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quarta-feira, 15 de abril de 2026
📈 Economia

Manutenção em celulose leva rede hoteleira ao limite no interior

Parada programada de manutenção da Suzano em Três Lagoas atrai milhares de trabalhadores e lota hotéis e pousadas da região

Patrícia Souza7 min de leituraTrês Lagoas
Manutenção em celulose leva rede hoteleira ao limite no interior

Três Lagoas acordou diferente nesta semana. As ruas do centro estão mais cheias, os restaurantes têm fila na hora do almoço e não sobra quarto de hotel na cidade. A razão tem nome: Suzano. A maior fábrica de celulose do planeta iniciou a parada programada de manutenção, e cerca de 4.500 trabalhadores temporários desembarcaram no município do leste de Mato Grosso do Sul. A rede hoteleira bateu 98% de ocupação — e quem não conseguiu vaga em Três Lagoas está dormindo em Água Clara, a 80 quilômetros de distância.

O Que Aconteceu

A Suzano deu início à parada geral de manutenção da Unidade Três Lagoas na última segunda-feira (14). A operação, que ocorre a cada 18 meses, interrompe a produção de celulose por 25 a 30 dias para inspeção, reparo e substituição de equipamentos críticos — caldeiras, digestores, evaporadores, turbinas e tubulações.

A parada exige mão de obra especializada que Três Lagoas não tem em quantidade suficiente. A Suzano contratou empresas terceirizadas que trouxeram técnicos, soldadores, eletricistas, instrumentistas e engenheiros de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraná e outros estados. O contingente estimado é de 4.500 trabalhadores temporários, que se somam aos cerca de 3.200 funcionários fixos da unidade.

O impacto na cidade foi imediato. A rede hoteleira de Três Lagoas — que conta com 32 hotéis e pousadas e cerca de 1.800 leitos — atingiu 98% de ocupação já na primeira semana. Plataformas de aluguel por temporada, como Airbnb, também esgotaram as opções disponíveis. Trabalhadores que não conseguiram hospedagem na cidade estão se deslocando diariamente de Água Clara (80 km), Brasilândia (60 km) e até Andradina, no interior de São Paulo (120 km).

Contexto e Histórico

Três Lagoas se transformou na capital mundial da celulose nas últimas duas décadas. A cidade abriga duas das maiores fábricas do setor: a Suzano (antiga Fibria), com capacidade de produção de 3,25 milhões de toneladas por ano, e a Eldorado Brasil, com capacidade de 1,8 milhão de toneladas. Juntas, as duas unidades respondem por cerca de 15% da produção global de celulose de eucalipto.

A Suzano Três Lagoas é a maior fábrica de celulose do mundo em um único site. A unidade opera com três linhas de produção — a mais recente, inaugurada em 2024, custou R$ 22,2 bilhões e elevou a capacidade da planta em 2,55 milhões de toneladas. A escala da operação é impressionante: a fábrica consome 40 mil metros cúbicos de madeira por dia, equivalente a cerca de 2 mil caminhões de toras de eucalipto.

As paradas de manutenção são eventos cíclicos que Três Lagoas já aprendeu a absorver — mas nunca sem impacto. A última parada geral, em outubro de 2024, trouxe cerca de 3.800 trabalhadores temporários e lotou a rede hoteleira por três semanas. A parada de 2026 é maior porque inclui a manutenção da terceira linha de produção, inaugurada há menos de dois anos.

O setor hoteleiro de Três Lagoas cresceu junto com a celulose. Em 2010, a cidade tinha 12 hotéis e cerca de 500 leitos. Hoje são 32 estabelecimentos e 1.800 leitos — crescimento de quase quatro vezes em 16 anos. Mesmo assim, a capacidade é insuficiente durante as paradas de manutenção, que concentram milhares de trabalhadores em períodos curtos.

A economia de Três Lagoas gira em torno da celulose. O setor responde por cerca de 60% do PIB municipal e emprega direta e indiretamente mais de 15 mil pessoas. A dependência é tão grande que qualquer oscilação na produção — seja por parada de manutenção, queda no preço internacional da celulose ou problemas logísticos — reverbera em toda a cadeia econômica da cidade.

O perfil dos trabalhadores temporários é predominantemente masculino, com idade entre 25 e 45 anos. Muitos são profissionais especializados que percorrem o Brasil acompanhando paradas de manutenção em indústrias de celulose, petroquímica e siderurgia. Ganham bem — soldadores especializados podem receber até R$ 15 mil por mês durante a parada — e gastam parte significativa da renda na cidade onde estão hospedados.

Impacto Para a População

A parada de manutenção da Suzano movimenta a economia de Três Lagoas, mas também gera transtornos para os moradores.

Aspecto Detalhe
Trabalhadores temporários 4.500 estimados
Ocupação hoteleira 98%
Hotéis e pousadas em Três Lagoas 32 (1.800 leitos)
Duração da parada 25 a 30 dias
Impacto econômico estimado R$ 35 milhões
Cidades que absorvem excedente Água Clara, Brasilândia, Andradina (SP)

Para o comércio três-lagoense, a parada é uma bonança. Restaurantes do centro registram aumento de 50% a 80% no faturamento. Supermercados vendem mais marmitas, água e produtos de higiene. Postos de combustível faturam com o vai e vem de vans e ônibus que transportam trabalhadores. A Associação Comercial estima que a parada injeta R$ 35 milhões na economia local em menos de um mês.

O lado negativo é o impacto na rotina da cidade. O trânsito no centro de Três Lagoas, normalmente tranquilo, ficou congestionado nos horários de pico. Filas em restaurantes e supermercados aumentaram. Moradores relatam dificuldade para encontrar vagas de estacionamento e aumento nos preços de aluguéis de curta temporada — proprietários que cobram R$ 1.500 por mês estão pedindo R$ 3 mil durante a parada.

Para os trabalhadores temporários que não conseguiram hospedagem em Três Lagoas, o deslocamento diário de cidades vizinhas é cansativo e consome tempo. Uma viagem de ida e volta de Água Clara, por exemplo, leva cerca de duas horas — tempo que poderia ser de descanso entre turnos de trabalho pesado.

O Que Dizem os Envolvidos

A Suzano informou que a parada de manutenção "segue o cronograma planejado" e que a empresa "trabalha em parceria com a prefeitura e o setor hoteleiro para minimizar o impacto na cidade". A companhia disse que contratou serviço de transporte fretado para os trabalhadores hospedados em cidades vizinhas.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas comemorou o movimento. "A parada é o nosso Carnaval econômico. Em 30 dias, o comércio fatura o equivalente a dois meses normais. Precisamos estar preparados para atender bem essa demanda", afirmou.

A prefeitura de Três Lagoas informou que reforçou a fiscalização de trânsito no centro e que a Guarda Municipal está atuando em pontos críticos. O prefeito reconheceu que a capacidade hoteleira da cidade precisa crescer. "Estamos conversando com investidores para a construção de pelo menos dois novos hotéis até 2028. A demanda existe, falta oferta", declarou.

Próximos Passos

A parada de manutenção da Suzano deve ser concluída até meados de maio, quando a produção de celulose será retomada gradualmente. Os trabalhadores temporários deixarão a cidade ao longo das semanas seguintes.

A prefeitura de Três Lagoas vai realizar estudo de viabilidade para a construção de alojamentos temporários que possam ser utilizados durante as paradas de manutenção, reduzindo a pressão sobre a rede hoteleira.

A Suzano anunciou que a próxima parada geral está prevista para o segundo semestre de 2027. A empresa informou que vai iniciar o planejamento logístico com seis meses de antecedência para garantir hospedagem suficiente para os trabalhadores.

A Associação Comercial vai promover capacitação para comerciantes e prestadores de serviço de Três Lagoas, com foco em atendimento ao público temporário e gestão de demanda sazonal.

Fechamento

Quatro mil e quinhentos trabalhadores numa cidade de 135 mil habitantes. A parada de manutenção da Suzano transforma Três Lagoas por um mês: hotéis lotam, restaurantes faturam, o trânsito emperra e o preço do aluguel dispara. É o preço — e o prêmio — de ser a capital mundial da celulose. Quando a fábrica para, a cidade ferve. E quando a fábrica volta a funcionar, Três Lagoas respira, conta o dinheiro e começa a se preparar para a próxima parada.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Suzano S.A. (suzano.com.br)
  • Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas
  • Prefeitura Municipal de Três Lagoas (treslagoas.ms.gov.br)

💰 Parada de manutenção da Suzano

1

Trabalhadores temporários

4.500 estimados

2

Ocupação hoteleira

98% em Três Lagoas

3

Duração da parada

25 a 30 dias

4

Impacto econômico

R$ 35 milhões na região

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

A Suzano, maior produtora de celulose do mundo, iniciou a parada programada de manutenção em sua unidade de Três Lagoas, a maior fábrica de celulose do planeta. A operação, que ocorre a cada 18 meses, exige a contratação de cerca de 4.500 trabalhadores temporários — técnicos, soldadores, eletricistas e engenheiros — que se deslocam de outros estados para a cidade. Esse contingente lotou a rede hoteleira de Três Lagoas, que atingiu 98% de ocupação, e transbordou para pousadas, casas de aluguel por temporada e até municípios vizinhos como Água Clara e Brasilândia.

A parada programada de manutenção da Suzano em Três Lagoas dura entre 25 e 30 dias, dependendo da complexidade dos serviços. Durante esse período, a produção de celulose é interrompida para que equipamentos críticos — caldeiras, digestores, evaporadores e turbinas — sejam inspecionados, reparados e substituídos quando necessário. A parada é planejada com meses de antecedência e envolve logística complexa de transporte, hospedagem e alimentação para os milhares de trabalhadores temporários.

O impacto econômico da parada de manutenção é estimado em R$ 35 milhões para a economia de Três Lagoas e região, segundo cálculos da Associação Comercial e Industrial do município. O valor inclui gastos com hospedagem, alimentação, transporte, combustível e serviços diversos consumidos pelos 4.500 trabalhadores temporários ao longo de 25 a 30 dias. Restaurantes, supermercados, postos de combustível e lojas de materiais de construção registram aumento significativo no faturamento durante o período.

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PS

Patrícia Souza

Repórter