Trabalhadores depõem em investigação contra Consórcio Guaicurus por fraudes
Funcionários e ex-funcionários do consórcio de transporte de Campo Grande relatam irregularidades e assédio em depoimentos ao Ministério Público

Motoristas, cobradores, mecânicos. Um a um, trabalhadores e ex-funcionários do Consórcio Guaicurus estão sentando na cadeira do Ministério Público para contar o que viram por dentro do sistema de transporte coletivo de Campo Grande. As denúncias incluem fraudes na prestação de contas e assédio contra quem ousou reclamar.
O Que Aconteceu
O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) está ouvindo depoimentos de funcionários e ex-funcionários do Consórcio Guaicurus como parte de inquérito civil instaurado para apurar denúncias de irregularidades na operação do transporte coletivo de Campo Grande. As oitivas começaram em março e devem se estender até maio.
As denúncias, segundo fontes ligadas à investigação, se dividem em três eixos: fraudes na prestação de contas à prefeitura, assédio moral contra trabalhadores que denunciam irregularidades e manipulação de dados operacionais.
No eixo das fraudes, ex-funcionários do setor administrativo relatam que dados de passageiros transportados eram inflados para justificar pedidos de reajuste tarifário e subsídios públicos. "A gente sabia que os números não batiam. O sistema registrava mais passageiros do que os ônibus realmente transportavam", disse um ex-funcionário ao Midiamax, sob condição de anonimato.
No eixo do assédio, motoristas e cobradores relatam pressão para não registrar reclamações sobre condições dos veículos — freios desgastados, pneus carecas, ar-condicionado quebrado. "Se você reclamava, era transferido pra linha ruim, horário ruim. Se insistia, era demitido", contou um motorista com 12 anos de empresa.
O Consórcio Guaicurus opera o transporte coletivo de Campo Grande desde 2013 e atende cerca de 200 mil passageiros por dia com frota de aproximadamente 450 ônibus.
Contexto e Histórico
O transporte coletivo de Campo Grande é alvo de reclamações crônicas da população. Atrasos, superlotação, ônibus quebrados e ar-condicionado que não funciona são queixas recorrentes. Em 2025, a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) registrou 18.400 reclamações de usuários — média de 50 por dia.
A tarifa atual é de R$ 4,75, uma das mais altas entre as capitais brasileiras proporcionalmente à renda média da população. O último reajuste, em janeiro de 2026, foi de 6,8% — acima da inflação do período. A justificativa do consórcio foi o aumento dos custos com diesel e mão de obra. Mas se os dados de passageiros estavam inflados, como alegam os denunciantes, o cálculo do reajuste pode ter sido baseado em premissas falsas.
O contrato de concessão do Consórcio Guaicurus vence em 2033. A prefeitura tem poder de fiscalização e pode aplicar multas por descumprimento de obrigações contratuais. Em 2025, a Agetran aplicou R$ 2,3 milhões em multas ao consórcio — valor que o grupo contesta judicialmente.
A relação entre o consórcio e a prefeitura é historicamente tensa. Em 2024, o então prefeito ameaçou rescindir o contrato após uma série de paralisações de motoristas. O consórcio respondeu com ação judicial alegando desequilíbrio econômico-financeiro. A disputa foi resolvida com mediação do Tribunal de Justiça.
"O transporte coletivo de Campo Grande é refém de um modelo que não funciona. O consórcio reclama que não tem dinheiro, a prefeitura reclama que o serviço é ruim, e quem paga a conta é o passageiro que espera 40 minutos no ponto", resumiu o presidente da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo de MS.
Nos terminais de ônibus da capital — Morenão, General Osório, Nova Bahia e Aero Rancho — a precariedade é visível: bancos de espera quebrados, banheiros interditados, cobertura insuficiente que deixa passageiros expostos ao sol de 38 °C do verão campo-grandense. O Terminal Morenão, o maior da cidade, foi inaugurado em 2013 e nunca passou por reforma estrutural. A cobertura metálica apresenta ferrugem em 40% da extensão, segundo vistoria da Agetran realizada em fevereiro de 2026. Motoristas do consórcio relatam que 23% da frota roda com ar-condicionado quebrado — dado que o Guaicurus contesta, afirmando que o índice é de 8%.
Impacto Para a População
As denúncias, se confirmadas, podem ter consequências diretas para os 200 mil passageiros diários do sistema.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Alvo | Consórcio Guaicurus |
| Investigação | Inquérito civil do MPMS |
| Denúncias | Fraudes, assédio, manipulação de dados |
| Passageiros/dia | ~200 mil |
| Frota | ~450 ônibus |
| Tarifa | R$ 4,75 |
| Último reajuste | 6,8% (jan/2026) |
| Reclamações (2025) | 18.400 |
| Multas aplicadas (2025) | R$ 2,3 milhões |
| Contrato até | 2033 |
Se os dados de passageiros foram inflados, os reajustes tarifários dos últimos anos podem ter sido calculados sobre base falsa — o que significaria que os campo-grandenses pagaram mais do que deveriam. O MPMS pode pedir a revisão dos reajustes e a devolução de valores. A tarifa de R$ 4,75 pesa no bolso de quem ganha um salário mínimo: uma pessoa que faz duas viagens por dia útil gasta R$ 209 por mês com ônibus — 14,5% do piso salarial. Em bairros como o Aero Rancho e o Jardim Noroeste, onde a renda média familiar não passa de R$ 2.200, o transporte coletivo consome fatia ainda maior do orçamento doméstico.
Para os trabalhadores, a investigação pode trazer proteção contra o assédio denunciado. A legislação trabalhista prevê indenização por assédio moral, e o MPMS pode incluir a proteção dos denunciantes como condição em eventual acordo.
O Que Dizem os Envolvidos
O Consórcio Guaicurus informou, por meio de assessoria de imprensa, que "colabora com as investigações e que todas as informações solicitadas pelo Ministério Público estão sendo fornecidas". O consórcio negou as acusações de fraude e assédio e disse que "opera dentro dos parâmetros contratuais e legais".
O MPMS confirmou a existência do inquérito civil, mas não detalhou as denúncias por questão de sigilo. "As oitivas estão em andamento e o inquérito será concluído no prazo legal", informou a promotoria.
A Agetran disse que "acompanha a investigação do MPMS e que está à disposição para fornecer dados e documentos que auxiliem na apuração".
O sindicato dos trabalhadores em transporte de Campo Grande informou que está orientando os funcionários a colaborarem com a investigação e que "não tolerará retaliação contra quem depuser".
Próximos Passos
O MPMS deve concluir as oitivas até maio e decidir se ajuíza ação civil pública contra o Consórcio Guaicurus. Se as fraudes forem comprovadas, o consórcio pode ser obrigado a devolver valores e a prefeitura pode rescindir o contrato de concessão.
A Agetran anunciou que vai realizar auditoria independente nos dados operacionais do consórcio, com foco nos registros de passageiros dos últimos três anos.
A Câmara Municipal de Campo Grande convocou audiência pública sobre o transporte coletivo para a segunda quinzena de abril, com participação do MPMS, da Agetran e de representantes dos usuários.
Fechamento
Dados inflados, trabalhador assediado, passageiro no ponto esperando ônibus que não vem. O Consórcio Guaicurus está na mira do Ministério Público, e os depoimentos dos próprios funcionários podem ser a peça que faltava para mudar o jogo. Ou não. Em Campo Grande, o transporte coletivo já sobreviveu a tantas crises que parece imune a consequências. Reclamações sobre o transporte: Agetran (67) 3314-3530, Procon 151 ou MPMS 127.
Fontes e Referências
- Midiamax (midiamax.com.br)
- MPMS — Ministério Público de MS (mpms.mp.br)
- Agetran — Agência Municipal de Transporte e Trânsito
- Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Campo Grande
💰 Investigação Guaicurus
Alvo
Consórcio Guaicurus
Denúncias
Fraudes e assédio
Órgão
MPMS
Passageiros/dia
~200 mil
Fonte: Midiamax
❓ Perguntas Frequentes
O Consórcio Guaicurus é o grupo de empresas responsável pela operação do transporte coletivo por ônibus em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O consórcio opera desde 2013 e é formado por empresas de transporte que venceram a licitação municipal. O sistema atende cerca de 200 mil passageiros por dia, com frota de aproximadamente 450 ônibus distribuídos em mais de 100 linhas. A tarifa atual é de R$ 4,75. O contrato de concessão prevê obrigações de qualidade, frequência e manutenção da frota, fiscalizadas pela Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito).
As denúncias contra o Consórcio Guaicurus incluem fraudes na prestação de contas à prefeitura, assédio moral contra funcionários que denunciam irregularidades, manipulação de dados de passageiros para justificar reajustes tarifários e descumprimento de obrigações contratuais como manutenção da frota e cumprimento de horários. Trabalhadores e ex-funcionários estão depondo ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, relatando pressão para não registrar reclamações e ameaças de demissão. O MPMS instaurou inquérito civil para apurar as denúncias e pode ajuizar ação civil pública contra o consórcio.
Problemas no transporte coletivo de Campo Grande podem ser denunciados por diversos canais. A Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) recebe reclamações pelo telefone (67) 3314-3530 e pelo site agetran.campogrande.ms.gov.br. O Procon Municipal atende pelo 151. O Ministério Público de MS recebe denúncias pelo 127 ou pelo site mpms.mp.br. A ouvidoria da prefeitura funciona pelo 156. É importante registrar data, horário, linha e número do ônibus ao fazer a reclamação, para facilitar a apuração.
Roberto Almeida
Repórter
Leia também
Criada há 26 anos, APA de Piraputanga segue sem plano de manejo
12 de abril de 2026
🏙️ CidadesArtefatos pré-coloniais indicam presença humana milenar em Campo Grande
12 de abril de 2026
🏙️ CidadesBebê de 1 ano morre dois dias após afogamento em piscina em Costa Rica
12 de abril de 2026
🏙️ CidadesCaravana da Castração encerra 1ª etapa com 20 mil animais em 63 municípios
12 de abril de 2026