Nelsinho Trad propõe cooperação Brasil-Bolívia contra incêndios no Pantanal
Senador de MS defende acordo bilateral para combate conjunto a queimadas na maior planície alagável do mundo

O fogo não respeita fronteira. E o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) quer que o combate a ele também não respeite. A proposta apresentada na Comissão de Relações Exteriores do Senado prevê cooperação bilateral entre Brasil e Bolívia para enfrentar os incêndios que devastam o Pantanal — bioma que se estende pelos dois países e pelo Paraguai.
O Que Aconteceu
Trad apresentou o requerimento na quinta-feira (10), durante sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. A proposta pede que o Itamaraty negocie com o governo boliviano um acordo de cooperação para combate conjunto a incêndios florestais na região do Pantanal.
O texto prevê quatro eixos de atuação: compartilhamento de equipamentos e aeronaves de combate a incêndios, treinamento conjunto de brigadistas brasileiros e bolivianos, monitoramento integrado por satélite com dados em tempo real e criação de um protocolo de resposta rápida para focos de incêndio na faixa de fronteira. O custo estimado da implementação é de R$ 18 milhões por ano, dividido entre os dois países.
"O fogo que começa na Bolívia chega no Pantanal brasileiro em questão de horas. E o contrário também acontece. Não faz sentido cada país combater sozinho um incêndio que é dos dois", argumentou Trad durante a sessão.
A proposta foi aprovada por unanimidade na comissão e será encaminhada ao Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty tem 90 dias para se manifestar sobre a viabilidade do acordo. A iniciativa conta com apoio de parlamentares de Mato Grosso — estado que divide com MS a porção brasileira do Pantanal — e de organizações ambientais que atuam na região transfronteiriça.
Contexto e Histórico
O Pantanal é a maior planície alagável do planeta, com 210 mil quilômetros quadrados distribuídos entre Brasil (150 mil km²), Bolívia (30 mil km²) e Paraguai (30 mil km²). No Brasil, o bioma ocupa partes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Os incêndios de 2020 marcaram o pior momento da história recente do Pantanal: 4,1 milhões de hectares queimados, quase 30% do bioma brasileiro. Em 2024, a situação voltou a ser crítica, com 2,3 milhões de hectares destruídos. O fogo matou milhares de animais, incluindo onças-pintadas, araras-azuis e jacarés, e causou prejuízos estimados em R$ 3,8 bilhões ao turismo e à pecuária da região.
Na Bolívia, o cenário é semelhante. Em 2024, incêndios no departamento de Santa Cruz — que inclui a porção boliviana do Pantanal — queimaram 6,5 milhões de hectares de vegetação nativa. O governo boliviano declarou emergência nacional e pediu ajuda internacional. A fumaça dos incêndios bolivianos cruzou a fronteira e foi sentida em Corumbá e Ladário durante semanas, com índices de qualidade do ar que chegaram a "muito ruim" segundo medições do Inmet.
O problema é que os incêndios cruzam a fronteira. Focos que começam em fazendas bolivianas, onde a queimada para renovação de pastagem é prática comum, avançam para o território brasileiro empurrados pelo vento. E vice-versa. Sem coordenação, as equipes de combate de cada país atuam isoladamente, perdendo tempo e recursos.
O Corpo de Bombeiros de MS já ativou a Operação Pantanal 2026, com investimento de R$ 24 milhões em prevenção e combate. A operação inclui 12 drones de monitoramento, 8 bases avançadas em pontos estratégicos e treinamento de 350 brigadistas. Mas o alcance é limitado à fronteira brasileira.
Quem percorre a Estrada-Parque do Pantanal entre Corumbá e Miranda percebe os sinais da seca que se aproxima: o nível do rio Paraguai caiu 1,2 metro desde fevereiro, e as baías que em março ainda refletiam o céu azul pantaneiro agora exibem margens de lama rachada. Pecuaristas da região de Nhecolândia relatam que o capim nativo já amarelou em trechos onde normalmente ficaria verde até junho. A combinação de vegetação seca e ventos de até 60 km/h — comuns entre julho e setembro — transforma qualquer faísca em incêndio de grandes proporções. Em 2024, um único foco na fazenda São Bento, no município de Corumbá, consumiu 14 mil hectares em 72 horas antes que as equipes conseguissem estabelecer uma linha de contenção. A fumaça daquele incêndio foi detectada por satélites a 800 km de distância, em Cuiabá.
Impacto Para a População
A cooperação bilateral pode reduzir o tempo de resposta a incêndios transfronteiriços e proteger o bioma que sustenta a economia de dezenas de municípios.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Proposta | Acordo bilateral Brasil-Bolívia |
| Autor | Senador Nelsinho Trad (PSD-MS) |
| Eixos | Equipamentos, treinamento, satélite, protocolo |
| Pantanal no Brasil | 150 mil km² |
| Pantanal na Bolívia | 30 mil km² |
| Área queimada em 2024 (Brasil) | 2,3 milhões de hectares |
| Prejuízo estimado (2024) | R$ 3,8 bilhões |
| Investimento CBMMS 2026 | R$ 24 milhões |
O turismo no Pantanal movimenta cerca de R$ 1,2 bilhão por ano em MS, segundo a Fundtur (Fundação de Turismo de MS). Incêndios descontrolados afugentam turistas e destroem a infraestrutura de pousadas e fazendas. A pecuária pantaneira — que emprega 12 mil famílias — também sofre com a perda de pastagens e a morte de animais.
Para as comunidades ribeirinhas e indígenas que vivem no Pantanal, os incêndios representam ameaça direta à subsistência. A pesca, a coleta de iscas e o turismo de base comunitária dependem da preservação do bioma. Na comunidade de São Lourenço, às margens do rio homônimo, pescadores artesanais perderam 40% da renda em 2024 por causa da mortandade de peixes provocada pela fumaça e pelo assoreamento pós-incêndio.
O Que Dizem os Envolvidos
"O Pantanal não é só de MS ou de MT. É do mundo. E o fogo que vem da Bolívia destrói o mesmo bioma. Precisamos de um protocolo conjunto, com comunicação em tempo real entre as equipes dos dois países", reforçou Trad.
O Ministério do Meio Ambiente informou que já mantém diálogo com o governo boliviano sobre questões ambientais na fronteira, mas que um acordo específico para combate a incêndios no Pantanal ainda não foi formalizado.
O comandante do Corpo de Bombeiros de MS elogiou a iniciativa. "Qualquer cooperação que amplie nossa capacidade de resposta é bem-vinda. O fogo não espera diplomacia."
Próximos Passos
O Itamaraty tem 90 dias para avaliar a proposta e iniciar negociações com o governo boliviano. A expectativa de Trad é que o acordo seja assinado antes do período seco de 2026, que começa em junho.
O CBMMS mantém a Operação Pantanal 2026 em fase de preparação, com posicionamento de equipes e equipamentos previsto para maio. A operação vai até novembro.
No Senado, Trad também apresentou projeto de lei que destina R$ 150 milhões do Fundo Nacional de Meio Ambiente para prevenção de incêndios no Pantanal nos próximos três anos. O projeto está em tramitação na Comissão de Meio Ambiente.
Fechamento
O Pantanal queima dos dois lados da fronteira, mas o combate para na linha imaginária que separa Brasil e Bolívia. A proposta de Trad é óbvia — tão óbvia que espanta não existir ainda. Enquanto a diplomacia trabalha, o relógio do período seco avança. Junho está a dois meses. Denúncias de queimadas ilegais podem ser feitas pelo 0800-61-8080 (Linha Verde do Ibama) ou pelo aplicativo SOS Pantanal.
Fontes e Referências
- Midiamax (midiamax.com.br)
- Senado Federal (senado.leg.br)
- CBMMS — Corpo de Bombeiros Militar de MS (cbm.ms.gov.br)
- Ibama (ibama.gov.br)
💰 Pantanal em risco
Área do Pantanal
150 mil km² (Brasil)
Área queimada em 2024
2,3 milhões de hectares
Investimento CBMMS 2026
R$ 24 milhões
Proposta
Acordo bilateral
Fonte: Midiamax / Senado Federal
❓ Perguntas Frequentes
O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) apresentou proposta de cooperação bilateral entre Brasil e Bolívia para o combate conjunto a incêndios florestais no Pantanal. A iniciativa prevê compartilhamento de equipamentos, treinamento conjunto de brigadistas e monitoramento integrado por satélite da região transfronteiriça. O Pantanal se estende por cerca de 150 mil quilômetros quadrados no Brasil e 30 mil na Bolívia, e os incêndios frequentemente cruzam a fronteira. A proposta foi apresentada durante reunião da Comissão de Relações Exteriores do Senado e será encaminhada ao Itamaraty para negociação diplomática.
O Pantanal sofreu incêndios devastadores nos últimos anos. Em 2024, cerca de 2,3 milhões de hectares foram queimados no bioma, o pior ano desde 2020, quando 4,1 milhões de hectares foram destruídos pelo fogo. Em 2025, a área queimada foi menor — cerca de 800 mil hectares — graças a chuvas acima da média no período seco. Para 2026, o Corpo de Bombeiros de MS já ativou a Operação Pantanal com investimento de R$ 24 milhões em prevenção, incluindo drones de monitoramento e brigadas posicionadas em pontos estratégicos. O fogo no Pantanal é agravado pela seca, ventos fortes e pela prática ilegal de queimadas para renovação de pastagens.
Sim. O Pantanal é um bioma transfronteiriço que se estende pelo Brasil, Bolívia e Paraguai. No Brasil, ocupa cerca de 150 mil quilômetros quadrados nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na Bolívia, a porção pantaneira — conhecida como Pantanal Boliviano ou região de Otuquis — abrange cerca de 30 mil quilômetros quadrados no departamento de Santa Cruz. O Paraguai tem uma faixa menor, no Chaco. Os incêndios frequentemente cruzam as fronteiras, e a falta de coordenação entre os países dificulta o combate. A proposta de Nelsinho Trad busca criar um protocolo conjunto para resposta rápida a focos de incêndio na região transfronteiriça.
Roberto Almeida
Repórter
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