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quinta-feira, 02 de abril de 2026
💬 Opinião

Opinião: O dilema energético de MS — entre a abundância solar e a dependência hídrica

Estado é líder em geração distribuída solar, mas enfrenta crise hídrica que ameaça hidrelétricas do Rio Paraná. Transição energética exige planejamento de longo prazo.

Prof. Dr. Ricardo Cavalcanti7 min de leituraMato Grosso do Sul
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Artigo de Opinião

Este texto expressa a opinião do autor e não reflete necessariamente a posição editorial do Foco do Estado. O portal publica artigos de opinião como contribuição ao debate público e ao pluralismo de ideias.

Opinião: O dilema energético de MS — entre a abundância solar e a dependência hídrica

Mato Grosso do Sul vive um paradoxo energético que ilustra os desafios da transição para uma matriz mais limpa e resiliente. De um lado, o estado desponta como um dos líderes nacionais em geração solar distribuída, com mais de 85 mil unidades consumidoras gerando sua própria energia a partir de painéis fotovoltaicos instalados em telhados de residências, comércios e propriedades rurais. De outro, as grandes hidrelétricas do Rio Paraná — que historicamente garantiam a segurança energética do estado e da região Sudeste — operam com reservatórios cada vez mais baixos, reflexo de um regime hidrológico que se alterou de forma possivelmente irreversível.

A ascensão solar

O crescimento da energia solar em MS é uma história de sucesso impulsionada por três fatores convergentes: irradiação solar privilegiada (média de 5,4 kWh/m²/dia, uma das mais altas do país), custo dos painéis em queda contínua (redução de 40% nos últimos cinco anos) e tarifas de energia elétrica entre as mais caras do país (R$ 0,92/kWh para consumidores residenciais da Energisa-MS). A combinação torna o investimento em energia solar atrativo — com payback médio de 3,5 anos para instalações residenciais.

Os números impressionam. Em 2020, MS tinha 12 mil unidades de geração distribuída e 180 MW de potência instalada. Em março de 2026, são 85 mil unidades e 1,2 GW — crescimento de 567% em seis anos. Se mantido o ritmo atual, o estado atingirá 2 GW de solar distribuída antes de 2028, o que representará capacidade equivalente a uma usina hidrelétrica de grande porte.

O setor agropecuário é o maior motor dessa expansão. Fazendas de soja, milho e gado adotam a energia solar não apenas por economia — o custo de energia para irrigação e operações de confinamento pode representar 8% a 12% do custo de produção — mas também como estratégia de compliance ambiental. Compradores internacionais, especialmente europeus, exigem cada vez mais certificações de sustentabilidade que incluem a matriz energética das propriedades.

A fragilidade hídrica

Enquanto o sol brilha generoso nos telhados de MS, as águas que movem as turbinas das hidrelétricas minguam. As usinas de Jupiá e Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta), ambas operadas pela CTG Brasil no Rio Paraná, respondem juntas por 3,5 GW de capacidade instalada. Nos últimos três anos, no entanto, operaram em média a 68% da capacidade, em razão da redução persistente da vazão do Rio Paraná.

Os dados hidrológicos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) mostram que a vazão média do Paraná na altura de Jupiá caiu 22% na comparação das médias 2015-2025 com as médias 1990-2014. Climatologistas atribuem a queda a dois fatores interconectados: mudanças no regime de chuvas na bacia do Paraná (concentração em eventos extremos e redução das "chuvas de molha", de duração mais longa) e aumento da evapotranspiração causado por temperaturas mais altas.

A consequência prática é que MS não pode mais contar com as hidrelétricas como "reserva garantida". Em períodos de seca prolongada, como o que ocorreu entre julho e novembro de 2025, o ONS despacha termelétricas a gás natural e óleo diesel para compensar a queda hídrica — energia mais cara e mais poluente, que eleva a bandeira tarifária e a conta de luz do consumidor.

O caminho da diversificação

A solução para o dilema energético de MS passa pela diversificação inteligente da matriz. Além da solar, o estado tem potencial inexplorado em pelo menos três frentes: biomassa de cana-de-açúcar (MS é o 4º maior produtor de etanol do país e as usinas sucroalcooleiras já geram excedente de energia a partir do bagaço), biogás de dejetos bovinos (o quinto maior rebanho do Brasil produz matéria-prima abundante para biodigestores) e, em menor escala, eólica (ventos consistentes acima de 6 m/s na região de fronteira com Paraguai).

O governo estadual, por meio da Semagro, lançou em fevereiro o Programa MS Solar 2030, que prevê incentivos fiscais (redução de ICMS) para fabricantes de equipamentos solares que se instalarem no estado e linhas de crédito subsidiadas para produtores rurais. A meta é atingir 5 GW de potência solar instalada até 2030, o que posicionaria MS entre os cinco maiores geradores solares do país.

Mas programas governamentais, por mais bem-intencionados que sejam, não substituem planejamento energético de longo prazo. MS precisa de uma Política Estadual de Transição Energética que vá além de incentivos pontuais e contemple investimentos em armazenamento de energia (baterias em escala de rede), modernização da infraestrutura de transmissão (muitas áreas rurais não comportam a injeção de energia solar na rede) e formação de mão-de-obra especializada para o setor.

O dilema não é simples, mas a oportunidade é extraordinária. MS tem sol, biomassa, biogás e um setor agropecuário pragmático que entende que energia é custo — e custo se otimiza. A pergunta não é se a transição energética acontecerá, mas se teremos a visão estratégica para conduzi-la de forma que transforme um problema (a dependência hídrica) em uma vantagem competitiva.

Ricardo Cavalcanti é professor de Engenharia Elétrica da UFMS e pesquisador do Núcleo de Energia Renovável do Centro-Oeste.

Fonte: Coluna de Opinião

❓ Perguntas Frequentes

MS é o 5º estado em potência solar instalada e o 1º do Centro-Oeste em geração distribuída (painéis residenciais e comerciais), com 1,2 GW de capacidade instalada.

As principais são Jupiá e Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta), ambas no Rio Paraná, que juntas respondem por 3,5 GW de capacidade instalada.

Sim. A redução do volume do Rio Paraná nos últimos anos diminuiu a capacidade de geração das usinas em até 30%, aumentando a dependência de termelétricas.

É quando o próprio consumidor gera energia (geralmente solar) em sua residência ou empresa. O excedente é injetado na rede e gera créditos na conta de luz.

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PD

Prof. Dr. Ricardo Cavalcanti

Repórter