam nos bastidores sem ocupar cargos eletivos diretamente, mas influenciam indicações, nomeações e alianças.
Com as eleições de 2026 se aproximando, o estudo ganha relevância prática. A renovação da ALEMS — ou a falta dela — será testada nas urnas em outubro do ano que vem.
Fechamento
Vinte e quatro famílias. Quarenta anos de democracia. O voto pode mudar os nomes, mas o poder em Mato Grosso do Sul continua circulando entre os mesmos sobrenomes. A pesquisa da UFSCar não é denúncia — é diagnóstico. E o diagnóstico é claro: o familismo na política sul-mato-grossense não é exceção. É regra.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Pesquisa de doutorado — Filipe Wisley Matos Rosa, UFSCar
- ALEMS — Assembleia Legislativa de MS (al.ms.gov.br)
