Artefatos pré-coloniais indicam presença humana milenar em Campo Grande
Pesquisadores da UFMS encontram pedras lascadas e cerâmicas que comprovam ocupação indígena de até 3 mil anos na capital

Pedras lascadas com marcas de uso humano. Fragmentos de cerâmica com padrões decorativos. Os artefatos encontrados por pesquisadores da UFMS em sítios arqueológicos na região urbana de Campo Grande contam uma história que começa 3 mil anos antes da fundação da cidade. A capital de MS foi território indígena muito antes de ser capital de qualquer coisa.
O Que Aconteceu
O Laboratório de Arqueologia da UFMS divulgou nesta semana os resultados preliminares de escavações realizadas em dois sítios arqueológicos localizados dentro do perímetro urbano de Campo Grande. Os trabalhos, que começaram em agosto de 2025, revelaram 147 artefatos líticos e 83 fragmentos de cerâmica em camadas de solo datadas entre 1.500 e 3.000 anos atrás.
As pedras lascadas — feitas de arenito silicificado e quartzo — apresentam marcas de uso como ferramentas de corte, raspagem e perfuração. Algumas têm formato de ponta de projétil, indicando atividade de caça. As cerâmicas, decoradas com incisões geométricas e impressões de cordas, são associadas a povos de tradição ceramista que ocupavam o cerrado sul-mato-grossense.
"A gente sabia que havia ocupação pré-colonial na região, mas não com essa antiguidade. Três mil anos é muito significativo. Mostra que Campo Grande não nasceu em 1899 — a ocupação humana aqui é milenar", explicou a coordenadora do Laboratório de Arqueologia da UFMS.
Os sítios estão localizados em áreas de preservação permanente às margens de córregos urbanos — o que explica a escolha dos antigos habitantes, que buscavam proximidade com água. A localização exata não foi divulgada para evitar depredação.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul tem mais de 400 sítios arqueológicos catalogados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A maioria está em áreas rurais, mas a expansão urbana tem revelado vestígios em cidades como Campo Grande, Dourados e Corumbá.
A região de Campo Grande era ocupada principalmente pelos Terena, povo de língua Aruak que vivia em aldeias organizadas com agricultura de mandioca, milho e feijão. Os Terena mantêm presença no estado até hoje — a aldeia Jaguapiru, em Dourados, é uma das maiores do Brasil, com 15 mil habitantes. Em Campo Grande, a comunidade Terena da aldeia Marçal de Souza, no bairro Tiradentes, tem cerca de 3 mil moradores.
Os artefatos encontrados pela UFMS, porém, podem ser anteriores à chegada dos Terena à região. A datação de 3 mil anos remete a povos caçadores-coletores que habitavam o cerrado antes da expansão dos grupos ceramistas. "Estamos falando de populações que viviam da caça, da pesca e da coleta de frutos do cerrado. Não tinham agricultura, mas tinham tecnologia lítica sofisticada", explicou o arqueólogo responsável pelas escavações. A equipe identificou vestígios de fogueiras em uma das camadas escavadas, com fragmentos de carvão que serão enviados para datação por carbono-14.
A descoberta se soma a outras recentes em MS. Em 2024, pesquisadores encontraram pinturas rupestres em cavernas de Bodoquena com datação estimada de 8 mil anos. Em 2023, um sítio arqueológico em Ladário revelou cerâmicas da tradição Pantanal com 2.500 anos. O Laboratório de Arqueologia da UFMS mantém pesquisas ativas em 43 sítios espalhados pelo estado, mas opera com orçamento anual de apenas R$ 380 mil — valor que cobre salários de dois técnicos e material básico de escavação.
O crescimento urbano de Campo Grande — que passou de 786 mil para 916 mil habitantes entre 2010 e 2022 — pressiona áreas que podem conter sítios arqueológicos. A legislação exige estudo de impacto arqueológico antes de obras em áreas sensíveis, mas a fiscalização é limitada.
As escavações da UFMS aconteceram em áreas de mata ciliar às margens de córregos que cortam a zona urbana — o Prosa, o Segredo e o Anhanduí. Os antigos habitantes escolhiam esses pontos pela proximidade com água potável e pela abundância de frutos do cerrado: pequi, baru, mangaba e bocaiuva, espécies que ainda resistem em fragmentos de vegetação nativa dentro da cidade. Uma das peças mais significativas é uma lâmina de machado polida em basalto, com marcas de encabamento, encontrada a 1,8 metro de profundidade — profundidade que indica deposição de pelo menos 2 mil anos, segundo a equipe. O solo avermelhado do cerrado campo-grandense, rico em óxido de ferro, ajudou a preservar os artefatos em condições que surpreenderam os pesquisadores.
Impacto Para a População
A descoberta reescreve a história de Campo Grande e reforça a importância da preservação do patrimônio arqueológico.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Artefatos líticos | 147 peças |
| Fragmentos de cerâmica | 83 peças |
| Datação | 1.500 a 3.000 anos |
| Sítios escavados | 2 (perímetro urbano) |
| Sítios catalogados em MS | Mais de 400 |
| Fundação de Campo Grande | 1899 (127 anos) |
| População Terena em CG | ~3 mil (aldeia Marçal de Souza) |
| Instituição | UFMS — Lab. de Arqueologia |
Para a comunidade acadêmica, os artefatos abrem novas linhas de pesquisa sobre a ocupação pré-colonial do cerrado sul-mato-grossense. Para a população de Campo Grande, a descoberta é um lembrete de que a cidade tem raízes muito mais profundas do que os 127 anos de fundação oficial.
Para os povos indígenas de MS, a pesquisa reforça o que já sabiam: a terra era deles antes de ser de qualquer um. "Quando o arqueólogo encontra uma ponta de flecha de 3 mil anos, ele tá confirmando o que nossos avós sempre contaram. A gente tava aqui primeiro", disse uma liderança Terena da aldeia Marçal de Souza. A exposição prevista para agosto pode atrair visitantes de fora do estado e fortalecer o turismo cultural de Campo Grande, segmento que movimentou R$ 14 milhões em 2025 segundo a Fundtur.
O Que Dizem os Envolvidos
A reitoria da UFMS informou que vai ampliar o financiamento do Laboratório de Arqueologia para dar continuidade às escavações. "A descoberta tem relevância nacional e coloca a UFMS no mapa da pesquisa arqueológica brasileira", disse o reitor em nota.
O Iphan em MS confirmou que os sítios estão sendo catalogados e que medidas de proteção serão implementadas. "Sítios arqueológicos em área urbana são especialmente vulneráveis. Vamos trabalhar com a prefeitura para garantir a preservação", informou o superintendente regional.
A prefeitura de Campo Grande não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Próximos Passos
A UFMS vai enviar amostras dos artefatos para datação por carbono-14 em laboratório especializado, o que deve confirmar ou refinar a estimativa de idade. Os resultados são esperados para o segundo semestre de 2026.
O Iphan vai incluir os dois sítios no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos e definir perímetro de proteção. A medida pode restringir obras e intervenções nas áreas adjacentes.
O Laboratório de Arqueologia da UFMS planeja uma exposição pública dos artefatos no Museu de Arqueologia da universidade, prevista para agosto de 2026.
Fechamento
Três mil anos. A cidade que se orgulha de ter 127 anos de história carrega no subsolo vestígios de uma ocupação que começou quando Roma ainda não existia. As pedras lascadas e cerâmicas encontradas pela UFMS são mais do que curiosidade acadêmica — são prova de que Campo Grande é terra indígena desde sempre. Quem encontrar artefatos arqueológicos em obras ou terrenos deve comunicar o Iphan pelo (67) 3382-4478. A destruição de sítios arqueológicos é crime.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- UFMS — Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (ufms.br)
- Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (iphan.gov.br)
💰 Descoberta arqueológica
Idade estimada
Até 3 mil anos
Artefatos encontrados
Pedras e cerâmicas
Instituição
UFMS
Local
Região urbana de CG
Fonte: Campo Grande News / UFMS
❓ Perguntas Frequentes
Pesquisadores do Laboratório de Arqueologia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) encontraram artefatos líticos (pedras lascadas e polidas) e fragmentos de cerâmica em sítios arqueológicos localizados na região urbana de Campo Grande. As pedras lascadas eram usadas como ferramentas de corte e raspagem, enquanto as cerâmicas indicam atividade de armazenamento e preparo de alimentos. A datação preliminar por termoluminescência sugere que os artefatos têm entre 1.500 e 3.000 anos, comprovando a ocupação humana na região muito antes da fundação da cidade em 1899.
A região onde hoje se localiza Campo Grande era habitada por diversos povos indígenas antes da colonização europeia. Os Terena, povo de língua Aruak, ocupavam as áreas de cerrado e campos da região central de Mato Grosso do Sul. Os Guarani-Kaiowá habitavam a porção sul do estado. Os Guató viviam nas áreas alagáveis do Pantanal. Os Kadiwéu ocupavam a região noroeste. A presença desses povos é documentada por relatos de expedições coloniais desde o século XVI e por sítios arqueológicos espalhados por todo o estado. A UFMS mantém pesquisas ativas em mais de 40 sítios arqueológicos em MS.
Quando artefatos arqueológicos são encontrados durante obras urbanas no Brasil, a legislação federal (Lei 3.924/1961 e Portaria Iphan 230/2002) determina que a obra deve ser paralisada imediatamente e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) notificado. O órgão avalia o sítio e pode determinar o resgate arqueológico — escavação controlada para retirada dos artefatos — antes da retomada da obra. Em Campo Grande, o Iphan tem escritório regional e atende pelo telefone (67) 3382-4478. A destruição de sítios arqueológicos é crime previsto no Código Penal, com pena de 1 a 3 anos de detenção.
Camila Ferreira
Repórter
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