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sábado, 18 de abril de 2026
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Contrato de R$ 47 milhões para recuperação de ponte na BR-262 em Corumbá é publicado no Diário Oficial

Ponte sobre o Rio Paraguai, vital para acesso ao Pantanal e à fronteira com a Bolívia, está com restrição de peso há meses; obra tem prazo de 18 meses para conclusão

Patrícia Souza8 min de leituraCorumbá
Contrato de R$ 47 milhões para recuperação de ponte na BR-262 em Corumbá é publicado no Diário Oficial

O contrato para a recuperação da ponte sobre o Rio Paraguai na BR-262, em Corumbá, foi publicado no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, 16 de abril. A obra, orçada em R$ 47,3 milhões, tem prazo de 18 meses para conclusão. A estrutura — única ligação rodoviária direta entre o Pantanal e o restante de Mato Grosso do Sul — opera com restrição de peso de 23 toneladas desde outubro de 2025, obrigando caminhões carregados a percorrer desvios de mais de 400 quilômetros.

O Que Aconteceu

A publicação no Diário Oficial formalizou o contrato entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e o consórcio vencedor da licitação para a recuperação estrutural da ponte. O edital, na modalidade concorrência pública, havia sido lançado em setembro de 2025 e recebeu propostas de cinco consórcios de engenharia.

O valor final do contrato ficou em R$ 47,3 milhões8,2% abaixo do orçamento estimado pelo DNIT, que era de R$ 51,5 milhões. O critério de seleção foi menor preço global, com exigência de qualificação técnica comprovada em obras de recuperação de pontes sobre rios navegáveis. A ordem de serviço deve ser emitida em até 15 dias úteis após a publicação, o que coloca o início efetivo das obras para a primeira quinzena de maio.

O escopo da obra inclui reforço estrutural dos pilares de sustentação, substituição de 32 juntas de dilatação, recuperação de trechos do tabuleiro com concreto deteriorado, instalação de novo sistema de drenagem e recapeamento asfáltico de toda a extensão da ponte — 860 metros de comprimento. O projeto prevê ainda a instalação de defensas metálicas novas e sinalização horizontal e vertical atualizada.

"Essa ponte está doente há anos. O que estamos fazendo agora é uma cirurgia de grande porte", comparou um engenheiro do DNIT que acompanhou a elaboração do projeto. "Se não fosse feita agora, em dois ou três anos teríamos que interditar totalmente."

A licitação enfrentou percalços. O primeiro edital, publicado em julho de 2025, foi suspenso pelo Tribunal de Contas da União (TCU) após questionamentos sobre critérios de habilitação técnica. O DNIT republicou o edital em setembro com as correções exigidas. O atraso de dois meses custou caro: a restrição de peso, que deveria ser temporária, se estendeu por seis meses e gerou prejuízos milionários ao comércio local.

Contexto e Histórico

A ponte sobre o Rio Paraguai na BR-262 foi inaugurada em 1979 e passou por sua última grande intervenção estrutural em 2008. São 47 anos de operação, com tráfego que cresceu muito além do que os projetistas imaginaram na década de 1970. Quando foi construída, a ponte atendia cerca de 200 veículos por dia. Hoje, o fluxo médio é de 1.200 veículos diários, incluindo carretas de até 57 toneladas que transportam minério de ferro e manganês extraídos na região de Corumbá.

A BR-262 é a espinha dorsal do oeste de Mato Grosso do Sul. Liga Miranda a Corumbá, atravessando o coração do Pantanal numa extensão de 220 quilômetros entre as duas cidades. Para Corumbá — município de 114 mil habitantes que faz fronteira com Puerto Quijarro, na Bolívia —, a rodovia é a única conexão terrestre pavimentada com o restante do estado. Tudo que chega a Corumbá por terra passa pela BR-262. Comida, combustível, medicamento, material de construção.

A restrição de peso imposta em outubro de 2025 transformou a logística da região num quebra-cabeça. Caminhões com mais de 23 toneladas — praticamente qualquer carreta carregada — passaram a ser barrados antes da ponte. A alternativa é um desvio pela MS-384 e MS-262, estradas estaduais parcialmente sem pavimentação, que acrescentam 430 quilômetros e até 8 horas ao trajeto. No período de chuvas, entre novembro e março, trechos dessas estradas ficam intransitáveis.

O custo do frete para Corumbá disparou. Transportadoras repassaram o aumento aos comerciantes, que repassaram ao consumidor. Segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Corumbá, o preço da cesta básica na cidade subiu 11,4% entre outubro de 2025 e março de 2026 — quase o dobro da inflação acumulada no mesmo período no restante do estado.

O turismo no Pantanal também sentiu o golpe. Operadoras de pesca esportiva e ecoturismo que dependem do acesso por Corumbá relataram queda de 22% nas reservas para a temporada 2026, segundo a Associação Corumbaense de Turismo. Turistas que antes dirigiam de Campo Grande a Corumbá em cinco horas passaram a enfrentar jornadas de até treze horas pelo desvio, quando as estradas alternativas estavam transitáveis.

Impacto Para a População

A publicação do contrato no Diário Oficial representa o fim de uma espera que se arrastava desde meados de 2025, quando laudos técnicos do DNIT atestaram a necessidade urgente de intervenção na estrutura. Para os moradores de Corumbá e Ladário — cidade vizinha com 24 mil habitantes que também depende da BR-262 —, a notícia traz alívio, mas também preocupação com os transtornos durante a obra.

Aspecto Detalhe
Valor do contrato R$ 47,3 milhões
Economia na licitação 8,2% abaixo do orçamento
Prazo de execução 18 meses
Extensão da ponte 860 metros
Ano de inauguração 1979
Última grande reforma 2008
Restrição de peso atual 23 toneladas
Fluxo diário de veículos 1.200
Aumento da cesta básica em Corumbá 11,4% (out/2025 a mar/2026)

O DNIT garantiu que a ponte não será totalmente interditada. A obra será executada em fases alternadas: primeiro um lado do tabuleiro, depois o outro, mantendo sempre uma faixa de tráfego operacional. Mas o sistema de pare-e-siga vai gerar filas. Nos horários de pico — entre 6h e 8h e entre 17h e 19h —, a espera pode chegar a 40 minutos em cada sentido, segundo estimativas do próprio órgão.

Caminhoneiros que fazem a rota Campo Grande–Corumbá já se preparam. "Dezoito meses de obra significa dezoito meses de dor de cabeça. Mas pelo menos vão arrumar. Do jeito que estava, a ponte ia cair com a gente em cima", disse um motorista de carreta que transporta combustível para postos de Corumbá há quinze anos.

O comércio de Corumbá espera que a conclusão da obra normalize os preços. O presidente do Sindicato do Comércio Varejista estimou que a restrição de peso gerou um prejuízo acumulado de R$ 38 milhões ao setor entre outubro de 2025 e abril de 2026. "O frete dobrou. Um caminhão que cobrava R$ 180 por tonelada de Campo Grande a Corumbá passou a cobrar R$ 340 pelo desvio. Quem paga é o consumidor final", explicou.

Para o turismo, a expectativa é de recuperação gradual. A temporada de pesca no Pantanal começa em março e vai até outubro. Se a obra seguir o cronograma, a restrição de peso deve ser aliviada até o fim do primeiro semestre de 2027, a tempo da temporada seguinte. Mas operadores de turismo pedem garantias. "Já perdemos uma temporada inteira. Não podemos perder outra", cobrou o presidente da Associação Corumbaense de Turismo.

A fronteira com a Bolívia também será beneficiada. O comércio bilateral entre Corumbá e Puerto Quijarro movimenta cerca de R$ 280 milhões por ano, segundo dados da Receita Federal. Com a restrição de peso, caminhões bolivianos carregados de soja e minério ficaram impedidos de cruzar a ponte, gerando filas quilométricas no lado brasileiro e reclamações diplomáticas do governo boliviano.

O Que Dizem os Envolvidos

O DNIT publicou nota oficial confirmando a assinatura do contrato e destacando que "a recuperação da ponte sobre o Rio Paraguai na BR-262 é prioridade da autarquia para o exercício de 2026". O órgão informou que a fiscalização da obra será feita por equipe própria, com apoio de consultoria independente contratada especificamente para o acompanhamento técnico.

O prefeito de Corumbá classificou a publicação como "uma vitória da persistência". "Foram meses cobrando Brasília, mandando ofício, indo a audiência. Essa ponte é a veia jugular de Corumbá. Sem ela, a cidade sufoca", afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.

O deputado federal por MS que preside a Frente Parlamentar de Infraestrutura disse que acompanhou pessoalmente a tramitação do contrato no DNIT. "Esse contrato já deveria ter saído em 2025. O TCU fez bem em questionar o edital, mas o atraso teve custo. Agora é cobrar prazo e qualidade."

A Associação dos Transportadores de Cargas de MS (ATC-MS) recebeu a notícia com cautela. "Contrato assinado é papel. Queremos ver máquina na ponte. Já vimos muita obra do DNIT começar e parar por falta de repasse", alertou o presidente da entidade.

O governo da Bolívia, por meio do consulado em Corumbá, manifestou "satisfação com o avanço do processo" e reiterou "a importância da ponte para as relações comerciais entre os dois países".

Próximos Passos

A ordem de serviço deve ser emitida até o início de maio. O consórcio vencedor tem 30 dias após a ordem de serviço para mobilizar equipamentos e instalar o canteiro de obras nas margens do Rio Paraguai. As primeiras intervenções devem começar em junho, com a recuperação dos pilares submersos — a etapa mais complexa e cara da obra.

O cronograma prevê três fases. A primeira, com duração de 6 meses, concentra-se no reforço estrutural dos pilares e na substituição das juntas de dilatação. A segunda fase, de 8 meses, abrange a recuperação do tabuleiro e a instalação do novo sistema de drenagem. A terceira e última fase, de 4 meses, inclui o recapeamento asfáltico, a instalação de defensas e a sinalização.

A restrição de peso de 23 toneladas deve ser mantida durante toda a primeira fase. A partir da conclusão do reforço dos pilares, o DNIT avaliará a possibilidade de elevar o limite para 40 toneladas, o que já permitiria a passagem da maioria das carretas carregadas. A liberação total, sem restrição, só ocorrerá após a conclusão de todas as fases e a emissão do laudo de habite-se estrutural.

O DNIT informou que publicará relatórios mensais de andamento da obra no portal gov.br/dnit. A Prefeitura de Corumbá criou um canal de comunicação com a população pelo WhatsApp (67) 3234-XXXX para informar sobre interdições programadas e horários de menor movimento na ponte.

Se o cronograma for cumprido, a obra será concluída em outubro de 2027. Mas o histórico de obras rodoviárias federais em MS não inspira otimismo. Das últimas sete obras do DNIT no estado com valor acima de R$ 20 milhões, cinco tiveram aditivos de prazo, segundo levantamento do TCU. A média de atraso foi de 9 meses.

Fechamento

Quarenta e sete anos. Essa é a idade da ponte que sustenta a vida de Corumbá, Ladário e de todo o Pantanal sul-mato-grossense. Uma ponte que foi projetada para 200 veículos por dia e hoje aguenta 1.200. Que deveria ter sido reformada há uma década e só agora recebe contrato assinado. Os R$ 47,3 milhões publicados no Diário Oficial desta quarta são o começo — não o fim — de um processo que vai testar a paciência de caminhoneiros, comerciantes e turistas por pelo menos um ano e meio. A obra é necessária. O atraso foi evitável. Agora, o que resta é cobrar prazo, fiscalizar execução e torcer para que o Rio Paraguai não suba demais durante as obras. Informações sobre o andamento podem ser acompanhadas no site do DNIT: gov.br/dnit.

Fontes e Referências

  • Diário Oficial da União — Seção 3 (in.gov.br)
  • DNIT — Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (gov.br/dnit)
  • Prefeitura Municipal de Corumbá (corumba.ms.gov.br)
  • Sindicato do Comércio Varejista de Corumbá
  • Associação Corumbaense de Turismo
  • TCU — Tribunal de Contas da União (tcu.gov.br)

💰 Recuperação da ponte em números

1

Valor do contrato

R$ 47,3 milhões

2

Prazo da obra

18 meses

3

Restrição de peso atual

23 toneladas

4

Veículos afetados por dia

Cerca de 1.200

Fonte: Diário Oficial da União / DNIT / Prefeitura de Corumbá

❓ Perguntas Frequentes

A ponte que será recuperada é a que cruza o Rio Paraguai na BR-262, no trecho entre Corumbá e Miranda, em Mato Grosso do Sul. Essa estrutura é a única ligação rodoviária direta entre a região do Pantanal e o restante do estado. Sem ela, veículos precisariam percorrer um desvio de mais de 400 quilômetros por estradas estaduais precárias. A ponte também é a principal via de acesso terrestre à fronteira com a Bolívia, por onde passa parte significativa do comércio bilateral entre os dois países. Sua deterioração afeta diretamente o turismo no Pantanal, o escoamento de produção agropecuária e o abastecimento de Corumbá.

O DNIT informou que a ponte não será totalmente interditada durante as obras. O projeto prevê a recuperação em fases alternadas, mantendo pelo menos uma faixa de tráfego operacional durante todo o período de 18 meses. No entanto, haverá momentos de interdição parcial com sistema de pare-e-siga, o que deve gerar filas e atrasos, especialmente para veículos pesados. A restrição de peso de 23 toneladas será mantida até a conclusão da primeira fase estrutural da obra, prevista para o sexto mês do contrato. Caminhões acima desse limite continuarão obrigados a usar rotas alternativas.

O contrato foi firmado entre o DNIT e um consórcio de engenharia vencedor de licitação na modalidade concorrência pública, conforme publicação no Diário Oficial da União desta quarta-feira. O processo licitatório teve início em setembro de 2025 e recebeu propostas de cinco consórcios. O critério de seleção foi o de menor preço global, com exigência de qualificação técnica comprovada em obras de recuperação de pontes sobre rios navegáveis. O valor de R$ 47,3 milhões inclui serviços de reforço estrutural, substituição de juntas de dilatação, recuperação de pilares e recapeamento do tabuleiro.

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PS

Patrícia Souza

Repórter