Reconhecimento facial da Expogrande será ampliado em MS com parceria do Google
Sistema testado na 86ª Expogrande deve ser expandido para outros eventos e espaços públicos; governo discute acordo com gigante de tecnologia

As câmeras estavam posicionadas nas entradas da 86ª Expogrande, em Campo Grande. Discretas, quase invisíveis entre os totens de credenciamento. Mas faziam o trabalho pesado: reconhecimento facial em tempo real, cruzando rostos com bancos de dados de procurados pela Justiça. O sistema funcionou. E agora o governo de Mato Grosso do Sul quer mais — está em conversa com o Google para ampliar a tecnologia.
O Que Aconteceu
O sistema de reconhecimento facial foi implantado como reforço de segurança durante a Expogrande, que acontece entre 9 e 20 de abril no Parque de Exposições Laucídio Coelho. A tecnologia usa câmeras com inteligência artificial para identificar rostos e cruzar as imagens com bases de dados policiais.
Segundo reportagem do Campo Grande News publicada na sexta-feira (10), o governo estadual discute uma parceria com o Google para expandir o sistema. A ideia é levar o reconhecimento facial para outros eventos de grande porte, terminais rodoviários, aeroportos e espaços públicos com grande circulação.
Os detalhes do acordo não foram divulgados. Não se sabe se a parceria envolve cessão de tecnologia, investimento financeiro ou apenas consultoria técnica. O que se sabe é que o teste na Expogrande foi considerado bem-sucedido pelas autoridades de segurança.
A Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública) coordenou a operação de segurança do evento, que inclui, além do reconhecimento facial, policiamento ostensivo, câmeras convencionais e controle de acesso.
Contexto e Histórico
O reconhecimento facial já é usado em outros estados brasileiros. São Paulo implantou o sistema no Metrô em 2019. A Bahia usa a tecnologia no Carnaval de Salvador desde 2019, com resultados expressivos: em 2024, o sistema identificou 200 foragidos durante os seis dias de festa.
Em Mato Grosso do Sul, a tecnologia é novidade. A Expogrande foi o primeiro grande evento do estado a contar com o sistema. A escolha não é casual: a feira reúne centenas de milhares de visitantes ao longo de 12 dias, num ambiente que mistura shows, leilões, exposições e negócios.
A operação de segurança da 86ª Expogrande mobiliza cerca de 800 agentes entre Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Guarda Civil Metropolitana e seguranças privados. O Parque de Exposições Laucídio Coelho tem 120 hectares e recebe público estimado em 500 mil pessoas ao longo do evento. Nos anos anteriores, a segurança dependia exclusivamente de policiamento ostensivo e câmeras convencionais. A adição do reconhecimento facial representa um salto tecnológico, mas também um teste de escala: processar milhares de rostos por hora exige infraestrutura de rede, servidores e algoritmos calibrados para operar em ambiente aberto, com variação de iluminação e ângulos.
A parceria com o Google, se confirmada, colocaria MS na vanguarda tecnológica da segurança pública no Brasil. O Google Cloud oferece soluções de visão computacional e inteligência artificial que podem ser integradas a sistemas de segurança existentes.
Mas a tecnologia não é isenta de polêmica. Estudos internacionais, como o do MIT Media Lab publicado em 2018, mostraram que sistemas de reconhecimento facial têm taxas de erro significativamente maiores para pessoas negras e mulheres. No Brasil, onde 56% da população se declara preta ou parda, essa questão é especialmente relevante. A LGPD (Lei 13.709/2018) classifica dados biométricos — incluindo geometria facial — como dados pessoais sensíveis, exigindo consentimento específico ou base legal para tratamento. Na prática, quem entra na Expogrande não assina termo de consentimento para ter o rosto escaneado. O governo argumenta que a base legal é o interesse público em segurança, mas juristas especializados em proteção de dados questionam se essa justificativa resiste a uma ação judicial. "A LGPD não proíbe reconhecimento facial, mas exige transparência. O cidadão precisa saber que está sendo monitorado e ter acesso aos dados coletados", disse a advogada Patrícia Peck, referência em direito digital no Brasil, em entrevista recente sobre o tema.
Em outros estados, o uso da tecnologia já gerou controvérsia. Em São Paulo, a Defensoria Pública questionou o sistema do Metrô em 2019, e a Justiça determinou a suspensão temporária até que fossem apresentadas garantias de proteção de dados. Na Bahia, o sistema do Carnaval identificou 200 foragidos em 2024, mas também gerou 12 abordagens equivocadas — pessoas inocentes confundidas com procurados, segundo relatório da Secretaria de Segurança Pública baiana.
Impacto Para a População
A expansão do reconhecimento facial em MS afeta diretamente a segurança e a privacidade dos cidadãos.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Teste inicial | 86ª Expogrande (9-20/abr) |
| Parceria em discussão | |
| Tecnologia | IA + câmeras de reconhecimento facial |
| Expansão prevista | Eventos, terminais, aeroportos |
| Referência nacional | Bahia (200 foragidos no Carnaval 2024) |
| Legislação | LGPD (dados biométricos) |
| Risco apontado | Erros com pessoas negras (MIT, 2018) |
Para o cidadão que frequenta eventos como a Expogrande, a tecnologia pode significar mais segurança — criminosos procurados identificados antes de entrar. Mas também levanta questões sobre vigilância, privacidade e o uso de dados biométricos sem consentimento explícito.
A Expogrande movimenta cerca de R$ 1,2 bilhão em negócios ao longo dos 12 dias de evento, segundo a Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul. A segurança do público e dos expositores é condição para que esse volume financeiro circule. Nos anos anteriores, a feira registrou ocorrências de furtos, brigas e, em 2024, uma tentativa de homicídio no estacionamento. O reconhecimento facial entra como ferramenta preventiva: identificar foragidos antes que cometam novos crimes dentro do evento. Se o sistema funcionar como na Bahia, onde 200 procurados foram identificados no Carnaval de 2024, a Expogrande pode se tornar referência de segurança em feiras agropecuárias no Brasil.
O Que Dizem os Envolvidos
O governo de MS não divulgou detalhes sobre a parceria com o Google. A Sejusp confirmou o uso de reconhecimento facial na Expogrande, mas não comentou sobre a expansão.
O Google não se manifestou sobre as negociações com o governo de Mato Grosso do Sul.
Próximos Passos
A definição da parceria com o Google deve acontecer nas próximas semanas. Se confirmada, o próximo passo seria a implantação do sistema em outros eventos de grande porte em MS, como a Expoagro de Dourados (maio) e o Festival de Inverno de Bonito (julho).
A regulamentação do uso de reconhecimento facial em espaços públicos no Brasil ainda é incipiente. Projetos de lei tramitam no Congresso, mas nenhum foi aprovado até o momento. A LGPD classifica dados biométricos como dados pessoais sensíveis, exigindo consentimento ou base legal para tratamento. O PL 2338/2023, que regulamenta a inteligência artificial no Brasil, inclui dispositivos sobre reconhecimento facial em espaços públicos e pode estabelecer limites mais claros para o uso da tecnologia por governos estaduais.
Fechamento
Reconhecimento facial na Expogrande, parceria com o Google no horizonte. Mato Grosso do Sul aposta na tecnologia para reforçar a segurança pública. Se a aposta vai dar certo — e a que custo para a privacidade — é uma pergunta que ainda não tem resposta. O que se sabe é que as câmeras já estão ligadas. E os rostos, sendo escaneados.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Sejusp — Secretaria de Justiça e Segurança Pública de MS
- LGPD — Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018)
- MIT Media Lab — Gender Shades Project (2018)
💰 Reconhecimento facial em MS
Teste inicial
86ª Expogrande
Parceria em discussão
Objetivo
Ampliar para outros eventos
Tecnologia
Inteligência artificial
Fonte: Campo Grande News
❓ Perguntas Frequentes
O sistema de reconhecimento facial foi implantado como reforço de segurança na 86ª Expogrande, em Campo Grande. A tecnologia utiliza câmeras com inteligência artificial para identificar rostos em tempo real e cruzar as imagens com bancos de dados de pessoas procuradas pela Justiça. O sistema opera de forma automatizada, alertando as equipes de segurança quando identifica uma correspondência. A tecnologia foi testada durante o evento e, segundo o governo estadual, deve ser ampliada para outros eventos e espaços públicos de Mato Grosso do Sul.
Segundo reportagem do Campo Grande News, o governo de Mato Grosso do Sul está em discussão com o Google para uma parceria na área de reconhecimento facial e inteligência artificial aplicada à segurança pública. Os detalhes do acordo ainda não foram divulgados, mas a expectativa é que a tecnologia testada na Expogrande seja expandida para outros eventos de grande porte, terminais rodoviários, aeroportos e espaços públicos com grande circulação de pessoas. A parceria com uma empresa de tecnologia global indica a ambição do estado em se posicionar como referência em segurança digital.
Sim. O uso de reconhecimento facial em espaços públicos é tema de debate no Brasil e no mundo. Defensores argumentam que a tecnologia ajuda a identificar criminosos procurados e prevenir crimes. Críticos apontam riscos de vigilância em massa, erros de identificação (especialmente com pessoas negras, segundo estudos internacionais), violação de privacidade e uso indevido de dados biométricos. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento de dados pessoais, incluindo dados biométricos, mas a regulamentação específica para reconhecimento facial em espaços públicos ainda é incipiente.
Thiago Oliveira
Repórter
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