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segunda-feira, 13 de abril de 2026
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Trabalhadores depõem em investigação contra Consórcio Guaicurus por fraudes

Funcionários e ex-funcionários do consórcio de transporte de Campo Grande relatam irregularidades e assédio em depoimentos ao Ministério Público

Roberto Almeida7 min de leituraCampo Grande
Trabalhadores depõem em investigação contra Consórcio Guaicurus por fraudes

Motoristas, cobradores, mecânicos. Um a um, trabalhadores e ex-funcionários do Consórcio Guaicurus estão sentando na cadeira do Ministério Público para contar o que viram por dentro do sistema de transporte coletivo de Campo Grande. As denúncias incluem fraudes na prestação de contas e assédio contra quem ousou reclamar.

O Que Aconteceu

O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) está ouvindo depoimentos de funcionários e ex-funcionários do Consórcio Guaicurus como parte de inquérito civil instaurado para apurar denúncias de irregularidades na operação do transporte coletivo de Campo Grande. As oitivas começaram em março e devem se estender até maio.

As denúncias, segundo fontes ligadas à investigação, se dividem em três eixos: fraudes na prestação de contas à prefeitura, assédio moral contra trabalhadores que denunciam irregularidades e manipulação de dados operacionais.

No eixo das fraudes, ex-funcionários do setor administrativo relatam que dados de passageiros transportados eram inflados para justificar pedidos de reajuste tarifário e subsídios públicos. "A gente sabia que os números não batiam. O sistema registrava mais passageiros do que os ônibus realmente transportavam", disse um ex-funcionário ao Midiamax, sob condição de anonimato.

No eixo do assédio, motoristas e cobradores relatam pressão para não registrar reclamações sobre condições dos veículos — freios desgastados, pneus carecas, ar-condicionado quebrado. "Se você reclamava, era transferido pra linha ruim, horário ruim. Se insistia, era demitido", contou um motorista com 12 anos de empresa.

O Consórcio Guaicurus opera o transporte coletivo de Campo Grande desde 2013 e atende cerca de 200 mil passageiros por dia com frota de aproximadamente 450 ônibus.

Contexto e Histórico

O transporte coletivo de Campo Grande é alvo de reclamações crônicas da população. Atrasos, superlotação, ônibus quebrados e ar-condicionado que não funciona são queixas recorrentes. Em 2025, a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) registrou 18.400 reclamações de usuários — média de 50 por dia.

A tarifa atual é de R$ 4,75, uma das mais altas entre as capitais brasileiras proporcionalmente à renda média da população. O último reajuste, em janeiro de 2026, foi de 6,8% — acima da inflação do período. A justificativa do consórcio foi o aumento dos custos com diesel e mão de obra. Mas se os dados de passageiros estavam inflados, como alegam os denunciantes, o cálculo do reajuste pode ter sido baseado em premissas falsas.

O contrato de concessão do Consórcio Guaicurus vence em 2033. A prefeitura tem poder de fiscalização e pode aplicar multas por descumprimento de obrigações contratuais. Em 2025, a Agetran aplicou R$ 2,3 milhões em multas ao consórcio — valor que o grupo contesta judicialmente.

A relação entre o consórcio e a prefeitura é historicamente tensa. Em 2024, o então prefeito ameaçou rescindir o contrato após uma série de paralisações de motoristas. O consórcio respondeu com ação judicial alegando desequilíbrio econômico-financeiro. A disputa foi resolvida com mediação do Tribunal de Justiça.

"O transporte coletivo de Campo Grande é refém de um modelo que não funciona. O consórcio reclama que não tem dinheiro, a prefeitura reclama que o serviço é ruim, e quem paga a conta é o passageiro que espera 40 minutos no ponto", resumiu o presidente da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo de MS.

Nos terminais de ônibus da capital — Morenão, General Osório, Nova Bahia e Aero Rancho — a precariedade é visível: bancos de espera quebrados, banheiros interditados, cobertura insuficiente que deixa passageiros expostos ao sol de 38 °C do verão campo-grandense. O Terminal Morenão, o maior da cidade, foi inaugurado em 2013 e nunca passou por reforma estrutural. A cobertura metálica apresenta ferrugem em 40% da extensão, segundo vistoria da Agetran realizada em fevereiro de 2026. Motoristas do consórcio relatam que 23% da frota roda com ar-condicionado quebrado — dado que o Guaicurus contesta, afirmando que o índice é de 8%.

Impacto Para a População

As denúncias, se confirmadas, podem ter consequências diretas para os 200 mil passageiros diários do sistema.

Aspecto Detalhe
Alvo Consórcio Guaicurus
Investigação Inquérito civil do MPMS
Denúncias Fraudes, assédio, manipulação de dados
Passageiros/dia ~200 mil
Frota ~450 ônibus
Tarifa R$ 4,75
Último reajuste 6,8% (jan/2026)
Reclamações (2025) 18.400
Multas aplicadas (2025) R$ 2,3 milhões
Contrato até 2033

Se os dados de passageiros foram inflados, os reajustes tarifários dos últimos anos podem ter sido calculados sobre base falsa — o que significaria que os campo-grandenses pagaram mais do que deveriam. O MPMS pode pedir a revisão dos reajustes e a devolução de valores. A tarifa de R$ 4,75 pesa no bolso de quem ganha um salário mínimo: uma pessoa que faz duas viagens por dia útil gasta R$ 209 por mês com ônibus — 14,5% do piso salarial. Em bairros como o Aero Rancho e o Jardim Noroeste, onde a renda média familiar não passa de R$ 2.200, o transporte coletivo consome fatia ainda maior do orçamento doméstico.

Para os trabalhadores, a investigação pode trazer proteção contra o assédio denunciado. A legislação trabalhista prevê indenização por assédio moral, e o MPMS pode incluir a proteção dos denunciantes como condição em eventual acordo.

O Que Dizem os Envolvidos

O Consórcio Guaicurus informou, por meio de assessoria de imprensa, que "colabora com as investigações e que todas as informações solicitadas pelo Ministério Público estão sendo fornecidas". O consórcio negou as acusações de fraude e assédio e disse que "opera dentro dos parâmetros contratuais e legais".

O MPMS confirmou a existência do inquérito civil, mas não detalhou as denúncias por questão de sigilo. "As oitivas estão em andamento e o inquérito será concluído no prazo legal", informou a promotoria.

A Agetran disse que "acompanha a investigação do MPMS e que está à disposição para fornecer dados e documentos que auxiliem na apuração".

O sindicato dos trabalhadores em transporte de Campo Grande informou que está orientando os funcionários a colaborarem com a investigação e que "não tolerará retaliação contra quem depuser".

Próximos Passos

O MPMS deve concluir as oitivas até maio e decidir se ajuíza ação civil pública contra o Consórcio Guaicurus. Se as fraudes forem comprovadas, o consórcio pode ser obrigado a devolver valores e a prefeitura pode rescindir o contrato de concessão.

A Agetran anunciou que vai realizar auditoria independente nos dados operacionais do consórcio, com foco nos registros de passageiros dos últimos três anos.

A Câmara Municipal de Campo Grande convocou audiência pública sobre o transporte coletivo para a segunda quinzena de abril, com participação do MPMS, da Agetran e de representantes dos usuários.

Fechamento

Dados inflados, trabalhador assediado, passageiro no ponto esperando ônibus que não vem. O Consórcio Guaicurus está na mira do Ministério Público, e os depoimentos dos próprios funcionários podem ser a peça que faltava para mudar o jogo. Ou não. Em Campo Grande, o transporte coletivo já sobreviveu a tantas crises que parece imune a consequências. Reclamações sobre o transporte: Agetran (67) 3314-3530, Procon 151 ou MPMS 127.

Fontes e Referências

  • Midiamax (midiamax.com.br)
  • MPMS — Ministério Público de MS (mpms.mp.br)
  • Agetran — Agência Municipal de Transporte e Trânsito
  • Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Campo Grande

💰 Investigação Guaicurus

1

Alvo

Consórcio Guaicurus

2

Denúncias

Fraudes e assédio

3

Órgão

MPMS

4

Passageiros/dia

~200 mil

Fonte: Midiamax

❓ Perguntas Frequentes

O Consórcio Guaicurus é o grupo de empresas responsável pela operação do transporte coletivo por ônibus em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O consórcio opera desde 2013 e é formado por empresas de transporte que venceram a licitação municipal. O sistema atende cerca de 200 mil passageiros por dia, com frota de aproximadamente 450 ônibus distribuídos em mais de 100 linhas. A tarifa atual é de R$ 4,75. O contrato de concessão prevê obrigações de qualidade, frequência e manutenção da frota, fiscalizadas pela Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito).

As denúncias contra o Consórcio Guaicurus incluem fraudes na prestação de contas à prefeitura, assédio moral contra funcionários que denunciam irregularidades, manipulação de dados de passageiros para justificar reajustes tarifários e descumprimento de obrigações contratuais como manutenção da frota e cumprimento de horários. Trabalhadores e ex-funcionários estão depondo ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul, relatando pressão para não registrar reclamações e ameaças de demissão. O MPMS instaurou inquérito civil para apurar as denúncias e pode ajuizar ação civil pública contra o consórcio.

Problemas no transporte coletivo de Campo Grande podem ser denunciados por diversos canais. A Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) recebe reclamações pelo telefone (67) 3314-3530 e pelo site agetran.campogrande.ms.gov.br. O Procon Municipal atende pelo 151. O Ministério Público de MS recebe denúncias pelo 127 ou pelo site mpms.mp.br. A ouvidoria da prefeitura funciona pelo 156. É importante registrar data, horário, linha e número do ônibus ao fazer a reclamação, para facilitar a apuração.

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RA

Roberto Almeida

Repórter