Biodiesel exigirá de MS expansão de soja em área do tamanho de CG
Demanda crescente por biodiesel no Brasil vai exigir que Mato Grosso do Sul expanda o plantio de soja em área equivalente a Campo Grande

Mato Grosso do Sul vai precisar plantar soja numa área do tamanho de Campo Grande para dar conta da fome do Brasil por biodiesel. São 809 mil hectares a mais de lavoura — o equivalente ao território inteiro da capital — que o estado terá de colocar em produção até 2030 para atender a meta federal de elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 14% para 20%. O número saiu de estudo apresentado nesta segunda-feira (14) durante seminário do setor sucroenergético em Campo Grande.
O Que Aconteceu
O dado foi apresentado pelo diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) durante o Seminário de Bioenergia de MS, realizado no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, em Campo Grande. O estudo projeta que a demanda nacional por óleo de soja para biodiesel vai saltar dos atuais 7,2 bilhões de litros por ano para 10,8 bilhões de litros até 2030, quando a mistura obrigatória atingir 20%.
MS é o quinto maior produtor de soja do Brasil, com 4,2 milhões de hectares plantados na safra 2025/2026 e produção estimada em 13,5 milhões de toneladas. Para atender a demanda adicional de biodiesel, o estado precisaria elevar a área plantada para cerca de 5 milhões de hectares — um salto de 19%.
O estudo aponta que a expansão deve ocorrer sobre pastagens degradadas, seguindo a tendência das últimas duas décadas. Entre 2000 e 2025, MS converteu aproximadamente 2,3 milhões de hectares de pasto em lavoura de soja, sem abertura significativa de vegetação nativa. O modelo é considerado referência no Brasil e tem sido usado pelo governo federal para demonstrar que é possível aumentar a produção agrícola sem desmatar.
Contexto e Histórico
O biodiesel brasileiro é feito predominantemente de óleo de soja — cerca de 70% da matéria-prima vem do grão. O restante é composto por gordura animal, óleo de palma e outras fontes. A política de mistura obrigatória começou em 2008, com 2% de biodiesel no diesel (B2), e foi sendo elevada gradualmente. Em 2024, chegou a 14% (B14). O governo federal aprovou cronograma para atingir 20% (B20) até 2030.
Para Mato Grosso do Sul, a política de biodiesel é uma faca de dois gumes. De um lado, garante demanda firme para a soja produzida no estado, sustentando preços e gerando empregos no campo. Do outro, exige uma expansão agrícola que pressiona recursos naturais — água, solo, biodiversidade — e pode gerar conflitos com a pecuária, que ainda ocupa a maior parte do território sul-mato-grossense.
O estado tem 21,5 milhões de hectares de área rural, dos quais cerca de 12 milhões são ocupados por pastagens. Nem toda pastagem é degradada ou passível de conversão em lavoura. Áreas com solo arenoso, relevo acidentado ou proximidade de cursos d'água não são adequadas para o plantio de soja. Técnicos da Embrapa Agropecuária Oeste, sediada em Dourados, estimam que entre 3 e 4 milhões de hectares de pastagem em MS têm potencial real para conversão em lavoura de grãos.
A expansão da soja em MS tem história. Nos anos 1970, o estado era essencialmente pecuarista. A soja chegou com força nos anos 1990, impulsionada por programas de financiamento do governo federal e pela adaptação de cultivares ao Cerrado. Desde então, a área plantada cresceu de forma contínua, transformando municípios como Maracaju, Dourados e Chapadão do Sul em potências agrícolas. Maracaju, por exemplo, produz mais de 1 milhão de toneladas de soja por safra — mais do que muitos estados brasileiros inteiros.
O setor de biodiesel em MS conta com cinco usinas em operação, localizadas em Dourados, Três Lagoas, Campo Grande, Sidrolândia e Chapadão do Sul. Juntas, elas têm capacidade de processar 1,8 bilhão de litros de biodiesel por ano. Com a elevação da mistura para B20, a capacidade instalada precisará ser ampliada, o que deve atrair novos investimentos para o estado.
A questão ambiental é central no debate. O Pantanal, que ocupa a porção oeste de MS, é protegido por legislação específica e não pode ser convertido em lavoura. O Cerrado, que cobre a maior parte do leste e do sul do estado, tem proteção parcial pelo Código Florestal — que exige a manutenção de 20% de reserva legal em propriedades rurais. A expansão da soja sobre pastagens degradadas no Cerrado é permitida, desde que respeitadas as áreas de preservação permanente e a reserva legal.
Impacto Para a População
A expansão da soja para biodiesel terá reflexos econômicos, ambientais e sociais em Mato Grosso do Sul.
| Aspecto | Situação atual | Projeção 2030 |
|---|---|---|
| Área de soja em MS | 4,2 milhões de ha | 5 milhões de ha |
| Produção de soja | 13,5 milhões de ton | 16,2 milhões de ton |
| Mistura de biodiesel | B14 (14%) | B20 (20%) |
| Usinas de biodiesel em MS | 5 | 7 a 8 (projeção) |
| Empregos diretos no campo | 85 mil | 102 mil (projeção) |
Para o produtor rural sul-mato-grossense, a demanda crescente por soja é boa notícia. Mais demanda significa preços mais estáveis e menor dependência do mercado externo — hoje, cerca de 60% da soja de MS é exportada para a China. O biodiesel cria um mercado interno robusto que funciona como colchão em anos de queda nos preços internacionais.
Para o trabalhador do campo, a expansão pode gerar até 17 mil novos empregos diretos em MS até 2030, segundo estimativa da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de MS). A maioria será em operação de máquinas, logística e beneficiamento de grãos.
O lado negativo é a pressão sobre a pecuária. A conversão de pastagem em lavoura reduz a área disponível para o gado, o que pode elevar o preço da arroba do boi e, consequentemente, o preço da carne para o consumidor. MS tem o quarto maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 19 milhões de cabeças, e a pecuária é parte da identidade cultural pantaneira.
O Que Dizem os Envolvidos
O presidente da Famasul afirmou que a expansão da soja é viável e que o estado tem condições de atender a demanda sem comprometer o meio ambiente. "MS já provou que é possível produzir mais sem desmatar. A conversão de pastagem degradada em lavoura é um modelo que funciona e que o mundo reconhece", disse durante o seminário.
Representantes da Embrapa Agropecuária Oeste ponderaram que a expansão precisa ser acompanhada de assistência técnica para garantir práticas conservacionistas. "Não basta plantar soja. É preciso fazer plantio direto, rotação de culturas e manejo integrado de pragas para manter a produtividade do solo a longo prazo", alertou o pesquisador da unidade de Dourados.
Ambientalistas presentes no evento questionaram o ritmo da expansão. "Converter 809 mil hectares de pasto em lavoura em quatro anos é agressivo. Precisamos de estudos de impacto ambiental sérios, não de metas definidas pelo mercado", afirmou a coordenadora de uma ONG ambiental que atua no Cerrado de MS.
Próximos Passos
O governo de MS deve lançar até o segundo semestre de 2026 um programa de incentivo à conversão de pastagens degradadas em lavouras de grãos, com linhas de crédito subsidiadas pelo Banco do Brasil e pelo BNDES. O programa terá como foco municípios do leste e do sul do estado.
A Abiove vai apresentar o estudo completo ao Ministério de Minas e Energia e ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para subsidiar a regulamentação do cronograma de elevação da mistura de biodiesel.
Novas usinas de biodiesel devem ser anunciadas em MS nos próximos meses. Pelo menos dois grupos empresariais — um nacional e um argentino — estão em negociação com o governo estadual para instalar plantas industriais em Dourados e Naviraí.
A Embrapa planeja ampliar os ensaios de cultivares de soja com alto teor de óleo, mais adequadas para a produção de biodiesel, em suas estações experimentais de Dourados e Chapadão do Sul.
Fechamento
Uma área do tamanho de Campo Grande coberta de soja. O número impressiona, mas reflete uma realidade que já está em curso: MS se transforma, safra após safra, de estado pecuarista em potência agrícola. O biodiesel acelera essa transição. Para o produtor, é oportunidade. Para o pantaneiro que vive do gado, é incerteza. E para o Cerrado, é mais uma pressão sobre um bioma que já perdeu metade da cobertura original. O equilíbrio entre produzir e preservar continua sendo o maior desafio do agro sul-mato-grossense.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Abiove — Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (abiove.org.br)
- Embrapa Agropecuária Oeste (embrapa.br/agropecuaria-oeste)
- Famasul — Federação da Agricultura e Pecuária de MS (famasul.com.br)
💰 Expansão da soja para biodiesel
Área de expansão necessária
809 mil hectares
Equivalente a
Município de Campo Grande
Mistura obrigatória atual
14% de biodiesel
Meta até 2030
20% de biodiesel
Fonte: Campo Grande News
❓ Perguntas Frequentes
Segundo projeções do setor, Mato Grosso do Sul precisará expandir o plantio de soja em aproximadamente 809 mil hectares para atender a demanda crescente de biodiesel no Brasil. Essa área equivale ao território do município de Campo Grande, a capital do estado. A expansão será necessária porque o governo federal planeja elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 14% para 20% até 2030, o que aumentará significativamente a demanda por óleo de soja, principal matéria-prima do biodiesel brasileiro.
A expansão do plantio de soja em Mato Grosso do Sul deve ocorrer principalmente sobre áreas de pastagem degradada, seguindo a tendência observada nas últimas duas décadas no estado. Regiões como o leste de MS — municípios de Chapadão do Sul, Costa Rica e Cassilândia — e o sul — Dourados, Maracaju e Ponta Porã — são as mais propícias para a conversão de pasto em lavoura. O Código Florestal e o Zoneamento Ecológico-Econômico de MS proíbem a abertura de novas áreas de vegetação nativa para agricultura, o que direciona a expansão para pastagens já existentes.
A expansão da soja sobre pastagens degradadas é considerada menos impactante do que a abertura de vegetação nativa, mas não é isenta de consequências ambientais. A conversão de pasto em lavoura altera o uso do solo, pode aumentar a erosão se não houver práticas conservacionistas adequadas e demanda mais agrotóxicos e fertilizantes. Por outro lado, o biodiesel produzido a partir da soja emite menos gases de efeito estufa do que o diesel fóssil, contribuindo para a meta brasileira de redução de emissões. O desafio é equilibrar a expansão agrícola com a preservação dos biomas Cerrado e Pantanal.
Juliana Mendes
Repórter
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