Operação Antidotum: Gaeco Prende Cúpula da Santa Casa de Campo Grande por Desvios
Operação deflagrada pelo Gaeco e Gecoc prendeu a presidente Alir Terra Lima e diretores da Santa Casa de Campo Grande por desvios de R$ 4,9 milhões.

A saúde pública de Mato Grosso do Sul vive um dos momentos mais turbulentos de sua história institucional recente. A deflagração da Operação Antidotum, coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) do Ministério Público Estadual (MPMS), resultou na prisão preventiva da alta cúpula da Santa Casa de Campo Grande, incluindo a diretora-presidente da instituição, Alir Terra Lima, além de diretores dos setores administrativo e financeiro.
A ofensiva apura esquemas articulados de fraudes licitatórias, desvio de recursos hospitalares e lavagem de capitais em contratos que somam prejuízos iniciais calculados em ao menos R$ 4,9 milhões. O impacto da ação ecoa com extrema gravidade por se tratar do maior complexo hospitalar do estado — uma estrutura filantrópica centenária responsável por absorver mais de 80% dos atendimentos de alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e socorrer pacientes regulados dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul.
Com o suporte operacional do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (BPChoque) e acompanhamento de representantes da Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados da OAB/MS, os agentes cumpriram 6 mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e no município de Goiânia (GO).
Os Detalhes da Investigação e o Esquema dos Contratos
De acordo com as apurações conduzidas conjuntamente pelo Gecoc e pelo Gaeco, o esquema fraudulento operava em duas frentes complementares, drenando verbas hospitalares destinadas à manutenção assistencial por meio de contratações de serviços superfaturados ou não prestados integralmente:
- Contrato de Digitalização de Prontuários Médicos: A Associação Beneficente de Campo Grande (entidade mantenedora do hospital) celebrou um contrato de três anos para a gestão documental e digitalização do arquivo médico, no valor global de R$ 5,4 milhões (R$ 1,8 milhão anual). O Ministério Público identificou que, apenas no primeiro ano de vigência contratual, cerca de R$ 1,4 milhão foi desviado mediante notas fiscais simuladas e falta de comprovação técnica dos serviços prestados.
- Contratos da Operadora Santa Casa Saúde: O segundo flanco da fraude mirou a operadora de planos de saúde gerida pela própria entidade. Foram identificados múltiplos contratos firmados com pessoas jurídicas pertencentes a um mesmo grupo econômico com vínculos diretos a integrantes da diretoria. As apurações revelaram que as sedes informadas das empresas correspondiam a imóveis residenciais desocupados ou endereços de fachada. Em 2025, tais empresas receberam repasses que totalizaram R$ 9,6 milhões, acarretando um rombo contábil direto estimado em ao menos R$ 3,5 milhões.
As investigações constataram ainda manobras reiteradas para ocultar a movimentação desses montantes da fiscalização do Conselho Fiscal da própria Santa Casa e de órgãos estaduais de controle, como a Controladoria-Geral do Estado (CGE) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS).
"As diligências revelaram um padrão continuado de celebração de instrumentos contratuais sem a observância das regras de governança e transparência, promovendo pagamentos vultosos a empresas interligadas, enquanto os serviços hospitalares básicos sofriam com alegações crônicas de desabastecimento e falta de recursos orçamentários." — Trecho do relatório circunstanciado de investigação do Ministério Público Estadual (MPMS)
Quem São os Presos na Operação Antidotum
Ao todo, seis mandados de prisão preventiva foram executados nas primeiras horas da manhã. A lista de investigados reúne figuras centrais que conduziam a política e as finanças da Santa Casa nos últimos anos:
- Alir Terra Lima: Advogada e diretora-presidente da Associação Beneficente de Campo Grande. Primeira mulher a presidir a instituição em mais de um século de história, Alir assumiu o comando com a promessa de sanear as finanças do hospital e pacificar conflitos históricos com o poder público.
- Alessandro Dias Junqueira: Diretor administrativo do complexo hospitalar, responsável direto pela validação técnica de contratos operacionais e de logística.
- Rinaldo Romano: Diretor administrativo-financeiro da Santa Casa, figura-chave na autorização de ordens de pagamento, fluxo de caixa e gestão orçamentária da entidade.
- Paulo Guilherme Gutierre Mariosa: Diretor de finanças adjunto, com atuação na gestão de tesouraria e conciliação bancária da mantenedora e da operadora de planos de saúde.
- Monique Gregório: Supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME), setor diretamente atrelado ao contrato sob suspeita de digitalização de prontuários.
- Mauricio Aparecido Benites: Empresário apontado pelo MPMS como beneficiário final e controlador fático de empresas contratadas pelo hospital para a execução dos serviços questionados.
Os detidos foram submetidos a exames de corpo de delito no Instituto de Medicina e Odontologia Legal (IMOL) e encaminhados para audiência de custódia na Justiça Estadual, enquanto os mandados de busca e apreensão resultaram na apreensão de computadores, aparelhos celulares, mídias digitais e dezenas de pastas com documentos contábeis recolhidos na sede do hospital e em endereços particulares.
Painel Consolidado da Operação Antidotum
Para dimensionar o alcance e os números apurados pelos órgãos de investigação, a tabela abaixo resume os elementos centrais do caso:
| Indicador / Eixo da Operação | Detalhamento Apurado pelo MPMS | Impacto na Estrutura Hospitalar |
|---|---|---|
| Mandados de Prisão Preventiva | 6 mandados cumpridos (incluindo presidência e diretorias) | Afastamento cautelar imediato da governança executiva |
| Mandados de Busca e Apreensão | 36 mandados cumpridos em CG, Dourados e Goiânia | Apreensão de documentação física, sistemas e arquivos digitais |
| Contrato de Digitalização | R$ 5,4 milhões (previsão 3 anos) com R$ 1,4 mi desviado no ano 1 | Fragilidade na rastreabilidade de arquivos do SAME |
| Operadora Santa Casa Saúde | R$ 9,6 milhões pagos em 2025 a empresas de mesmo grupo | Prejuízo de ao menos R$ 3,5 milhões apurado até o momento |
| Forças Mobilizadas | Gecoc, Gaeco, BPChoque da PMMS e comissão da OAB/MS | Investigação criminal simultânea por fraude e lavagem |
| Situação do Atendimento SUS | 100% mantido em pronto-socorro, leitos e emergência | Equipes médicas e de enfermagem atuando regularmente |
Contexto de Crise e Contraste com as Cirurgias Cardíacas Pediátricas
A eclosão da Operação Antidotum gera forte comoção social porque ocorre exatamente em meio a uma das piores crises assistenciais vivenciadas pelo hospital. Desde 29 de julho de 2026, a Santa Casa de Campo Grande suspendeu a realização de cirurgias cardíacas pediátricas eletivas pelo SUS — único serviço de alta complexidade habilitado em todo o estado de Mato Grosso do Sul para operar bebês e crianças com cardiopatias congênitas graves.
A justificativa apresentada reiteradamente pela direção da Santa Casa para a paralisação do serviço cardíaco pediátrico era a carência de recursos financeiros e a descontinuidade de equipes médicas especializadas. Na ocasião, a entidade alegava atrasos nos repasses e déficit crônico entre os custos reais dos procedimentos e a remuneração paga pela tabela do Ministério da Saúde. Crianças sul-mato-grossenses chegaram a entrar na fila de regulação nacional para serem transportadas a hospitais de São Paulo, Paraná e Distrito Federal.
O contraste entre a escassez de verbas para procedimentos vitais de alta complexidade pediátrica e os pagamentos milionários direcionados a contratos sob suspeita de fraude aprofundou o descontentamento da classe médica e dos órgãos de defesa dos direitos humanos no estado.
"A sociedade não compreende como um hospital que suspende atendimentos pediátricos essenciais sob o pretexto de asfixia financeira possa registrar desvios sistemáticos de milhões de reais em contratos de arquivo e consultorias fantasmas." — Avaliação reservada de promotores que integram a força-tarefa da saúde pública estadual
Repercussão Institucional e Posição das Entidades de Classe
Apesar do impacto das prisões na alta cúpula, as entidades sindicais e a administração do hospital mobilizaram esforços para tranquilizar a população e evitar a descontinuidade dos serviços aos pacientes internados.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Enfermagem de Mato Grosso do Sul (Siems), Lázaro Santana, ressaltou que as escalas de trabalho foram cumpridas integralmente:
"Não tem nada diferente no atendimento até agora. A crise financeira que já estava estabelecida ao longo dos anos continua, mas o foco das equipes segue sendo o cuidado com os pacientes e a garantia de que a enfermagem tenha condições de prestar assistência digna nos leitos e no pronto-socorro."
Posicionamento semelhante foi manifestado pelo presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (Sinmed-MS), Marcelo Santana:
"Nessa questão das investigações criminais não entraremos no mérito, que cabe exclusivamente à Justiça. No entanto, fazemos questão de reforçar que os médicos continuam nos seus postos de atendimento e que a assistência médica à população sul-mato-grossense se mantém sem mudanças."
O advogado Esacheu Nascimento, que presidiu a Santa Casa durante períodos históricos de grave tensão orçamentária, declarou ter recebido a notícia da operação com surpresa:
"Conheço a advogada Alir Terra e ela sempre possuiu uma reputação profissional ilibada. Se houve desvios ou equívocos de conduta na gestão, é uma enorme surpresa para mim. A Santa Casa vive uma realidade financeira quase inadministrável há décadas pela defasagem do SUS, e qualquer irregularidade precisa ser apurada com máximo rigor, mas respeitando-se o devido processo legal."
Nota Oficial da Santa Casa de Campo Grande
Por meio de nota de esclarecimento emitida à imprensa, a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande declarou:
"A Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande informa que está prestando atendimento às autoridades responsáveis pela operação realizada nesta sexta-feira (11), colocando-se à disposição para fornecer as informações e os esclarecimentos que forem formalmente solicitados. A instituição respeita e acompanha o trabalho das autoridades competentes e, neste momento, aguarda a liberação do acesso aos autos para conhecer oficialmente o conteúdo das acusações e, a partir disso, poder se manifestar de forma adequada sobre os fatos. A Santa Casa reforça que os atendimentos à população seguem normalmente, sem qualquer prejuízo à assistência aos pacientes."
As defesas dos diretores presos afirmaram que ainda não tiveram acesso irrestrito ao inteiro teor do inquérito e que ingressarão com pedidos de revogação da prisão preventiva ou concessão de prisão domiciliar, sustentando que os investigados possuem residência fixa, profissão lícita e colaboram plenamente com os esclarecimentos dos fatos perante a 1ª Vara Criminal da comarca de Campo Grande.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MS) e a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau) emitiram comunicado conjunto informando que acompanham o caso de perto e que os repasses estaduais e municipais pactuados por meio do contrato de contratualização do SUS continuarão sendo monitorados com auditorias rigorosas para assegurar que nenhum leito seja fechado e nenhum paciente fique desamparado na rede de saúde pública.
Fonte: Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) / Gaeco / Gecoc
❓ Perguntas Frequentes
A Operação Antidotum, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul por meio do Gaeco e do Gecoc com apoio do Batalhão de Choque da PMMS, cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão. Os alvos principais foram a cúpula da Associação Beneficente de Campo Grande, incluindo a diretora-presidente Alir Terra Lima, o diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira, o diretor administrativo-financeiro Rinaldo Romano, o diretor adjunto Paulo Guilherme Gutierre Mariosa, a supervisora Monique Gregório e o empresário Mauricio Aparecido Benites, em diligências executadas em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
As investigações apontam dois eixos principais de irregularidades financeiras. O primeiro envolveu um contrato de prestação de serviços para digitalização de prontuários médicos firmado por R$ 5,4 milhões em três anos, no qual ao menos R$ 1,4 milhão teria sido desviado logo no primeiro ano. O segundo eixo identificou contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico vinculadas a integrantes da diretoria, registradas em endereços desocupados, que movimentaram mais de R$ 9,6 milhões e causaram prejuízo direto estimado em R$ 3,5 milhões ao patrimônio da entidade hospitalar filantrópica.
Não. A Santa Casa de Campo Grande divulgou nota oficial garantindo que as atividades de assistência médica, atendimentos de urgência e emergência e as visitas hospitalares continuam funcionando normalmente para toda a população. O Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul e o Sindicato dos Trabalhadores em Enfermagem também confirmaram que as equipes de saúde permanecem nos postos de trabalho para manter os cuidados assistenciais, embora a categoria ressalte que a grave crise estrutural e a defasagem histórica da tabela do SUS continuam desafiando a sustentabilidade do complexo hospitalar.
Redação Foco do Estado
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