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terça-feira, 14 de abril de 2026
🚔 Polícia

PM atira na esposa e tenta tirar a própria vida no Jardim Columbia

Policial militar disparou contra a mulher dentro de casa e em seguida voltou a arma contra si mesmo em Campo Grande

Marcos Vinícius Borges7 min de leituraCampo Grande
PM atira na esposa e tenta tirar a própria vida no Jardim Columbia

A pistola era da corporação. O alvo, a própria esposa. Na noite desta segunda-feira (13), um policial militar da ativa disparou contra a mulher dentro da residência do casal no bairro Jardim Columbia, zona sul de Campo Grande. Depois, virou a arma contra si. Os dois foram socorridos com vida pelo Samu.

O Que Aconteceu

O chamado chegou ao 190 por volta das 18h30. Vizinhos relataram ouvir disparos dentro de uma casa na Rua dos Crisântemos, no Jardim Columbia. A primeira viatura da PM chegou em sete minutos e encontrou a mulher — de 31 anos — caída na sala com ferimento no tórax. O policial — um cabo de 36 anos, lotado no 1º Batalhão de Polícia Militar — estava no quarto com ferimento na cabeça.

O Samu enviou duas ambulâncias. A mulher foi encaminhada à Santa Casa de Campo Grande, onde passou por cirurgia de emergência para reparação de lesão pulmonar. O boletim médico da noite indicava estado grave, mas estável. O policial foi levado ao Hospital Regional, onde permanecia em observação na UTI com quadro reservado.

A arma utilizada foi a pistola Taurus PT 840, calibre .40, armamento funcional da PM fornecido ao cabo. A arma foi apreendida no local pela equipe da Corregedoria, que chegou à residência antes mesmo da Polícia Civil.

Uma filha do casal, de 9 anos, estava na casa no momento dos disparos. A menina não foi ferida fisicamente e foi acolhida por familiares. O Conselho Tutelar foi acionado.

Segundo relato de vizinhos à PM, o casal discutia com frequência nas últimas semanas. "Já tinha ouvido gritaria outras vezes, mas nunca tiro. Quando escutei o estalo, gelei", contou uma moradora que vive na casa ao lado há oito anos.

Contexto e Histórico

Feminicídios cometidos por policiais militares não são exceção em Mato Grosso do Sul. Em fevereiro de 2026, um sargento da PM foi preso em Dourados após matar a ex-companheira com a arma funcional. Em 2025, dois casos semelhantes foram registrados — um em Corumbá e outro em Ponta Porã. A presença da arma de fogo no ambiente doméstico transforma discussões em tragédias.

O Instituto Sou da Paz estima que a presença de arma de fogo no domicílio aumenta em cinco vezes o risco de feminicídio. No Brasil, 40% dos feminicídios são cometidos com arma de fogo, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. Em MS, o percentual é semelhante.

Mato Grosso do Sul registrou 34 feminicídios em 2025 e 11 no primeiro trimestre de 2026. Campo Grande concentra 30% dos casos. A Sejusp aponta que em 7 dos 11 casos de 2026, o autor era companheiro ou ex-companheiro da vítima — o padrão clássico da violência doméstica que escala até o assassinato.

A Lei Maria da Penha prevê o recolhimento da arma de fogo como medida protetiva. Mas a medida depende de pedido da vítima ou do Ministério Público, e de decisão judicial. Na prática, muitas mulheres não solicitam a medida por medo de retaliação ou por desconhecimento do direito.

"A arma funcional do policial é pra proteger a sociedade, não pra ameaçar a família. Quando um PM usa a arma contra a esposa, falhou o homem e falhou o sistema que deveria ter identificado o risco antes", disse a delegada titular da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) de Campo Grande em entrevista ao Campo Grande News em março.

O Jardim Columbia, bairro residencial da zona sul de Campo Grande, tem cerca de 12 mil moradores. A rua onde o crime aconteceu é tranquila, com casas de classe média. O barulho dos tiros, por volta das 18h30 — horário em que crianças brincam na calçada — assustou toda a vizinhança. "Meu filho tava andando de bicicleta na rua quando ouviu os tiros. Entrou correndo em casa chorando", relatou um pai que mora a três casas do local.

Impacto Para a População

O caso reacende o debate sobre o controle de armas funcionais de policiais envolvidos em violência doméstica.

Aspecto Detalhe
Agressor Cabo da PM, 36 anos
Vítima Esposa, 31 anos
Arma Pistola Taurus PT 840 (.40) funcional
Local Jardim Columbia, Campo Grande
Criança presente Filha de 9 anos (não ferida)
Estado da vítima Grave, estável (cirurgia no tórax)
Estado do PM Reservado (UTI, ferimento na cabeça)
Feminicídios em MS (1º tri 2026) 11
Feminicídios com arma de fogo ~40%
Risco com arma no domicílio 5x maior (Inst. Sou da Paz)

Para as famílias de policiais, o caso expõe uma realidade silenciada: o estresse da profissão, combinado com acesso permanente a arma de fogo e falta de acompanhamento psicológico, cria um ambiente de risco. A PM de MS oferece atendimento psicológico aos policiais, mas o serviço é voluntário e subutilizado. Segundo dados internos da corporação, apenas 12% dos policiais da ativa procuraram o serviço de psicologia em 2025.

Para a filha de 9 anos que presenciou os disparos, o trauma é imensurável. Estudos da Unicef indicam que crianças expostas a violência doméstica com arma de fogo têm três vezes mais chances de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático.

O Que Dizem os Envolvidos

A Polícia Militar de MS informou, por meio de nota, que "a Corregedoria da PM instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos" e que "o policial será afastado das funções até a conclusão da investigação". A corporação não comentou se o cabo tinha histórico de ocorrências disciplinares.

A Polícia Civil informou que a DEAM assumiu a investigação e que o caso foi registrado como tentativa de feminicídio qualificado. "A arma funcional foi apreendida e o inquérito será concluído no prazo legal", disse a delegada responsável.

O Conselho Tutelar confirmou que a criança foi entregue aos avós maternos e que acompanhamento psicológico foi solicitado.

A família da vítima não se manifestou publicamente.

Próximos Passos

O policial, caso sobreviva, responderá por tentativa de feminicídio qualificado (uso de arma de fogo, presença de criança) e tentativa de suicídio não é crime no Brasil. A pena para tentativa de feminicídio qualificado pode chegar a 20 anos de reclusão.

A Corregedoria da PM deve concluir o procedimento administrativo em até 90 dias. As sanções possíveis vão de suspensão a expulsão da corporação.

A DEAM solicitou medida protetiva em favor da vítima, incluindo proibição de aproximação e recolhimento de qualquer outra arma que o policial possua.

O Comando da PM de MS anunciou que vai revisar o protocolo de acompanhamento psicológico de policiais envolvidos em ocorrências de violência doméstica, tornando obrigatória a avaliação periódica para policiais com registro de conflito familiar.

Fechamento

Pistola da corporação. Tiro na esposa. Filha de 9 anos na casa. O Jardim Columbia, bairro onde crianças andam de bicicleta na calçada, virou cena de crime às 18h30 de uma segunda-feira. O policial que deveria proteger usou a arma pra destruir. E a pergunta que ninguém quer responder: quantos PMs com histórico de violência doméstica ainda carregam arma funcional pra casa todo dia? Denúncias de violência doméstica: 190 (PM), 180 (Central da Mulher, 24h, anônimo). Se estiver em risco imediato, saia de casa e ligue agora.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Midiamax (midiamax.com.br)
  • PM de Mato Grosso do Sul (pm.ms.gov.br)
  • Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br)
  • Instituto Sou da Paz (soudapaz.org)
  • Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025

💰 Violência doméstica com arma de fogo

1

Crime

Tentativa de feminicídio

2

Arma

Pistola funcional da PM

3

Local

Jardim Columbia, CG

4

Feminicídios em MS (2026)

11 no 1º trimestre

Fonte: Campo Grande News / Midiamax

❓ Perguntas Frequentes

Um policial militar da ativa disparou contra a própria esposa dentro da residência do casal no bairro Jardim Columbia, em Campo Grande, na noite desta segunda-feira (13). Após atirar na mulher, o PM voltou a arma contra si mesmo. Ambos foram socorridos pelo Samu e encaminhados a hospitais da capital. A mulher foi atingida na região do tórax e passou por cirurgia de emergência. O policial apresentava ferimento na cabeça. A arma utilizada era a pistola funcional da corporação, de uso obrigatório durante o serviço. A Corregedoria da PM instaurou procedimento para apurar as circunstâncias do caso.

Sim. Policiais militares da ativa têm direito ao porte funcional de arma de fogo, que permite o transporte e a posse da arma mesmo fora do horário de serviço. A pistola funcional é fornecida pela corporação e o policial é responsável pela guarda e pelo uso adequado do armamento. No entanto, em casos de envolvimento em ocorrências de violência doméstica, a Justiça pode determinar o recolhimento da arma como medida protetiva. Estudos do Instituto Sou da Paz apontam que a presença de arma de fogo no domicílio aumenta em cinco vezes o risco de feminicídio em situações de violência doméstica.

Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) indicam que aproximadamente 40% dos feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul envolvem arma de fogo. No primeiro trimestre de 2026, foram 11 feminicídios no estado, dos quais pelo menos 4 foram cometidos com arma de fogo. Entre os autores, há casos de policiais militares, policiais civis e vigilantes — profissionais que têm acesso legal a armamento. A Lei Maria da Penha prevê o recolhimento da arma como medida protetiva, mas a aplicação depende de decisão judicial e nem sempre é solicitada pela vítima antes da agressão fatal.

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MV

Marcos Vinícius Borges

Repórter