Passageiro tem surto e tenta abrir porta de avião durante decolagem no aeroporto de Campo Grande
Tripulação conteve homem que surtou a bordo de aeronave prestes a decolar; avião retornou ao terminal e Polícia Federal foi acionada no Aeroporto Internacional de Campo Grande

Um passageiro de 38 anos teve um surto psicótico e tentou abrir a porta de um avião que se preparava para decolar no Aeroporto Internacional de Campo Grande na manhã desta quarta-feira, 16 de abril. A tripulação conteve o homem com ajuda de outros passageiros. O comandante abortou a decolagem, retornou ao terminal e acionou a Polícia Federal. O voo, que seguiria para Guarulhos com 174 pessoas a bordo, atrasou mais de três horas.
O Que Aconteceu
O incidente começou por volta das 7h40, quando a aeronave — um Boeing 737-800 — já havia deixado o portão de embarque e iniciava o taxiamento pela pista do aeroporto. O avião se deslocava em baixa velocidade rumo à cabeceira da pista 14, a principal do terminal campo-grandense, quando o passageiro sentado na fileira 6, próximo à saída de emergência dianteira, desafivelou o cinto e se levantou.
Testemunhas relataram que o homem começou a gritar frases sem sentido. "Ele repetia que precisava sair, que o avião ia cair, que tinha gente querendo matar ele", contou uma passageira de 52 anos que estava duas fileiras atrás. "No começo achei que era brincadeira. Quando ele avançou pra porta, todo mundo entendeu que era sério."
O passageiro caminhou até a porta dianteira esquerda — a L1, usada para embarque — e tentou acionar a alavanca de abertura. Dois comissários de bordo reagiram em segundos. O primeiro segurou o braço do homem. O segundo aplicou uma técnica de contenção prevista no treinamento da companhia aérea. Um passageiro que se identificou como policial militar de folga ajudou a imobilizar o homem no chão do corredor.
O comandante, informado pela cabine, freou a aeronave e comunicou a torre de controle. "Temos situação de segurança a bordo, solicitamos retorno ao pátio", foi a mensagem captada por aplicativos de monitoramento de tráfego aéreo. A aeronave retornou ao portão 3 do terminal de passageiros às 7h52 — doze minutos após o início do taxiamento.
No terminal, agentes da Polícia Federal que atuam na delegacia do aeroporto já aguardavam. O passageiro foi retirado da aeronave em uma cadeira de rodas, visivelmente alterado, e encaminhado à sala da PF. Uma ambulância do Samu foi acionada e chegou ao local às 8h15. O homem recebeu atendimento médico preliminar e foi sedado antes de ser transportado à UPA Coronel Antonino, na região central de Campo Grande.
Contexto e Histórico
Incidentes com passageiros indisciplinados a bordo de aeronaves não são novidade no Brasil nem no mundo. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou 487 ocorrências de passageiros indisciplinados em voos domésticos brasileiros em 2025 — um aumento de 23% em relação a 2024. Os casos vão de recusa em usar cinto de segurança até agressões físicas contra tripulantes.
O Aeroporto Internacional de Campo Grande, batizado de Aeroporto Santa Maria, movimentou 1,8 milhão de passageiros em 2025, segundo dados da concessionária que administra o terminal. Com a retomada do turismo no Pantanal e o crescimento das rotas regionais, o fluxo de passageiros cresceu 14% nos últimos dois anos. Mais gente embarcando significa, estatisticamente, mais chances de incidentes.
No cenário global, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) contabilizou 3.400 casos de passageiros indisciplinados em 2025, sendo que 12% envolveram tentativas de interferência em equipamentos da aeronave — portas, saídas de emergência e painéis de controle. A entidade classifica esses episódios como "nível 4" de gravidade, o mais alto na escala de risco.
Campo Grande já havia registrado um episódio semelhante em novembro de 2024, quando uma passageira embriagada tentou forçar a abertura da saída de emergência sobre a asa durante um voo que pousava na capital. Na ocasião, a mulher foi contida por comissários e detida pela PF ao desembarcar.
O perfil dos passageiros envolvidos nesses incidentes varia. Estudos da Iata apontam que 41% dos casos estão relacionados ao consumo de álcool, 28% a transtornos psiquiátricos e 18% a conflitos com a tripulação por questões como bagagem de mão e troca de assento. Os 13% restantes envolvem motivações diversas, incluindo medo de voar e reações a medicamentos.
A legislação brasileira endureceu nos últimos anos. A Lei 14.408, de 2022, incluiu no Código Penal Brasileiro o crime de interferência ilícita contra a aviação civil, com pena de 2 a 5 anos de reclusão. Se a conduta resultar em lesão corporal grave, a pena sobe para 4 a 12 anos. Em caso de morte, pode chegar a 12 a 30 anos.
Impacto Para a População
O surto do passageiro não ficou restrito ao voo. O retorno da aeronave ao terminal provocou um efeito dominó nas operações do aeroporto de Campo Grande, que opera com pista única e capacidade limitada de pátio.
Quatro voos foram afetados. O próprio voo para Guarulhos atrasou 3 horas e 20 minutos. Um voo procedente de Brasília precisou arremeter e permanecer em espera por 18 minutos até a liberação da pista. Outros dois voos regionais — para Dourados e Bonito — tiveram embarque adiado em 45 e 55 minutos, respectivamente.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Horário do incidente | 7h40 da manhã |
| Aeronave | Boeing 737-800 |
| Passageiros a bordo | 174 |
| Tempo de contenção | Aproximadamente 4 minutos |
| Retorno ao terminal | 7h52 |
| Atraso do voo principal | 3 horas e 20 minutos |
| Voos impactados | 4 operações |
| Ocorrências de indisciplina no Brasil (2025) | 487 registros (Anac) |
Passageiros que tinham conexões em Guarulhos perderam voos para destinos internacionais. Uma família de quatro pessoas que embarcaria para Lisboa relatou prejuízo estimado em R$ 12 mil entre passagens remarcadas e diárias de hotel. "A companhia disse que vai remarcar, mas a gente perde o dia de trabalho, perde o compromisso. Ninguém ressarce isso", reclamou o pai da família, um engenheiro de 44 anos.
Para os moradores de Campo Grande que dependem do aeroporto — executivos, profissionais de saúde que atendem em São Paulo, estudantes universitários —, atrasos dessa magnitude desorganizam agendas inteiras. O aeroporto da capital opera com média de 32 voos diários, e qualquer interrupção na pista única gera congestionamento em cascata.
A companhia aérea informou que ofereceu assistência material aos passageiros durante a espera, incluindo vouchers de alimentação e acesso à sala VIP para passageiros de classe executiva. Passageiros de classe econômica receberam lanches e água no portão de embarque.
O Que Dizem os Envolvidos
A Polícia Federal em Campo Grande confirmou a ocorrência e informou que o passageiro foi autuado em flagrante por atentado contra a segurança de transporte aéreo. "O homem foi conduzido à delegacia da PF no aeroporto, onde foi lavrado o auto de prisão em flagrante. Posteriormente, foi encaminhado para atendimento médico por apresentar sinais de surto psicótico", disse o delegado plantonista.
A companhia aérea divulgou nota afirmando que "a tripulação agiu conforme os protocolos de segurança estabelecidos pela empresa e pela Anac" e que "a prioridade é sempre a segurança dos passageiros e tripulantes". A empresa não informou se pretende mover ação de ressarcimento contra o passageiro pelos custos operacionais do retorno.
O policial militar que ajudou na contenção preferiu não se identificar. "Fiz o que qualquer pessoa faria. O cara estava fora de si, podia machucar alguém. Os comissários agiram rápido, eu só dei uma força", disse ao desembarcar.
A Anac informou que acompanha o caso e que "eventuais sanções administrativas serão avaliadas após a conclusão do inquérito policial e da análise do relatório da companhia aérea". A multa administrativa para passageiros que comprometem a segurança de voo pode chegar a R$ 10 mil.
O Samu de Campo Grande confirmou o atendimento e informou que o paciente foi encaminhado à UPA Coronel Antonino em "estado de agitação psicomotora". A unidade de saúde não divulgou detalhes sobre o quadro clínico do homem, citando sigilo médico.
Próximos Passos
O inquérito da Polícia Federal deve ser concluído em até 30 dias. O passageiro pode responder por atentado contra a segurança de transporte aéreo (artigo 261 do Código Penal), com pena de 2 a 5 anos de reclusão, e por resistência, caso se confirme que ele reagiu à contenção dos comissários.
A companhia aérea deve enviar relatório detalhado à Anac em até 72 horas, conforme exige a regulamentação. O documento incluirá depoimentos da tripulação, registros do cockpit voice recorder e imagens das câmeras internas da aeronave.
Se o laudo médico confirmar que o passageiro sofria de transtorno psiquiátrico no momento do surto, a defesa pode alegar inimputabilidade — o que não o isenta de medida de segurança, mas pode substituir a pena de prisão por internação compulsória.
A Infraero e a concessionária do aeroporto devem revisar os protocolos de segurança no terminal. Uma das medidas em discussão é a ampliação do efetivo da PF no aeroporto nos horários de pico, entre 6h e 9h e entre 17h e 20h, quando o fluxo de passageiros é maior.
A Anac também estuda a implementação de um cadastro nacional de passageiros indisciplinados, nos moldes do "no-fly list" americano. A proposta, que tramita desde 2023, permitiria que companhias aéreas recusassem o embarque de passageiros com histórico de incidentes graves. O projeto enfrenta resistência de entidades de defesa do consumidor, que alegam risco de cerceamento do direito de ir e vir.
Fechamento
Doze minutos. Foi o tempo entre o início do surto e o retorno da aeronave ao terminal. Doze minutos que bastaram para atrasar quatro voos, prejudicar quase duzentas pessoas e mobilizar PF, Samu e equipe de solo do aeroporto. A tripulação agiu como manda o protocolo — rápido, firme, sem pânico. O passageiro está sob cuidados médicos e responderá na Justiça. O episódio reacende o debate sobre segurança a bordo num país que registra quase quinhentos incidentes por ano com passageiros indisciplinados. Quem presenciou a cena no voo desta manhã dificilmente vai esquecer. Quem tem medo de voar ganhou mais um motivo. Informações sobre direitos de passageiros em caso de atraso podem ser consultadas no site da Anac: anac.gov.br.
Fontes e Referências
- Polícia Federal — Delegacia no Aeroporto de Campo Grande (gov.br/pf)
- Anac — Agência Nacional de Aviação Civil (anac.gov.br)
- Iata — Associação Internacional de Transporte Aéreo (iata.org)
- Samu Campo Grande — Secretaria Municipal de Saúde
- Concessionária do Aeroporto Internacional de Campo Grande
💰 Incidente a bordo em números
Passageiros afetados
174 pessoas
Atraso estimado no voo
3 horas e 20 minutos
Voos impactados no terminal
4 operações
Multa prevista pela Anac
Até R$ 10 mil
Fonte: Polícia Federal / Infraero / Anac
❓ Perguntas Frequentes
Um homem de 38 anos teve um surto durante a fase de taxiamento da aeronave na pista do Aeroporto Internacional de Campo Grande na manhã desta quarta-feira, 16 de abril de 2026. O passageiro levantou-se do assento, começou a gritar frases desconexas e tentou acionar a alavanca da porta dianteira esquerda do avião. A tripulação de cabine, com auxílio de outros passageiros, conseguiu conter o homem e imobilizá-lo. O comandante abortou a decolagem e retornou ao terminal, onde a Polícia Federal assumiu a ocorrência e encaminhou o passageiro para atendimento médico.
Na prática, abrir a porta de uma aeronave comercial em voo é praticamente impossível. A diferença de pressão entre o interior da cabine e o ambiente externo em altitude de cruzeiro cria uma força de várias toneladas sobre a porta, impedindo sua abertura manual. No entanto, durante o taxiamento em solo — fase em que o incidente ocorreu em Campo Grande — a pressurização ainda não está ativa, o que torna a tentativa tecnicamente viável, embora os mecanismos de trava dificultem a operação. Por isso a reação rápida da tripulação foi determinante para evitar consequências graves.
O Código Brasileiro de Aeronáutica e o Código Penal preveem punições severas para quem perturba a ordem a bordo de aeronaves. O artigo 261 do Código Penal tipifica como crime atentar contra a segurança de transporte aéreo, com pena de 2 a 5 anos de reclusão. Se a conduta expõe a perigo concreto a vida de passageiros, a pena pode ser aumentada. A Anac também pode aplicar multas administrativas de até R$ 10 mil ao passageiro infrator. O responsável ainda pode ser obrigado a ressarcir a companhia aérea pelos custos operacionais do retorno ao terminal e do atraso.
Juliana Mendes
Repórter
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