Empresa de energia solar aposta na formação de estudantes em MS
Programa capacita jovens de escolas técnicas para instalação de painéis solares em estado com o 4º maior potencial solar do Brasil

No telhado de um galpão industrial no distrito de Anhanduí, a 32 quilômetros de Campo Grande, seis jovens de capacete e colete refletivo parafusam estruturas metálicas sob um sol de 34°C. Nenhum deles tem mais de 22 anos. Todos cursam ou concluíram o ensino técnico. E todos estão ali porque uma empresa de energia solar decidiu que formar mão de obra é mais inteligente do que disputar profissionais escassos no mercado.
O Que Aconteceu
Uma empresa do setor fotovoltaico com sede em Campo Grande lançou, em parceria com o Senai-MS e três escolas técnicas estaduais, um programa de formação profissional voltado para a instalação e manutenção de sistemas de energia solar. O programa, que começou em 2023 como projeto-piloto com 40 alunos, já formou 280 jovens em três anos e abriu inscrições para a quinta turma, com 120 vagas distribuídas entre Campo Grande, Dourados e Três Lagoas.
O curso tem carga horária de 240 horas — divididas em 160 horas de teoria e 80 horas de prática supervisionada. Os alunos aprendem eletricidade básica, normas técnicas da ABNT, dimensionamento de sistemas fotovoltaicos, instalação de painéis e inversores, e manutenção preventiva. A parte prática acontece em instalações reais: telhados de empresas, residências e propriedades rurais que contrataram o serviço da empresa parceira.
"A gente não queria fazer curso de faz de conta. O aluno sobe no telhado, instala painel de verdade, puxa fiação, configura inversor. Quando sai daqui, já sabe trabalhar", explicou o diretor de operações da empresa, Henrique Machado, 38 anos, engenheiro eletricista que começou a carreira instalando painéis em fazendas do interior de MS.
A formação é gratuita para os estudantes. A empresa arca com os custos de material didático, equipamentos de proteção individual (EPIs) e seguro. O Senai-MS fornece a estrutura de laboratório para as aulas teóricas e emite a certificação. As escolas técnicas estaduais cedem o espaço e indicam os alunos.
Dos 280 formados até agora, 217 — ou 77,5% — foram contratados por empresas do setor fotovoltaico em MS. O salário inicial varia entre R$ 2.400 e R$ 3.800, dependendo da região e do porte da empresa. "Saí do curso em outubro do ano passado e em novembro já estava trabalhando. Nunca tinha subido num telhado antes. Hoje instalo de 4 a 6 sistemas por mês", contou Lucas Ferreira, 21 anos, formado na segunda turma do programa, que trabalha em uma integradora solar de Dourados.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul tem o 4º maior potencial de geração de energia solar do Brasil. A irradiação solar média no estado é de 5,4 kWh/m²/dia — índice que coloca MS à frente de estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. O Pantanal e o Cerrado, com seus céus limpos e baixa nebulosidade durante boa parte do ano, oferecem condições ideais para a geração fotovoltaica.
E o mercado respondeu. Segundo a Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), a potência instalada de energia solar em MS saltou de 320 MW em 2021 para mais de 1.400 MW em 2026 — um crescimento de 340% em cinco anos. O estado ocupa a 7ª posição no ranking nacional de capacidade instalada e a 4ª em geração distribuída (painéis em telhados de residências e empresas).
O crescimento trouxe empregos. A cadeia da energia solar gera cerca de 9.200 postos de trabalho diretos e indiretos em MS, segundo estimativa da Absolar. Mas trouxe também um gargalo: falta gente qualificada. Instalar painéis solares não é simplesmente parafusar placas no telhado. Exige conhecimento de eletricidade, normas de segurança, dimensionamento de carga e configuração de equipamentos eletrônicos. Um erro de instalação pode causar incêndio, choque elétrico ou simplesmente fazer o sistema não funcionar.
"O setor cresceu mais rápido do que a formação de profissionais. A gente tinha demanda pra 50 instaladores e encontrava 15 no mercado. Por isso decidimos formar os nossos", explicou Henrique Machado.
A decisão de investir em formação própria não é exclusividade da empresa campo-grandense. No Brasil, pelo menos 12 grandes integradoras solares mantêm programas semelhantes, segundo levantamento da Absolar. Mas em MS, o programa é o maior em número de alunos formados e o único com parceria formal com o sistema público de ensino técnico.
O Senai-MS, que já oferecia cursos de energia solar desde 2020, viu na parceria uma oportunidade de ampliar o alcance. "Nosso curso regular tem 60 vagas por semestre em Campo Grande. Com a parceria, triplicamos a capacidade e levamos a formação para o interior", disse a gerente de educação profissional do Senai-MS, Adriana Campos.
Impacto Para a População
O programa de formação em energia solar tem impacto em três frentes: empregabilidade dos jovens, expansão do setor e redução do custo de energia para o consumidor final.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Alunos formados (2023-2026) | 280 |
| Taxa de empregabilidade | 77,5% |
| Vagas na 5ª turma | 120 |
| Cidades atendidas | Campo Grande, Dourados, Três Lagoas |
| Carga horária do curso | 240 horas (160 teoria + 80 prática) |
| Salário inicial (instalador) | R$ 2.400 a R$ 3.800 |
| Potência solar instalada em MS | 1.400 MW (2026) |
| Crescimento do setor (5 anos) | 340% |
| Empregos no setor em MS | 9.200 diretos e indiretos |
Para os jovens, a formação representa uma porta de entrada rápida no mercado de trabalho. Em um estado onde o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos é de 19,3% — acima da média nacional de 16,8%, segundo o IBGE —, um curso gratuito de seis meses que leva a um emprego com salário acima do mínimo é uma oportunidade concreta.
"Meus pais são agricultores familiares. Eu ia seguir na roça. Não que seja ruim, mas queria outra coisa. O curso me deu uma profissão que eu nem sabia que existia", disse Tainá Ribeiro, 19 anos, uma das poucas mulheres formadas pelo programa. Ela trabalha como instaladora em Campo Grande e ganha R$ 3.200 por mês. "No começo, os colegas estranharam. Mulher no telhado, sabe como é. Mas quando viram que eu instalava tão rápido quanto eles, pararam de comentar."
Para o setor, a formação de mão de obra local reduz custos. Empresas que antes precisavam trazer instaladores de São Paulo ou Minas Gerais — pagando deslocamento, hospedagem e diárias — agora encontram profissionais na própria região. "Um instalador de fora custa R$ 450 por dia, fora passagem e hotel. Um local custa R$ 180 a R$ 250. A conta fecha muito melhor", calculou o empresário Henrique Machado.
E para o consumidor, mais profissionais qualificados significam instalações mais rápidas e com menos erros. O tempo médio de espera para instalação de um sistema residencial em Campo Grande caiu de 45 dias em 2023 para 18 dias em 2026, segundo a Absolar. Menos espera, menos reclamação, mais adesão.
Mas há desafios. A evasão no programa é de 22% — a maioria por motivos financeiros. "O curso é gratuito, mas o aluno precisa se deslocar, comprar almoço, às vezes perder um bico pra assistir aula. Pra quem não tem renda, é difícil", reconheceu Adriana Campos, do Senai-MS. A empresa estuda a criação de uma bolsa-auxílio de R$ 600 mensais para a próxima turma, mas ainda busca parceiros para financiar a iniciativa.
O Que Dizem os Envolvidos
O secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) elogiou o programa e sinalizou interesse em replicá-lo. "A energia solar é uma vocação de Mato Grosso do Sul. Formar jovens para esse mercado é investir no futuro do estado. Estamos estudando um edital de fomento para ampliar iniciativas como essa."
A Absolar classificou o programa como "referência regional". "É o tipo de iniciativa que o setor precisa. Não adianta instalar painéis se não tem gente qualificada pra fazer o serviço direito. Instalação mal feita gera sinistro, reclamação e desconfiança do consumidor", disse o presidente da entidade, Rodrigo Sauaia.
O diretor da escola técnica estadual Hércules Maymone, em Campo Grande, que cede espaço para as aulas teóricas, destacou o impacto na autoestima dos alunos. "A gente vê o menino chegar sem perspectiva e sair com emprego garantido. Isso muda a vida da família inteira. Tem aluno que é o primeiro da casa a ter carteira assinada."
Mas nem tudo é elogio. O Sindicato dos Eletricistas de MS questionou a carga horária do curso. "Duzentas e quarenta horas é pouco pra formar um profissional completo. O risco é colocar gente no telhado sem preparo suficiente e ter acidente", alertou o presidente da entidade, José Carlos Mendonça. A empresa rebateu: "O curso é de instalador, não de engenheiro. Pra instalar painel residencial, 240 horas com prática supervisionada é mais do que suficiente. E todo formado trabalha sob supervisão de um técnico sênior nos primeiros seis meses."
Próximos Passos
As inscrições para a quinta turma do programa estão abertas até 30 de abril no site do Senai-MS e nas secretarias das escolas técnicas parceiras. São 120 vagas: 50 em Campo Grande, 40 em Dourados e 30 em Três Lagoas. Os requisitos são ter entre 17 e 29 anos, estar cursando ou ter concluído o ensino médio técnico e residir em MS.
A empresa planeja expandir o programa para mais duas cidades em 2027: Corumbá e Naviraí. A escolha não é aleatória. Corumbá, no Pantanal, tem um dos maiores índices de irradiação solar do estado e demanda crescente por energia em propriedades rurais isoladas. Naviraí, no sul de MS, concentra agroindústrias que estão migrando para energia solar para reduzir custos operacionais.
O Senai-MS também estuda a criação de um curso avançado, de 400 horas, voltado para projetos de usinas solares de grande porte — segmento que cresce em MS com a instalação de parques solares no Cerrado. A previsão é que o curso avançado comece no segundo semestre de 2027.
A Semadesc deve publicar, até junho de 2026, um edital de fomento para empresas que invistam em formação profissional na área de energias renováveis. O valor previsto é de R$ 1,2 milhão, com recursos do Fundo de Desenvolvimento Industrial de MS.
Fechamento
Seis jovens num telhado de galpão, sob sol de 34°C, parafusando o futuro. A cena se repete todos os dias em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas — e deve se espalhar por mais cidades de MS nos próximos anos. O programa de formação em energia solar não é caridade. É cálculo. A empresa precisa de mão de obra, o estado precisa de empregos e o planeta precisa de energia limpa. Quando os três interesses se alinham, o resultado é um jovem de 21 anos que saiu da roça, aprendeu a instalar painéis solares e hoje ganha R$ 3.200 por mês com carteira assinada. Informações sobre inscrições podem ser obtidas no site do Senai-MS (senai.ms.br) ou nas escolas técnicas estaduais de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas.
Fontes e Referências
- Absolar — Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (absolar.org.br)
- Senai-MS (senai.ms.br)
- Semadesc — Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de MS
- IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
- Escola Técnica Estadual Hércules Maymone
💰 Energia solar e formação em números
Alunos formados pelo programa
280 jovens
Crescimento do setor em MS (5 anos)
340%
Potencial solar de MS
4º maior do Brasil
Salário inicial do instalador
R$ 2.400 a R$ 3.800
Fonte: Absolar / Senai-MS / Empresa do setor fotovoltaico
❓ Perguntas Frequentes
O programa é uma parceria entre uma empresa do setor fotovoltaico e escolas técnicas de Mato Grosso do Sul, com apoio do Senai. Os estudantes participam de um curso de 240 horas que combina aulas teóricas sobre eletricidade, normas técnicas e dimensionamento de sistemas fotovoltaicos com prática supervisionada em instalações reais. Ao final, os alunos recebem certificação reconhecida pelo mercado e são encaminhados para vagas em empresas do setor. O programa já formou 280 jovens desde 2023 e tem turmas abertas em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas.
Mato Grosso do Sul possui o quarto maior potencial de geração de energia solar do Brasil, atrás apenas de Bahia, Minas Gerais e São Paulo em capacidade instalada. O estado recebe irradiação solar média de 5,4 kWh por metro quadrado por dia, índice considerado excelente para geração fotovoltaica. Segundo a Absolar, a potência instalada de energia solar em MS saltou de 320 MW em 2021 para mais de 1.400 MW em 2026, um crescimento de 340% em cinco anos. O setor gera cerca de 9.200 empregos diretos e indiretos no estado.
O salário inicial de um instalador de sistemas fotovoltaicos em Mato Grosso do Sul varia entre R$ 2.400 e R$ 3.800, dependendo da empresa, da região e da experiência do profissional. Técnicos com certificação reconhecida e experiência em projetos de médio e grande porte podem alcançar remunerações de R$ 5.500 a R$ 7.000 mensais. A demanda por profissionais qualificados supera a oferta no estado, o que pressiona os salários para cima e torna a área uma das mais promissoras para jovens que buscam inserção rápida no mercado de trabalho.
Roberto Almeida
Repórter
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