Opinião: O dilema energético de MS — entre a abundância solar e a dependência hídrica
Estado é líder em geração distribuída solar, mas enfrenta crise hídrica que ameaça hidrelétricas do Rio Paraná. Transição energética exige planejamento de longo prazo.
Artigo de Opinião
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Mato Grosso do Sul vive um paradoxo energético que ilustra os desafios da transição para uma matriz mais limpa e resiliente. De um lado, o estado desponta como um dos líderes nacionais em geração solar distribuída, com mais de 85 mil unidades consumidoras gerando sua própria energia a partir de painéis fotovoltaicos instalados em telhados de residências, comércios e propriedades rurais. De outro, as grandes hidrelétricas do Rio Paraná — que historicamente garantiam a segurança energética do estado e da região Sudeste — operam com reservatórios cada vez mais baixos, reflexo de um regime hidrológico que se alterou de forma possivelmente irreversível.
A ascensão solar
O crescimento da energia solar em MS é uma história de sucesso impulsionada por três fatores convergentes: irradiação solar privilegiada (média de 5,4 kWh/m²/dia, uma das mais altas do país), custo dos painéis em queda contínua (redução de 40% nos últimos cinco anos) e tarifas de energia elétrica entre as mais caras do país (R$ 0,92/kWh para consumidores residenciais da Energisa-MS). A combinação torna o investimento em energia solar atrativo — com payback médio de 3,5 anos para instalações residenciais.
Os números impressionam. Em 2020, MS tinha 12 mil unidades de geração distribuída e 180 MW de potência instalada. Em março de 2026, são 85 mil unidades e 1,2 GW — crescimento de 567% em seis anos. Se mantido o ritmo atual, o estado atingirá 2 GW de solar distribuída antes de 2028, o que representará capacidade equivalente a uma usina hidrelétrica de grande porte.
O setor agropecuário é o maior motor dessa expansão. Fazendas de soja, milho e gado adotam a energia solar não apenas por economia — o custo de energia para irrigação e operações de confinamento pode representar 8% a 12% do custo de produção — mas também como estratégia de compliance ambiental. Compradores internacionais, especialmente europeus, exigem cada vez mais certificações de sustentabilidade que incluem a matriz energética das propriedades.
A fragilidade hídrica
Enquanto o sol brilha generoso nos telhados de MS, as águas que movem as turbinas das hidrelétricas minguam. As usinas de Jupiá e Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta), ambas operadas pela CTG Brasil no Rio Paraná, respondem juntas por 3,5 GW de capacidade instalada. Nos últimos três anos, no entanto, operaram em média a 68% da capacidade, em razão da redução persistente da vazão do Rio Paraná.
Os dados hidrológicos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) mostram que a vazão média do Paraná na altura de Jupiá caiu 22% na comparação das médias 2015-2025 com as médias 1990-2014. Climatologistas atribuem a queda a dois fatores interconectados: mudanças no regime de chuvas na bacia do Paraná (concentração em eventos extremos e redução das "chuvas de molha", de duração mais longa) e aumento da evapotranspiração causado por temperaturas mais altas.
A consequência prática é que MS não pode mais contar com as hidrelétricas como "reserva garantida". Em períodos de seca prolongada, como o que ocorreu entre julho e novembro de 2025, o ONS despacha termelétricas a gás natural e óleo diesel para compensar a queda hídrica — energia mais cara e mais poluente, que eleva a bandeira tarifária e a conta de luz do consumidor.
O caminho da diversificação
A solução para o dilema energético de MS passa pela diversificação inteligente da matriz. Além da solar, o estado tem potencial inexplorado em pelo menos três frentes: biomassa de cana-de-açúcar (MS é o 4º maior produtor de etanol do país e as usinas sucroalcooleiras já geram excedente de energia a partir do bagaço), biogás de dejetos bovinos (o quinto maior rebanho do Brasil produz matéria-prima abundante para biodigestores) e, em menor escala, eólica (ventos consistentes acima de 6 m/s na região de fronteira com Paraguai).
O governo estadual, por meio da Semagro, lançou em fevereiro o Programa MS Solar 2030, que prevê incentivos fiscais (redução de ICMS) para fabricantes de equipamentos solares que se instalarem no estado e linhas de crédito subsidiadas para produtores rurais. A meta é atingir 5 GW de potência solar instalada até 2030, o que posicionaria MS entre os cinco maiores geradores solares do país.
Mas programas governamentais, por mais bem-intencionados que sejam, não substituem planejamento energético de longo prazo. MS precisa de uma Política Estadual de Transição Energética que vá além de incentivos pontuais e contemple investimentos em armazenamento de energia (baterias em escala de rede), modernização da infraestrutura de transmissão (muitas áreas rurais não comportam a injeção de energia solar na rede) e formação de mão-de-obra especializada para o setor.
O dilema não é simples, mas a oportunidade é extraordinária. MS tem sol, biomassa, biogás e um setor agropecuário pragmático que entende que energia é custo — e custo se otimiza. A pergunta não é se a transição energética acontecerá, mas se teremos a visão estratégica para conduzi-la de forma que transforme um problema (a dependência hídrica) em uma vantagem competitiva.
Ricardo Cavalcanti é professor de Engenharia Elétrica da UFMS e pesquisador do Núcleo de Energia Renovável do Centro-Oeste.
Fonte: Coluna de Opinião
❓ Perguntas Frequentes
MS é o 5º estado em potência solar instalada e o 1º do Centro-Oeste em geração distribuída (painéis residenciais e comerciais), com 1,2 GW de capacidade instalada.
As principais são Jupiá e Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta), ambas no Rio Paraná, que juntas respondem por 3,5 GW de capacidade instalada.
Sim. A redução do volume do Rio Paraná nos últimos anos diminuiu a capacidade de geração das usinas em até 30%, aumentando a dependência de termelétricas.
É quando o próprio consumidor gera energia (geralmente solar) em sua residência ou empresa. O excedente é injetado na rede e gera créditos na conta de luz.
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Qual fonte de energia deveria ser prioridade em MS?
Prof. Dr. Ricardo Cavalcanti
Repórter
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