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quarta-feira, 15 de abril de 2026
🌾 Agro

Biodiesel exigirá de MS expansão de soja em área do tamanho de CG

Demanda crescente por biodiesel no Brasil vai exigir que Mato Grosso do Sul expanda o plantio de soja em área equivalente a Campo Grande

Juliana Mendes8 min de leituraCampo Grande
Biodiesel exigirá de MS expansão de soja em área do tamanho de CG

Mato Grosso do Sul vai precisar plantar soja numa área do tamanho de Campo Grande para dar conta da fome do Brasil por biodiesel. São 809 mil hectares a mais de lavoura — o equivalente ao território inteiro da capital — que o estado terá de colocar em produção até 2030 para atender a meta federal de elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 14% para 20%. O número saiu de estudo apresentado nesta segunda-feira (14) durante seminário do setor sucroenergético em Campo Grande.

O Que Aconteceu

O dado foi apresentado pelo diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) durante o Seminário de Bioenergia de MS, realizado no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, em Campo Grande. O estudo projeta que a demanda nacional por óleo de soja para biodiesel vai saltar dos atuais 7,2 bilhões de litros por ano para 10,8 bilhões de litros até 2030, quando a mistura obrigatória atingir 20%.

MS é o quinto maior produtor de soja do Brasil, com 4,2 milhões de hectares plantados na safra 2025/2026 e produção estimada em 13,5 milhões de toneladas. Para atender a demanda adicional de biodiesel, o estado precisaria elevar a área plantada para cerca de 5 milhões de hectares — um salto de 19%.

O estudo aponta que a expansão deve ocorrer sobre pastagens degradadas, seguindo a tendência das últimas duas décadas. Entre 2000 e 2025, MS converteu aproximadamente 2,3 milhões de hectares de pasto em lavoura de soja, sem abertura significativa de vegetação nativa. O modelo é considerado referência no Brasil e tem sido usado pelo governo federal para demonstrar que é possível aumentar a produção agrícola sem desmatar.

Contexto e Histórico

O biodiesel brasileiro é feito predominantemente de óleo de soja — cerca de 70% da matéria-prima vem do grão. O restante é composto por gordura animal, óleo de palma e outras fontes. A política de mistura obrigatória começou em 2008, com 2% de biodiesel no diesel (B2), e foi sendo elevada gradualmente. Em 2024, chegou a 14% (B14). O governo federal aprovou cronograma para atingir 20% (B20) até 2030.

Para Mato Grosso do Sul, a política de biodiesel é uma faca de dois gumes. De um lado, garante demanda firme para a soja produzida no estado, sustentando preços e gerando empregos no campo. Do outro, exige uma expansão agrícola que pressiona recursos naturais — água, solo, biodiversidade — e pode gerar conflitos com a pecuária, que ainda ocupa a maior parte do território sul-mato-grossense.

O estado tem 21,5 milhões de hectares de área rural, dos quais cerca de 12 milhões são ocupados por pastagens. Nem toda pastagem é degradada ou passível de conversão em lavoura. Áreas com solo arenoso, relevo acidentado ou proximidade de cursos d'água não são adequadas para o plantio de soja. Técnicos da Embrapa Agropecuária Oeste, sediada em Dourados, estimam que entre 3 e 4 milhões de hectares de pastagem em MS têm potencial real para conversão em lavoura de grãos.

A expansão da soja em MS tem história. Nos anos 1970, o estado era essencialmente pecuarista. A soja chegou com força nos anos 1990, impulsionada por programas de financiamento do governo federal e pela adaptação de cultivares ao Cerrado. Desde então, a área plantada cresceu de forma contínua, transformando municípios como Maracaju, Dourados e Chapadão do Sul em potências agrícolas. Maracaju, por exemplo, produz mais de 1 milhão de toneladas de soja por safra — mais do que muitos estados brasileiros inteiros.

O setor de biodiesel em MS conta com cinco usinas em operação, localizadas em Dourados, Três Lagoas, Campo Grande, Sidrolândia e Chapadão do Sul. Juntas, elas têm capacidade de processar 1,8 bilhão de litros de biodiesel por ano. Com a elevação da mistura para B20, a capacidade instalada precisará ser ampliada, o que deve atrair novos investimentos para o estado.

A questão ambiental é central no debate. O Pantanal, que ocupa a porção oeste de MS, é protegido por legislação específica e não pode ser convertido em lavoura. O Cerrado, que cobre a maior parte do leste e do sul do estado, tem proteção parcial pelo Código Florestal — que exige a manutenção de 20% de reserva legal em propriedades rurais. A expansão da soja sobre pastagens degradadas no Cerrado é permitida, desde que respeitadas as áreas de preservação permanente e a reserva legal.

Impacto Para a População

A expansão da soja para biodiesel terá reflexos econômicos, ambientais e sociais em Mato Grosso do Sul.

Aspecto Situação atual Projeção 2030
Área de soja em MS 4,2 milhões de ha 5 milhões de ha
Produção de soja 13,5 milhões de ton 16,2 milhões de ton
Mistura de biodiesel B14 (14%) B20 (20%)
Usinas de biodiesel em MS 5 7 a 8 (projeção)
Empregos diretos no campo 85 mil 102 mil (projeção)

Para o produtor rural sul-mato-grossense, a demanda crescente por soja é boa notícia. Mais demanda significa preços mais estáveis e menor dependência do mercado externo — hoje, cerca de 60% da soja de MS é exportada para a China. O biodiesel cria um mercado interno robusto que funciona como colchão em anos de queda nos preços internacionais.

Para o trabalhador do campo, a expansão pode gerar até 17 mil novos empregos diretos em MS até 2030, segundo estimativa da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de MS). A maioria será em operação de máquinas, logística e beneficiamento de grãos.

O lado negativo é a pressão sobre a pecuária. A conversão de pastagem em lavoura reduz a área disponível para o gado, o que pode elevar o preço da arroba do boi e, consequentemente, o preço da carne para o consumidor. MS tem o quarto maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 19 milhões de cabeças, e a pecuária é parte da identidade cultural pantaneira.

O Que Dizem os Envolvidos

O presidente da Famasul afirmou que a expansão da soja é viável e que o estado tem condições de atender a demanda sem comprometer o meio ambiente. "MS já provou que é possível produzir mais sem desmatar. A conversão de pastagem degradada em lavoura é um modelo que funciona e que o mundo reconhece", disse durante o seminário.

Representantes da Embrapa Agropecuária Oeste ponderaram que a expansão precisa ser acompanhada de assistência técnica para garantir práticas conservacionistas. "Não basta plantar soja. É preciso fazer plantio direto, rotação de culturas e manejo integrado de pragas para manter a produtividade do solo a longo prazo", alertou o pesquisador da unidade de Dourados.

Ambientalistas presentes no evento questionaram o ritmo da expansão. "Converter 809 mil hectares de pasto em lavoura em quatro anos é agressivo. Precisamos de estudos de impacto ambiental sérios, não de metas definidas pelo mercado", afirmou a coordenadora de uma ONG ambiental que atua no Cerrado de MS.

Próximos Passos

O governo de MS deve lançar até o segundo semestre de 2026 um programa de incentivo à conversão de pastagens degradadas em lavouras de grãos, com linhas de crédito subsidiadas pelo Banco do Brasil e pelo BNDES. O programa terá como foco municípios do leste e do sul do estado.

A Abiove vai apresentar o estudo completo ao Ministério de Minas e Energia e ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para subsidiar a regulamentação do cronograma de elevação da mistura de biodiesel.

Novas usinas de biodiesel devem ser anunciadas em MS nos próximos meses. Pelo menos dois grupos empresariais — um nacional e um argentino — estão em negociação com o governo estadual para instalar plantas industriais em Dourados e Naviraí.

A Embrapa planeja ampliar os ensaios de cultivares de soja com alto teor de óleo, mais adequadas para a produção de biodiesel, em suas estações experimentais de Dourados e Chapadão do Sul.

Fechamento

Uma área do tamanho de Campo Grande coberta de soja. O número impressiona, mas reflete uma realidade que já está em curso: MS se transforma, safra após safra, de estado pecuarista em potência agrícola. O biodiesel acelera essa transição. Para o produtor, é oportunidade. Para o pantaneiro que vive do gado, é incerteza. E para o Cerrado, é mais uma pressão sobre um bioma que já perdeu metade da cobertura original. O equilíbrio entre produzir e preservar continua sendo o maior desafio do agro sul-mato-grossense.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Abiove — Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (abiove.org.br)
  • Embrapa Agropecuária Oeste (embrapa.br/agropecuaria-oeste)
  • Famasul — Federação da Agricultura e Pecuária de MS (famasul.com.br)

💰 Expansão da soja para biodiesel

1

Área de expansão necessária

809 mil hectares

2

Equivalente a

Município de Campo Grande

3

Mistura obrigatória atual

14% de biodiesel

4

Meta até 2030

20% de biodiesel

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

Segundo projeções do setor, Mato Grosso do Sul precisará expandir o plantio de soja em aproximadamente 809 mil hectares para atender a demanda crescente de biodiesel no Brasil. Essa área equivale ao território do município de Campo Grande, a capital do estado. A expansão será necessária porque o governo federal planeja elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 14% para 20% até 2030, o que aumentará significativamente a demanda por óleo de soja, principal matéria-prima do biodiesel brasileiro.

A expansão do plantio de soja em Mato Grosso do Sul deve ocorrer principalmente sobre áreas de pastagem degradada, seguindo a tendência observada nas últimas duas décadas no estado. Regiões como o leste de MS — municípios de Chapadão do Sul, Costa Rica e Cassilândia — e o sul — Dourados, Maracaju e Ponta Porã — são as mais propícias para a conversão de pasto em lavoura. O Código Florestal e o Zoneamento Ecológico-Econômico de MS proíbem a abertura de novas áreas de vegetação nativa para agricultura, o que direciona a expansão para pastagens já existentes.

A expansão da soja sobre pastagens degradadas é considerada menos impactante do que a abertura de vegetação nativa, mas não é isenta de consequências ambientais. A conversão de pasto em lavoura altera o uso do solo, pode aumentar a erosão se não houver práticas conservacionistas adequadas e demanda mais agrotóxicos e fertilizantes. Por outro lado, o biodiesel produzido a partir da soja emite menos gases de efeito estufa do que o diesel fóssil, contribuindo para a meta brasileira de redução de emissões. O desafio é equilibrar a expansão agrícola com a preservação dos biomas Cerrado e Pantanal.

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JM

Juliana Mendes

Repórter