Vinte e uma mil fotografias. Quarenta e duas câmeras escondidas no mato. Seis meses de monitoramento. O resultado: 48 espécies de mamíferos e aves registradas em áreas do Pantanal que haviam sido devastadas por incêndios. A pesquisa da UFMS e do ICMBio mostra que a fauna pantaneira volta mais rápido do que se imaginava — mas com ressalvas.
O Que Aconteceu
Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) divulgaram nesta semana os resultados de um estudo de monitoramento da fauna em áreas do Pantanal atingidas por queimadas em 2024 e 2025.
O trabalho usou 42 armadilhas fotográficas (camera traps) instaladas em 12 pontos de monitoramento nos municípios de Corumbá, Miranda e Aquidauana. As câmeras ficaram ativas entre outubro de 2025 e março de 2026, captando imagens 24 horas por dia.
Das 21.347 imagens analisadas, 14.892 continham registros de fauna — o restante era vegetação movida pelo vento ou falsos disparos. Os pesquisadores identificaram 48 espécies, incluindo onça-pintada, tamanduá-bandeira, arara-azul, cervo-do-pantanal, anta, quati, tatu-canastra e lobo-guará.
O dado que mais chamou atenção: em 9 dos 12 pontos monitorados, a presença de fauna foi detectada em menos de quatro meses após o incêndio. Em dois pontos, onças-pintadas foram fotografadas apenas 47 dias depois das chamas.
"A gente esperava encontrar fauna, mas não tão rápido e não com tanta diversidade. O Pantanal tem uma capacidade de recuperação que surpreende até quem estuda o bioma há décadas", disse a coordenadora do projeto, professora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFMS.
Contexto e Histórico
O Pantanal viveu seus piores anos de queimadas em 2020 e 2024. Em 2020, 4,1 milhões de hectares foram queimados — 26% de toda a área do bioma. Em 2024, o cenário se repetiu com 3,8 milhões de hectares atingidos, impulsionado pela seca extrema e pela umidade relativa do ar que chegou a 8% em algumas regiões.
As imagens de animais carbonizados — jacarés, cobras, capivaras — rodaram o mundo e criaram a percepção de que o Pantanal estava "morto". A pesquisa da UFMS não nega a mortandade. Estima-se que 17 milhões de vertebrados morreram nas queimadas de 2024, segundo cálculo do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Mas o estudo mostra o outro lado: a capacidade de recolonização.
O segredo está na água. O Pantanal é uma planície alagável. Mesmo durante os incêndios mais severos, áreas próximas a rios, corixos e baías permanecem úmidas e funcionam como refúgio. Quando a chuva volta — geralmente entre outubro e dezembro — a vegetação rebrota em semanas. E com ela, os animais retornam.
"O fogo no Pantanal não é novidade. O bioma evoluiu com queimadas naturais. O problema é a frequência e a intensidade dos incêndios recentes, que são agravados pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento nas cabeceiras dos rios", explicou um pesquisador do ICMBio que participou do estudo.
Impacto Para a População
A pesquisa tem implicações diretas para as políticas de conservação e para o turismo ecológico, que movimenta a economia do Pantanal.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Imagens captadas | 21.347 |
| Imagens com fauna | 14.892 (70%) |
| Espécies identificadas | 48 (mamíferos e aves) |
| Pontos de monitoramento | 12 |
| Câmeras instaladas | 42 |
| Tempo de reocupação | Menos de 6 meses |
| Registro mais rápido | Onça-pintada em 47 dias |
| Hectares queimados em 2024 | 3,8 milhões |
| Vertebrados mortos (estimativa 2024) | 17 milhões |
O turismo ecológico no Pantanal de MS gera cerca de R$ 280 milhões por ano e emprega 4.200 pessoas diretamente, segundo a Fundação de Turismo de MS. A percepção de que o bioma está "destruído" afeta a demanda. A pesquisa pode ajudar a reconstruir a imagem do Pantanal como destino de ecoturismo, mostrando que a fauna está presente e ativa.
Para as comunidades ribeirinhas e pantaneiras que vivem da pesca e do turismo, a presença de fauna é indicador direto de saúde econômica. Sem onça, sem arara, sem jacaré, o turista não vem. E sem turista, a renda dessas comunidades — que já é baixa, com média de R$ 1.400 por família — despenca. A pesquisa da UFMS oferece um argumento científico para que operadores de turismo retomem a divulgação do Pantanal como destino de observação de fauna.
O estudo também tem implicações para a política de prevenção de incêndios. Se a fauna se recupera mais rápido em áreas próximas a refúgios úmidos, a prioridade deve ser proteger esses refúgios — rios, corixos, baías — do desmatamento e do assoreamento. A perda de áreas úmidas reduz a capacidade de recuperação do bioma e pode transformar queimadas sazonais em catástrofes permanentes.
O Que Dizem os Envolvidos
A coordenadora do projeto alertou que os resultados não devem ser usados para minimizar o impacto das queimadas. "Resiliência não é invulnerabilidade. O Pantanal se recupera, mas cada incêndio cobra um preço. Espécies de menor mobilidade — répteis, anfíbios, invertebrados — sofrem perdas que podem levar anos para se recompor", afirmou.
O ICMBio informou que os dados do estudo serão incorporados ao Plano de Ação Nacional para Conservação do Pantanal, em revisão prevista para o segundo semestre de 2026.
O governo de MS, por meio da Semagro (Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico), classificou o estudo como "evidência científica de que as políticas de prevenção e combate a incêndios estão no caminho certo". Ambientalistas contestaram, lembrando que o orçamento estadual para prevenção de incêndios foi cortado em 18% entre 2024 e 2026.
Próximos Passos
A equipe da UFMS vai expandir o monitoramento para 24 pontos no segundo semestre de 2026, incluindo áreas do Pantanal norte (região de Cáceres, em Mato Grosso) para comparação. O projeto recebeu financiamento de R$ 1,2 milhão do CNPq e da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de MS).
Os pesquisadores também vão usar inteligência artificial para automatizar a identificação de espécies nas imagens, reduzindo o tempo de análise de seis meses para três semanas.
O Corpo de Bombeiros de MS já iniciou a Operação Pantanal 2026, com mobilização preventiva para o período de seca que começa em maio. A previsão é de que 350 bombeiros atuem na região entre maio e outubro.
Fechamento
Vinte e uma mil fotos contam uma história de resistência. O Pantanal queima, perde milhões de animais, vira cinza. E rebrota. As onças voltam em 47 dias. Os tamanduás, as araras, os cervos — todos voltam. Mas voltam para um bioma cada vez mais pressionado. O estudo da UFMS é uma boa notícia com asterisco: a fauna se recupera, desde que haja para onde fugir durante o fogo. Se o desmatamento nas cabeceiras continuar e os refúgios úmidos secarem, a próxima queimada pode ser a que não tem volta. O estudo completo será publicado na revista científica Biological Conservation e estará disponível no repositório da UFMS.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- UFMS — Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
- ICMBio — Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
- IPÊ — Instituto de Pesquisas Ecológicas
- Fundação de Turismo de MS
- Semagro — Secretaria de Meio Ambiente de MS
