PM atira na esposa e tenta tirar a própria vida no Jardim Columbia
Policial militar disparou contra a mulher dentro de casa e em seguida voltou a arma contra si mesmo em Campo Grande

A pistola era da corporação. O alvo, a própria esposa. Na noite desta segunda-feira (13), um policial militar da ativa disparou contra a mulher dentro da residência do casal no bairro Jardim Columbia, zona sul de Campo Grande. Depois, virou a arma contra si. Os dois foram socorridos com vida pelo Samu.
O Que Aconteceu
O chamado chegou ao 190 por volta das 18h30. Vizinhos relataram ouvir disparos dentro de uma casa na Rua dos Crisântemos, no Jardim Columbia. A primeira viatura da PM chegou em sete minutos e encontrou a mulher — de 31 anos — caída na sala com ferimento no tórax. O policial — um cabo de 36 anos, lotado no 1º Batalhão de Polícia Militar — estava no quarto com ferimento na cabeça.
O Samu enviou duas ambulâncias. A mulher foi encaminhada à Santa Casa de Campo Grande, onde passou por cirurgia de emergência para reparação de lesão pulmonar. O boletim médico da noite indicava estado grave, mas estável. O policial foi levado ao Hospital Regional, onde permanecia em observação na UTI com quadro reservado.
A arma utilizada foi a pistola Taurus PT 840, calibre .40, armamento funcional da PM fornecido ao cabo. A arma foi apreendida no local pela equipe da Corregedoria, que chegou à residência antes mesmo da Polícia Civil.
Uma filha do casal, de 9 anos, estava na casa no momento dos disparos. A menina não foi ferida fisicamente e foi acolhida por familiares. O Conselho Tutelar foi acionado.
Segundo relato de vizinhos à PM, o casal discutia com frequência nas últimas semanas. "Já tinha ouvido gritaria outras vezes, mas nunca tiro. Quando escutei o estalo, gelei", contou uma moradora que vive na casa ao lado há oito anos.
Contexto e Histórico
Feminicídios cometidos por policiais militares não são exceção em Mato Grosso do Sul. Em fevereiro de 2026, um sargento da PM foi preso em Dourados após matar a ex-companheira com a arma funcional. Em 2025, dois casos semelhantes foram registrados — um em Corumbá e outro em Ponta Porã. A presença da arma de fogo no ambiente doméstico transforma discussões em tragédias.
O Instituto Sou da Paz estima que a presença de arma de fogo no domicílio aumenta em cinco vezes o risco de feminicídio. No Brasil, 40% dos feminicídios são cometidos com arma de fogo, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. Em MS, o percentual é semelhante.
Mato Grosso do Sul registrou 34 feminicídios em 2025 e 11 no primeiro trimestre de 2026. Campo Grande concentra 30% dos casos. A Sejusp aponta que em 7 dos 11 casos de 2026, o autor era companheiro ou ex-companheiro da vítima — o padrão clássico da violência doméstica que escala até o assassinato.
A Lei Maria da Penha prevê o recolhimento da arma de fogo como medida protetiva. Mas a medida depende de pedido da vítima ou do Ministério Público, e de decisão judicial. Na prática, muitas mulheres não solicitam a medida por medo de retaliação ou por desconhecimento do direito.
"A arma funcional do policial é pra proteger a sociedade, não pra ameaçar a família. Quando um PM usa a arma contra a esposa, falhou o homem e falhou o sistema que deveria ter identificado o risco antes", disse a delegada titular da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) de Campo Grande em entrevista ao Campo Grande News em março.
O Jardim Columbia, bairro residencial da zona sul de Campo Grande, tem cerca de 12 mil moradores. A rua onde o crime aconteceu é tranquila, com casas de classe média. O barulho dos tiros, por volta das 18h30 — horário em que crianças brincam na calçada — assustou toda a vizinhança. "Meu filho tava andando de bicicleta na rua quando ouviu os tiros. Entrou correndo em casa chorando", relatou um pai que mora a três casas do local.
Impacto Para a População
O caso reacende o debate sobre o controle de armas funcionais de policiais envolvidos em violência doméstica.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Agressor | Cabo da PM, 36 anos |
| Vítima | Esposa, 31 anos |
| Arma | Pistola Taurus PT 840 (.40) funcional |
| Local | Jardim Columbia, Campo Grande |
| Criança presente | Filha de 9 anos (não ferida) |
| Estado da vítima | Grave, estável (cirurgia no tórax) |
| Estado do PM | Reservado (UTI, ferimento na cabeça) |
| Feminicídios em MS (1º tri 2026) | 11 |
| Feminicídios com arma de fogo | ~40% |
| Risco com arma no domicílio | 5x maior (Inst. Sou da Paz) |
Para as famílias de policiais, o caso expõe uma realidade silenciada: o estresse da profissão, combinado com acesso permanente a arma de fogo e falta de acompanhamento psicológico, cria um ambiente de risco. A PM de MS oferece atendimento psicológico aos policiais, mas o serviço é voluntário e subutilizado. Segundo dados internos da corporação, apenas 12% dos policiais da ativa procuraram o serviço de psicologia em 2025.
Para a filha de 9 anos que presenciou os disparos, o trauma é imensurável. Estudos da Unicef indicam que crianças expostas a violência doméstica com arma de fogo têm três vezes mais chances de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático.
O Que Dizem os Envolvidos
A Polícia Militar de MS informou, por meio de nota, que "a Corregedoria da PM instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos" e que "o policial será afastado das funções até a conclusão da investigação". A corporação não comentou se o cabo tinha histórico de ocorrências disciplinares.
A Polícia Civil informou que a DEAM assumiu a investigação e que o caso foi registrado como tentativa de feminicídio qualificado. "A arma funcional foi apreendida e o inquérito será concluído no prazo legal", disse a delegada responsável.
O Conselho Tutelar confirmou que a criança foi entregue aos avós maternos e que acompanhamento psicológico foi solicitado.
A família da vítima não se manifestou publicamente.
Próximos Passos
O policial, caso sobreviva, responderá por tentativa de feminicídio qualificado (uso de arma de fogo, presença de criança) e tentativa de suicídio não é crime no Brasil. A pena para tentativa de feminicídio qualificado pode chegar a 20 anos de reclusão.
A Corregedoria da PM deve concluir o procedimento administrativo em até 90 dias. As sanções possíveis vão de suspensão a expulsão da corporação.
A DEAM solicitou medida protetiva em favor da vítima, incluindo proibição de aproximação e recolhimento de qualquer outra arma que o policial possua.
O Comando da PM de MS anunciou que vai revisar o protocolo de acompanhamento psicológico de policiais envolvidos em ocorrências de violência doméstica, tornando obrigatória a avaliação periódica para policiais com registro de conflito familiar.
Fechamento
Pistola da corporação. Tiro na esposa. Filha de 9 anos na casa. O Jardim Columbia, bairro onde crianças andam de bicicleta na calçada, virou cena de crime às 18h30 de uma segunda-feira. O policial que deveria proteger usou a arma pra destruir. E a pergunta que ninguém quer responder: quantos PMs com histórico de violência doméstica ainda carregam arma funcional pra casa todo dia? Denúncias de violência doméstica: 190 (PM), 180 (Central da Mulher, 24h, anônimo). Se estiver em risco imediato, saia de casa e ligue agora.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Midiamax (midiamax.com.br)
- PM de Mato Grosso do Sul (pm.ms.gov.br)
- Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br)
- Instituto Sou da Paz (soudapaz.org)
- Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025
💰 Violência doméstica com arma de fogo
Crime
Tentativa de feminicídio
Arma
Pistola funcional da PM
Local
Jardim Columbia, CG
Feminicídios em MS (2026)
11 no 1º trimestre
Fonte: Campo Grande News / Midiamax
❓ Perguntas Frequentes
Um policial militar da ativa disparou contra a própria esposa dentro da residência do casal no bairro Jardim Columbia, em Campo Grande, na noite desta segunda-feira (13). Após atirar na mulher, o PM voltou a arma contra si mesmo. Ambos foram socorridos pelo Samu e encaminhados a hospitais da capital. A mulher foi atingida na região do tórax e passou por cirurgia de emergência. O policial apresentava ferimento na cabeça. A arma utilizada era a pistola funcional da corporação, de uso obrigatório durante o serviço. A Corregedoria da PM instaurou procedimento para apurar as circunstâncias do caso.
Sim. Policiais militares da ativa têm direito ao porte funcional de arma de fogo, que permite o transporte e a posse da arma mesmo fora do horário de serviço. A pistola funcional é fornecida pela corporação e o policial é responsável pela guarda e pelo uso adequado do armamento. No entanto, em casos de envolvimento em ocorrências de violência doméstica, a Justiça pode determinar o recolhimento da arma como medida protetiva. Estudos do Instituto Sou da Paz apontam que a presença de arma de fogo no domicílio aumenta em cinco vezes o risco de feminicídio em situações de violência doméstica.
Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) indicam que aproximadamente 40% dos feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul envolvem arma de fogo. No primeiro trimestre de 2026, foram 11 feminicídios no estado, dos quais pelo menos 4 foram cometidos com arma de fogo. Entre os autores, há casos de policiais militares, policiais civis e vigilantes — profissionais que têm acesso legal a armamento. A Lei Maria da Penha prevê o recolhimento da arma como medida protetiva, mas a aplicação depende de decisão judicial e nem sempre é solicitada pela vítima antes da agressão fatal.
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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