No meio do Pantanal, uma escola que funciona. Uma unidade municipal de Corumbá foi reconhecida pelo MEC (Ministério da Educação) como uma das melhores do país em programa de avaliação de qualidade educacional. Os critérios: alfabetização na idade certa e alunos que não desistem. Parece básico. Em Corumbá, é excepcional.
O Que Aconteceu
O MEC divulgou nesta segunda-feira (13) a lista de escolas selecionadas em programa nacional de reconhecimento de boas práticas educacionais. Uma escola municipal de Corumbá — que atende cerca de 450 alunos do ensino fundamental — está entre as selecionadas, sendo a única de Mato Grosso do Sul na lista.
Os critérios de seleção incluem desempenho acima da média nacional em avaliações de alfabetização (Saeb), taxa de aprovação superior a 95%, índice de evasão inferior a 2% e implementação de práticas pedagógicas inovadoras documentadas.
A escola de Corumbá se destacou em dois indicadores: 92% dos alunos do 2º ano estão alfabetizados na idade certa (a média nacional é 68%) e a taxa de evasão é de apenas 0,8% — uma das mais baixas do país para escolas municipais.
"Não tem segredo. Tem trabalho. A gente conhece cada aluno pelo nome, sabe quem tá faltando, vai atrás. Se o menino não veio, a professora liga pra mãe. Se a mãe não atende, a gente vai na casa", disse a diretora da escola ao Campo Grande News.
A unidade receberá selo de qualidade do MEC e recursos adicionais de R$ 150 mil para investimento em infraestrutura e formação continuada de professores.
Contexto e Histórico
Corumbá tem 112 mil habitantes e está localizada no extremo oeste de MS, às margens do Rio Paraguai. A cidade é porta de entrada do Pantanal e enfrenta desafios educacionais típicos de municípios ribeirinhos: distâncias longas, transporte precário, rotatividade de professores e conectividade limitada.
A rede municipal de educação de Corumbá tem 42 escolas que atendem 18 mil alunos. Dessas, 8 ficam em áreas rurais ou ribeirinhas, onde o acesso depende de estradas de terra ou embarcações. Durante o período de cheias do Rio Paraguai (dezembro a março), comunidades ribeirinhas ficam isoladas e alunos podem perder semanas de aula.
O Ideb de Corumbá nos anos iniciais do ensino fundamental é de 5,2 — abaixo da média estadual de 5,8 e da meta do MEC de 6,0. A escola reconhecida, no entanto, tem Ideb de 6,7 — acima da média nacional e da meta. O contraste mostra que o problema não é falta de capacidade, mas falta de condições iguais para todas as escolas.
"Essa escola tem diretora há 12 anos, equipe estável, projeto pedagógico consolidado. As outras trocam de diretor a cada eleição, perdem professores pro concurso de Campo Grande, não têm continuidade. O resultado aparece onde tem estabilidade", analisou a secretária municipal de Educação.
A rotatividade de professores é um dos maiores desafios. Corumbá fica a 420 quilômetros de Campo Grande, e muitos professores aprovados em concurso pedem transferência para a capital após poucos anos. Em 2025, 23% dos professores da rede municipal pediram remoção — taxa três vezes maior que a média estadual.
O reconhecimento do MEC é raro para escolas de municípios pequenos e distantes dos grandes centros. A maioria das escolas selecionadas em programas de qualidade está em capitais ou cidades de médio porte com mais recursos. Corumbá quebra esse padrão.
A escola reconhecida implementou práticas como tutoria entre alunos (alunos mais velhos ajudam os mais novos na leitura), horta escolar (que integra ciências, matemática e alimentação) e visitas domiciliares para combater a evasão. "Quando o aluno falta três dias seguidos, a gente vai na casa. Não espera virar estatística", reforçou a diretora.
O investimento por aluno na rede municipal de Corumbá é de R$ 7.200 por ano — valor 14% inferior à média das capitais brasileiras. A escola reconhecida opera com o mesmo orçamento das demais unidades; a diferença está na gestão. A diretora implantou sistema de acompanhamento mensal de frequência e desempenho que identifica alunos em risco de evasão antes que a situação se agrave. Em 2025, das 12 crianças sinalizadas pelo sistema, 11 permaneceram na escola após intervenção da equipe pedagógica junto às famílias.
O clima pantaneiro impõe desafios que escolas de outras regiões desconhecem. Entre dezembro e março, quando a temperatura ultrapassa 40 °C e a umidade transforma as salas de aula em estufas, o rendimento dos alunos cai visivelmente. A escola contornou o problema reorganizando o calendário: as avaliações mais importantes foram deslocadas para os meses de maio a setembro, quando o ar seco e as temperaturas amenas do inverno corumbaense — que raramente descem abaixo de 15 °C — favorecem a concentração. No pátio da escola, um pé de bocaiúva plantado pelos alunos em 2018 já dá sombra suficiente para abrigar a roda de leitura das turmas de 2º ano.
Impacto Para a População
O reconhecimento coloca Corumbá no mapa da educação de qualidade e pode inspirar outras escolas do estado.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Escola | Municipal, Corumbá |
| Alunos | ~450 |
| Alfabetização na idade certa | 92% (média nacional: 68%) |
| Evasão | 0,8% |
| Ideb da escola | 6,7 |
| Ideb de Corumbá | 5,2 |
| Meta MEC | 6,0 |
| Recurso adicional | R$ 150 mil |
| Escolas municipais em Corumbá | 42 |
| Rotatividade de professores | 23% pedem remoção/ano |
Para os alunos da escola, o reconhecimento é motivo de orgulho. Para os professores, é validação de anos de trabalho em condições difíceis. Para Corumbá, é prova de que educação de qualidade é possível mesmo longe da capital.
Para as outras 41 escolas municipais de Corumbá, o desafio é replicar as práticas que funcionam — estabilidade da equipe, acompanhamento individualizado, combate ativo à evasão.
O Que Dizem os Envolvidos
A diretora da escola disse: "A gente não faz nada extraordinário. Faz o básico bem feito. Conhece o aluno, acompanha, não desiste. O problema é que o básico virou exceção."
A secretária municipal de Educação comemorou: "É a primeira vez que uma escola de Corumbá recebe reconhecimento nacional. Mostra que estamos no caminho certo."
O MEC informou que "o programa reconhece escolas que demonstram resultados consistentes em contextos desafiadores" e que "os recursos adicionais devem ser usados para formação de professores e melhoria de infraestrutura".
Próximos Passos
A escola receberá os R$ 150 mil do MEC até junho de 2026. A diretora planeja investir em laboratório de informática (a escola não tem) e em formação continuada para os 28 professores.
A Secretaria Municipal de Educação vai promover intercâmbio entre a escola reconhecida e as demais unidades da rede, para compartilhar práticas pedagógicas.
O governo de MS anunciou que vai incluir a escola de Corumbá no programa estadual de escolas-modelo, com acompanhamento técnico da SED-MS.
Fechamento
Uma escola no Pantanal. Quatrocentos e cinquenta alunos. Noventa e dois por cento alfabetizados na idade certa. Evasão de 0,8%. Sem laboratório de informática, sem ar-condicionado em todas as salas, sem internet de alta velocidade. Mas com diretora há 12 anos, professores que vão na casa do aluno que falta e tutoria entre colegas. O MEC reconheceu. O básico bem feito, em Corumbá, virou exceção nacional. Informações sobre educação em Corumbá: Secretaria Municipal de Educação (67) 3234-3060.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- MEC — Ministério da Educação (mec.gov.br)
- Secretaria Municipal de Educação de Corumbá
- Inep — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (inep.gov.br)
