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sábado, 18 de abril de 2026
📈 Economia

Petrobras aprova retomada de fábrica de R$ 3,5 bilhões de fertilizantes em Três Lagoas

Conselho da estatal autorizou reinício das obras da UFN-III, parada desde 2015; operação prevista para 2029 vai suprir 15% da demanda nacional

Roberto Almeida8 min de leituraTrês Lagoas
Petrobras aprova retomada de fábrica de R$ 3,5 bilhões de fertilizantes em Três Lagoas

Onze anos parada. A fábrica de fertilizantes da Petrobras em Três Lagoas — a UFN-III, maior obra industrial abandonada do Centro-Oeste — vai sair do papel. O conselho de administração da estatal aprovou na segunda-feira, 13 de abril, a retomada da construção com investimento de R$ 3,5 bilhões. A previsão é de que a unidade comece a operar em 2029, produzindo 1,2 milhão de toneladas de ureia e amônia por ano.

O Que Aconteceu

A decisão foi tomada em reunião extraordinária do conselho da Petrobras em Brasília. O projeto da UFN-III entra oficialmente no portfólio de implementação do Plano Estratégico 2025-2029 da companhia. A estatal vai iniciar os processos de contratação para retomar a construção ainda no primeiro semestre de 2026.

A fábrica fica no Distrito Industrial de Três Lagoas, em um terreno de 280 hectares às margens do Rio Paraná. A construção começou em 2011 e foi paralisada em 2015, quando a Petrobras enfrentava a crise da Lava Jato e cortou investimentos em todas as áreas que não fossem exploração e produção de petróleo. Na época da paralisação, a obra estava com 82% de avanço físico — torres de processamento, tanques de armazenamento e parte da tubulação já estavam montados.

O abandono cobrou preço. Equipamentos expostos ao tempo por mais de uma década sofreram corrosão. Estruturas metálicas precisam de reforço. Sistemas elétricos e de instrumentação terão que ser substituídos. A Petrobras estima que R$ 800 milhões dos R$ 3,5 bilhões serão gastos apenas na recuperação do que já estava construído. O restante — R$ 2,7 bilhões — vai para a conclusão da obra e a compra de novos equipamentos.

"A UFN-III é um projeto que nunca deveria ter sido paralisado. O Brasil precisa de fertilizantes, Três Lagoas precisa de empregos, e a Petrobras precisa diversificar receita. Agora vamos corrigir esse erro", disse a presidente da Petrobras durante coletiva após a reunião do conselho.

Contexto e Histórico

A dependência brasileira de fertilizantes importados é uma vulnerabilidade estratégica. O país consome cerca de 45 milhões de toneladas de fertilizantes por ano — é o quarto maior consumidor do mundo, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Mas produz internamente apenas 15% do que usa. Os outros 85% vêm de fora, principalmente da Rússia, Canadá, Marrocos e Belarus.

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, expôs o risco. A Rússia, maior exportadora mundial de fertilizantes, restringiu vendas. Os preços dispararam. O custo do fertilizante para o produtor brasileiro subiu 127% entre 2021 e 2022, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Mesmo com a normalização parcial dos preços em 2024 e 2025, a tonelada de ureia importada ainda custa R$ 2.800 a R$ 3.200 no porto de Paranaguá — contra R$ 1.800 a R$ 2.200 estimados para a produção doméstica.

Mato Grosso do Sul é o quinto maior consumidor de fertilizantes do Brasil, com demanda anual de 3,2 milhões de toneladas. A soja — principal cultura do estado, com 4,1 milhões de hectares plantados — responde por 60% desse consumo. O milho safrinha, com 2,3 milhões de hectares, consome outros 25%. A proximidade da UFN-III em Três Lagoas pode reduzir o custo do frete em R$ 80 a R$ 120 por tonelada para produtores da região leste do estado.

Três Lagoas já é polo industrial consolidado. A cidade abriga duas das maiores fábricas de celulose do mundo — a Suzano e a Eldorado Brasil — que juntas produzem 5,8 milhões de toneladas de celulose por ano. A chegada da UFN-III vai diversificar a base industrial e reduzir a dependência do setor de papel e celulose, que responde por 72% do PIB industrial do município.

Impacto Para a População

A retomada da UFN-III é o maior investimento industrial anunciado para MS em 2026.

Aspecto Detalhe
Investimento total R$ 3,5 bilhões
Recuperação de estruturas R$ 800 milhões
Empregos na obra (pico) Até 8 mil diretos
Empregos permanentes 1.200
Produção anual 1,2 milhão de toneladas (ureia + amônia)
% da demanda nacional 15% dos fertilizantes nitrogenados
Início das operações Previsão 2029
Economia para produtor MS R$ 80 a R$ 120/tonelada no frete
Importação atual de fertilizantes 85% do consumo brasileiro

Para Três Lagoas, o impacto é transformador. A cidade de 130 mil habitantes vai receber um fluxo de trabalhadores que pode chegar a 10 mil pessoas no pico da obra, considerando empregos diretos e indiretos. Hotéis, restaurantes, comércio e serviços vão sentir o aquecimento. O mercado imobiliário já reagiu: o preço do aluguel de imóveis residenciais em Três Lagoas subiu 8% nas duas semanas seguintes ao anúncio, segundo corretoras locais.

O Que Dizem os Envolvidos

O prefeito de Três Lagoas comemorou a decisão. "A gente esperou 11 anos por esse dia. A UFN-III vai mudar o patamar econômico da cidade. Estamos preparando a infraestrutura — água, esgoto, estradas — para receber esse investimento", afirmou.

O presidente da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de MS) classificou a retomada como "estratégica para o agronegócio". "Produzir fertilizante aqui, perto da lavoura, reduz custo e diminui a dependência de importação. É bom para o produtor e bom para o país", disse.

A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) alertou que o prazo de conclusão em 2029 é "otimista" e que obras retomadas após longa paralisação costumam enfrentar atrasos. "A experiência mostra que recuperar uma obra parada há 11 anos é quase como construir do zero. O cronograma precisa ser realista", afirmou o diretor de infraestrutura da entidade.

Próximos Passos

A Petrobras vai abrir licitação para contratação da empresa que vai gerenciar a retomada da obra. O edital deve ser publicado até junho de 2026. A previsão é de que as obras recomecem efetivamente no quarto trimestre de 2026, após a conclusão dos estudos de integridade das estruturas existentes.

O governo de MS negocia com a Petrobras um pacote de incentivos fiscais estaduais para a UFN-III, incluindo redução de ICMS sobre insumos da construção e isenção de IPVA para veículos da obra. O valor dos incentivos não foi divulgado.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) informou que vai acompanhar o projeto e que a UFN-III precisará de licença ambiental atualizada, já que a licença original expirou em 2020. O Ibama deve iniciar a análise do novo pedido de licenciamento no segundo semestre de 2026.

Fechamento

Onze anos de ferrugem. R$ 2 bilhões em prejuízo acumulado. Uma fábrica que poderia estar produzindo fertilizante desde 2017 ficou apodrecendo no Distrito Industrial de Três Lagoas enquanto o Brasil importava 85% do que precisava — e pagava caro por isso. A Petrobras diz que vai corrigir o erro. R$ 3,5 bilhões e três anos de obra pela frente. Se cumprir o cronograma, em 2029 o produtor sul-mato-grossense vai comprar ureia feita a 200 quilômetros da lavoura, em vez de esperar navio da Rússia. Se não cumprir, será mais uma década perdida. Informações sobre o projeto podem ser acompanhadas no site da Petrobras: petrobras.com.br.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • O Estado Online (oestadoonline.com.br)
  • Petrobras — Relações com Investidores (petrobras.com.br)
  • Famasul — Federação da Agricultura e Pecuária de MS
  • Anda — Associação Nacional para Difusão de Adubos

💰 Fábrica de fertilizantes UFN-III

1

Investimento

R$ 3,5 bilhões

2

Empregos na obra

Até 8 mil diretos

3

Produção anual

1,2 milhão de toneladas

4

Início das operações

Previsão 2029

Fonte: Campo Grande News / Petrobras / O Estado Online

❓ Perguntas Frequentes

A UFN-III (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III) é uma fábrica de fertilizantes à base de nitrogênio que a Petrobras começou a construir em Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul, em 2011. A obra foi paralisada em 2015, quando a estatal enfrentava a crise financeira decorrente dos escândalos da Operação Lava Jato e da queda nos preços do petróleo. Na época, a construção estava com cerca de 82% de avanço físico. A fábrica ficou abandonada por mais de uma década, acumulando deterioração nas estruturas já construídas e gerando prejuízos estimados em R$ 2 bilhões em equipamentos parados e contratos rescindidos.

A retomada das obras da UFN-III deve gerar até 8 mil empregos diretos durante o pico da construção, previsto para 2027-2028. Após a conclusão, a operação da fábrica vai empregar cerca de 1.200 trabalhadores permanentes entre operadores, técnicos, engenheiros e pessoal administrativo. O impacto indireto na economia de Três Lagoas é estimado em 15 mil postos de trabalho adicionais, considerando fornecedores, prestadores de serviço, comércio e hotelaria. A cidade, que tem 130 mil habitantes, deve receber um fluxo migratório significativo de trabalhadores especializados.

O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que torna o agronegócio vulnerável a oscilações cambiais e crises geopolíticas. A UFN-III, quando operacional, vai produzir aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de ureia e amônia por ano, suprindo cerca de 15% da demanda nacional de fertilizantes nitrogenados. Para o produtor rural de Mato Grosso do Sul, a proximidade da fábrica pode significar redução no custo do frete de fertilizantes, que hoje chega a representar 12% do preço final do insumo. A expectativa é de economia de R$ 80 a R$ 120 por tonelada para produtores da região.

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RA

Roberto Almeida

Repórter