Trânsito de MS registra 1 morte a cada 25 horas em 2026, aponta Sejusp
Levantamento da Secretaria de Segurança Pública revela mais de 280 óbitos no primeiro trimestre e motociclistas lideram vítimas fatais

Uma morte a cada 25 horas. O dado da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) sobre o trânsito de Mato Grosso do Sul em 2026 não é estatística — é sentença. São mais de 280 vidas perdidas em rodovias e ruas do estado só no primeiro trimestre. Motociclistas respondem por 4 de cada 10 vítimas fatais.
O Que Aconteceu
O levantamento da Sejusp, divulgado neste sábado (12), compilou dados de ocorrências registradas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal), Polícia Militar, Polícia Civil e Detran-MS entre janeiro e março de 2026. O resultado: 283 óbitos em sinistros de trânsito no estado, uma média de 3,1 mortes por dia.
O número representa aumento de 8% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 262 óbitos. A alta preocupa porque contraria a tendência de estabilização observada entre 2023 e 2025.
Motociclistas lideram as estatísticas com 113 mortes — 40% do total. Ocupantes de veículos de passeio vêm em segundo, com 89 óbitos (31%). Pedestres somam 38 mortes (13%), ciclistas 18 (6%) e ocupantes de caminhões 25 (9%).
As rodovias federais concentram 42% dos óbitos. BR-163 e BR-262 aparecem no topo, com 34 e 23 mortes, respectivamente. Rodovias estaduais respondem por 31%, e vias urbanas por 27%. Campo Grande lidera entre os municípios, com 41 mortes no trimestre.
Contexto e Histórico
Mato Grosso do Sul tem a terceira maior taxa de mortes no trânsito por 100 mil habitantes entre os estados brasileiros, atrás apenas de Tocantins e Piauí. A combinação de rodovias de pista simples, tráfego pesado de caminhões durante a safra e longas distâncias entre cidades cria um ambiente propício para acidentes graves.
A BR-163, principal eixo rodoviário do estado, corta MS de norte a sul ao longo de 845 km. Durante a safra de soja e milho — de fevereiro a julho — o volume de caminhões na rodovia aumenta em até 35%, segundo a concessionária CCR MSVia. Carretas carregadas com 40 toneladas de grãos dividem a pista com motocicletas e veículos de passeio em trechos sem acostamento.
"O problema não é só a rodovia. É o comportamento. Motorista que dirige 14 horas seguidas, motociclista sem capacete, ultrapassagem em curva. A infraestrutura é ruim, mas o fator humano responde por 90% dos acidentes", afirmou o delegado da Polícia Civil responsável pelo Núcleo de Acidentes de Trânsito de Campo Grande.
Em 2025, o governo de MS lançou o programa Vida no Trânsito, com ações educativas em escolas e empresas. O Detran-MS instalou 120 novos radares em trechos críticos de rodovias estaduais. Mas os números de 2026 mostram que as medidas ainda não produziram o efeito esperado.
O empréstimo de US$ 200 milhões do Banco Mundial para o programa Rodar MS, assinado em março, prevê a duplicação de trechos das rodovias MS-040, MS-157 e MS-384. A previsão é que as obras comecem no segundo semestre de 2026, com conclusão em 2029.
O perfil das vítimas revela um padrão sul-mato-grossense: homens entre 18 e 35 anos, condutores de motocicletas de baixa cilindrada — CG 160, Fan 150, Bros 160 — que usam o veículo como ferramenta de trabalho. São entregadores, peões de fazenda que vão da propriedade à cidade, operários que cruzam rodovias estaduais sem acostamento para chegar ao canteiro de obras. Em Campo Grande, o Detran registrou 287 mil motos emplacadas em abril de 2026, contra 412 mil carros — proporção de uma moto para cada 1,4 automóvel. Nas cidades menores do interior, a moto é o veículo principal: em Naviraí, a relação chega a uma moto para cada 0,9 carro. A frota cresce, a infraestrutura não acompanha, e o resultado aparece nos boletins de ocorrência toda manhã.
Impacto Para a População
O trânsito mata mais que a violência urbana em Mato Grosso do Sul. Enquanto os homicídios dolosos somaram 198 no primeiro trimestre de 2026, os sinistros de trânsito tiraram 283 vidas.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Óbitos no 1º trimestre 2026 | 283 |
| Média diária | 3,1 mortes |
| Frequência | 1 morte a cada 25 horas |
| Aumento vs. 2025 | +8% |
| Motociclistas | 113 mortes (40%) |
| Veículos de passeio | 89 mortes (31%) |
| Pedestres | 38 mortes (13%) |
| BR-163 | 34 mortes |
| BR-262 | 23 mortes |
| Campo Grande | 41 mortes |
| Custo estimado (Ipea) | R$ 181 milhões |
Cada morte no trânsito custa ao estado cerca de R$ 640 mil, segundo estimativa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O cálculo inclui despesas hospitalares, previdenciárias, judiciais e perda de produtividade. Com 283 óbitos, o prejuízo econômico do primeiro trimestre ultrapassa R$ 181 milhões.
Para as famílias, o custo é incalculável. Viúvas, órfãos, pais que enterram filhos. A maioria das vítimas tem entre 18 e 35 anos — jovens em idade produtiva, muitos chefes de família. No Hospital Regional de Dourados, o segundo maior do estado, a ala de politraumatismo mantém 14 dos 18 leitos ocupados por vítimas de acidentes rodoviários — cenário que se repete mês após mês desde janeiro.
O Que Dizem os Envolvidos
"Os números são inaceitáveis. Precisamos de uma mudança de cultura, não só de infraestrutura", disse o secretário da Sejusp durante a divulgação do levantamento. Ele anunciou a criação de um grupo de trabalho interinstitucional para elaborar um plano estadual de redução de mortes no trânsito até junho.
A PRF em MS informou que vai intensificar as operações de fiscalização nos trechos mais críticos da BR-163 e BR-262 durante o período de safra. "Vamos aumentar os pontos de fiscalização com etilômetro e radar móvel. Mas precisamos que o motorista faça a parte dele", afirmou o superintendente da PRF em MS.
O Detran-MS anunciou a antecipação da instalação de 80 novos radares em rodovias estaduais, prevista inicialmente para o segundo semestre. Os equipamentos devem estar operando até maio.
Próximos Passos
O grupo de trabalho da Sejusp deve apresentar o plano estadual de redução de mortes no trânsito até junho de 2026. Entre as medidas em estudo estão a ampliação da fiscalização eletrônica, campanhas educativas direcionadas a motociclistas e a criação de faixas exclusivas para motos em trechos urbanos de rodovias.
As obras do programa Rodar MS, financiadas pelo Banco Mundial, devem começar no segundo semestre com a duplicação de trechos da MS-040 e MS-157. A conclusão está prevista para 2029.
A Assembleia Legislativa de MS (ALEMS) analisa projeto de lei que aumenta as multas estaduais para infrações de trânsito em rodovias sob jurisdição do estado. A proposta prevê multa de R$ 5 mil para ultrapassagem proibida em rodovias de pista simples.
Fechamento
Uma morte a cada 25 horas. O número deveria estar estampado em outdoor na entrada de cada rodovia de MS. Não como estatística, mas como aviso. O trânsito sul-mato-grossense mata mais que a criminalidade, e a solução não é só asfalto novo — é comportamento. Denúncias de direção perigosa podem ser feitas pelo 191 (PRF) ou 190 (PM). O Samu atende pelo 192.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Sejusp-MS — Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (sejusp.ms.gov.br)
- PRF — Polícia Rodoviária Federal (gov.br/prf)
- Detran-MS (detran.ms.gov.br)
- Ipea — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (ipea.gov.br)
💰 Trânsito fatal em números
Frequência de mortes
1 a cada 25 horas
Óbitos no 1º trimestre
Mais de 280
Motociclistas entre vítimas
40%
Custo por morte (Ipea)
R$ 640 mil
Fonte: Campo Grande News / Sejusp-MS
❓ Perguntas Frequentes
Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) indicam que mais de 280 pessoas morreram em sinistros de trânsito em Mato Grosso do Sul no primeiro trimestre de 2026. O ritmo equivale a praticamente uma morte a cada 25 horas. O número inclui óbitos em rodovias federais, estaduais e vias urbanas. Motociclistas representam cerca de 40% das vítimas fatais, seguidos por ocupantes de veículos de passeio e pedestres. As rodovias BR-163 e BR-262 concentram o maior número de acidentes graves no estado.
Segundo a PRF e o Detran-MS, as três principais causas de acidentes fatais em Mato Grosso do Sul são excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas e embriaguez ao volante. O excesso de velocidade está presente em cerca de 35% dos sinistros com mortes. Ultrapassagens em locais proibidos, especialmente em rodovias de pista simples, respondem por 22% dos casos. A embriaguez ao volante, apesar das campanhas e da fiscalização com etilômetro, ainda aparece em 15% dos acidentes fatais. Distração ao volante — uso de celular, sono — é um fator crescente, mas difícil de mensurar nos laudos periciais.
O governo de Mato Grosso do Sul assinou em março de 2026 um empréstimo de US$ 200 milhões com o Banco Mundial para o programa Rodar MS, que prevê a recuperação e duplicação de rodovias estaduais. O Detran-MS também ampliou a fiscalização eletrônica com instalação de novos radares em trechos críticos. A Sejusp coordena o programa Vida no Trânsito, com ações educativas em escolas e empresas. A PRF mantém operações especiais em feriados e períodos de safra, quando o tráfego de caminhões aumenta nas rodovias federais. Apesar dessas iniciativas, os números de 2026 mostram que as mortes continuam em patamar elevado.
Roberto Almeida
Repórter
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