Energia solar ou hidrelétrica: o dilema energético de Mato Grosso do Sul
Estado vive transição na matriz energética com avanço de usinas solares e debate sobre impacto ambiental das hidrelétricas no Pantanal
Artigo de Opinião
Este texto expressa a opinião do autor e não reflete necessariamente a posição editorial do Foco do Estado. O portal publica artigos de opinião como contribuição ao debate público e ao pluralismo de ideias.

Painéis solares no telhado de uma fazenda em Maracaju. Uma hidrelétrica no rio Miranda que altera o ciclo de cheias do Pantanal. Duas realidades que convivem em Mato Grosso do Sul e que resumem um dilema que o estado precisa resolver: como crescer na geração de energia sem destruir o bioma que é patrimônio mundial.
O Que Aconteceu
Mato Grosso do Sul ultrapassou a marca de 120 mil unidades de geração distribuída solar fotovoltaica em 2026, segundo dados da Aneel. A capacidade instalada no estado já supera 2,8 GW — energia suficiente para abastecer mais de 1,4 milhão de residências. O crescimento foi de 34% em relação a 2025, impulsionado por incentivos fiscais e pela queda no preço dos painéis.
Na outra ponta, as 12 hidrelétricas em operação no estado continuam sendo a espinha dorsal da matriz energética. Mas o custo ambiental é cada vez mais questionado. Pesquisadores da UFMS e da Embrapa Pantanal publicaram em março de 2026 um estudo que associa a operação de barragens nos rios Taquari e Miranda à redução de 23% na população de peixes migratórios na última década.
O debate ganhou força após o governo de MS anunciar, em fevereiro, a meta de alcançar 90% de energia limpa na matriz estadual até 2030. A pergunta que ninguém responde com clareza: limpa como? Solar sem impacto visual no cerrado? Hidrelétrica que seca o Pantanal?
Contexto e Histórico
A relação de Mato Grosso do Sul com a energia hidrelétrica é antiga. A usina de Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta), no rio Paraná, é uma das maiores do país, com capacidade de 1.540 MW. Outras usinas menores operam nos rios Sucuriú, Verde, Pardo e Ivinhema, formando uma rede que garante abastecimento mas fragmenta ecossistemas.
O Pantanal, que depende do pulso natural de inundação para manter sua biodiversidade, é o mais afetado. O rio Taquari, que já sofre com assoreamento crônico, tem seu fluxo alterado por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) instaladas na cabeceira. O resultado: áreas que antes alagavam naturalmente ficam secas, e áreas que eram secas ficam permanentemente inundadas.
A energia solar surgiu como alternativa nos últimos cinco anos. O cerrado sul-mato-grossense recebe uma das maiores incidências solares do Brasil — média de 5,5 kWh/m² por dia, segundo o Atlas Solarimétrico do Inpe. Fazendas que antes dependiam exclusivamente de diesel para irrigação agora operam com painéis fotovoltaicos. Indústrias em Três Lagoas e Dourados instalaram usinas solares nos telhados.
O governo estadual oferece isenção de ICMS para equipamentos de energia solar desde 2019. O programa MS Solar, lançado em 2024, financiou a instalação de painéis em 8.500 residências de baixa renda, reduzindo a conta de luz em até 70% para famílias que gastavam mais de R$ 200 por mês.
Mas a solar também tem seus problemas. Grandes usinas fotovoltaicas de solo ocupam áreas extensas de cerrado — bioma que já perdeu 48% de sua cobertura original em MS. A instalação de painéis em áreas de pastagem degradada é considerada menos impactante, mas nem sempre é o que acontece.
Impacto Para a População
A transição energética afeta diretamente o bolso e o meio ambiente do sul-mato-grossense.
| Aspecto | Hidrelétrica | Solar |
|---|---|---|
| Capacidade em MS | ~3,2 GW | 2,8 GW |
| Geração | Contínua (24h) | Diurna (6-8h pico) |
| Custo de instalação | Alto (barragens) | Médio (painéis) |
| Impacto ambiental | Alteração de rios, peixes | Ocupação de solo |
| Emprego gerado | Poucos (operação) | Muitos (instalação) |
| Vida útil | 50-100 anos | 25-30 anos |
| Conta de luz | Tarifa regulada | Redução de até 70% |
Para o produtor rural, a solar é vantagem imediata. Um sistema de 10 kWp custa cerca de R$ 45 mil e se paga em 4 a 5 anos com a economia na conta de luz. Para o pescador do Pantanal, a hidrelétrica é ameaça direta ao sustento — menos peixe no rio significa menos renda.
A população urbana sente o impacto de forma indireta. A diversificação da matriz energética reduz o risco de apagões em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas baixam. Em 2024, MS enfrentou racionamento parcial em três municípios do interior por causa da estiagem prolongada.
O Que Dizem os Envolvidos
"A gente não pode escolher entre energia e Pantanal. Precisa dos dois", disse o professor Arnildo Pott, pesquisador da Embrapa Pantanal, em entrevista recente. "O que falta é planejamento. Não dá pra colocar PCH em todo rio que aparece."
Do lado do setor elétrico, a visão é diferente. "As hidrelétricas são a base do sistema. Sem elas, não tem estabilidade na rede", afirmou um representante da Energisa MS, distribuidora que atende o estado. "A solar complementa, mas não substitui."
O secretário de Meio Ambiente de MS, Jaime Verruck, defendeu a meta de 90% de energia limpa. "Mato Grosso do Sul tem condições de ser referência nacional em transição energética. Temos sol, temos água, temos vontade política. O desafio é equilibrar."
Produtores rurais que adotaram a solar são os mais entusiastas. "Minha conta de luz era R$ 3.800 por mês. Agora pago R$ 180", contou um pecuarista de Maracaju que instalou painéis em 2024. "Não volto atrás."
Próximos Passos
O governo de MS deve apresentar até junho de 2026 o Plano Estadual de Transição Energética, documento que vai definir metas, prazos e investimentos para a diversificação da matriz. O plano deve incluir incentivos para armazenamento de energia (baterias), regulamentação de usinas solares de grande porte e revisão das concessões de PCHs nos rios do Pantanal.
A Aneel tem previsão de leiloar novas concessões de geração solar no Centro-Oeste no segundo semestre de 2026. MS deve receber pelo menos 3 projetos de usinas fotovoltaicas de grande porte, com capacidade combinada de 500 MW.
No Congresso, tramita projeto de lei que proíbe novas hidrelétricas na bacia do Alto Paraguai — área que alimenta o Pantanal. O projeto tem apoio de ambientalistas e de parte da bancada de MS, mas enfrenta resistência do setor elétrico.
Fechamento
Sol ou água. Painel ou barragem. O dilema energético de Mato Grosso do Sul não tem resposta simples. O que tem é urgência. Cada PCH nova no rio Miranda é um pedaço do Pantanal que não volta. Cada fazenda com painel solar é uma conta de luz que cai. O estado precisa decidir — e rápido — qual caminho vai seguir. Ou melhor: como percorrer os dois sem destruir nenhum.
Este artigo expressa a opinião do autor e não necessariamente reflete a posição editorial do Foco do Estado.
Fontes e Referências
- Aneel — Agência Nacional de Energia Elétrica (aneel.gov.br)
- EPE — Empresa de Pesquisa Energética
- Embrapa Pantanal
- UFMS — Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
- Governo de MS — Secretaria de Meio Ambiente
- Atlas Solarimétrico do Inpe
💰 Energia em MS
Usinas solares em MS
Mais de 120 mil
Capacidade solar instalada
2,8 GW
Hidrelétricas no estado
12 em operação
Meta de energia limpa
90% até 2030
Fonte: Aneel / EPE / Governo de MS
❓ Perguntas Frequentes
Mato Grosso do Sul ocupa posição de destaque na geração de energia solar no Brasil. O estado possui mais de 120 mil unidades de geração distribuída solar fotovoltaica, com capacidade instalada superior a 2,8 GW, segundo dados da Aneel. A combinação de alta incidência solar — média de 5,5 kWh/m² por dia — com incentivos fiscais estaduais e federais impulsionou a expansão do setor nos últimos anos. O estado é um dos que mais crescem em energia solar no Centro-Oeste, atrás apenas de Minas Gerais e São Paulo em números absolutos.
As hidrelétricas instaladas nos rios que alimentam o Pantanal geram preocupação ambiental por alterarem o regime natural de cheias e secas que sustenta o bioma. A construção de barragens nos rios Taquari, Miranda e Aquidauana modifica o fluxo de água, afeta a reprodução de peixes, altera a dinâmica de sedimentos e pode contribuir para o assoreamento de rios. Ambientalistas e pesquisadores da UFMS e da Embrapa Pantanal alertam que novas hidrelétricas na bacia do Alto Paraguai podem comprometer irreversivelmente o equilíbrio ecológico do maior sistema de áreas úmidas do planeta.
A substituição completa das hidrelétricas por energia solar ainda não é viável no curto prazo, mas a complementaridade entre as duas fontes é considerada a melhor estratégia. A energia solar tem limitação de geração noturna e em dias nublados, enquanto as hidrelétricas oferecem geração contínua e capacidade de armazenamento via reservatórios. A solução apontada por especialistas é investir em sistemas de armazenamento de energia (baterias) e em usinas solares de grande porte que complementem a geração hidrelétrica, reduzindo a pressão sobre os rios do Pantanal.
Roberto Almeida
Repórter
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