O primeiro relatório oficial da intervenção administrativa no Consórcio Guaicurus, apresentado à Câmara Municipal de Campo Grande, revelou uma profunda crise financeira e operacional no sistema de transporte coletivo da capital. O documento contábil e operacional detalha um endividamento acumulado de cerca de R$ 20 milhões por parte das empresas concessionárias, além de uma situação crítica na frota: aproximadamente 190 ônibus em circulação diária estão vencidos pela idade contratual máxima permitida, operando com mais de 10 anos de uso pelas ruas de Campo Grande. O diagnóstico acende o sinal de alerta sobre a necessidade de renovação emergencial de frota e renegociação contratual para evitar a paralisação do serviço.
O Que Aconteceu
Na reunião da Comissão de Transporte e Trânsito da Câmara Municipal de Campo Grande, o interventor administrativo nomeado pelo município apresentou o relatório inicial de auditoria das contas e operações do Consórcio Guaicurus (grupo de empresas privadas concessionárias do transporte público local).
O relatório fiscal mapeou que a operadora acumulou dívidas tributárias, previdenciárias e com fornecedores privados (principalmente distribuidoras de óleo diesel e autopeças) que somam R$ 20,4 milhões. Essa insolvência financeira tem impedido o consórcio de realizar os investimentos mínimos obrigatórios em manutenção preventiva e modernização de frota.
A auditoria física das garagens apontou que o tempo de uso médio dos ônibus da capital superou o teto estipulado em contrato. Atualmente, dos cerca de 400 veículos registrados no sistema, 190 ônibus operam com mais de uma década de serviço, contrariando a regra contratual que exige idade média de frota de até cinco anos e idade máxima individual de sete anos para veículos convencionais. A apresentação do relatório na Câmara gerou duras críticas por parte dos vereadores governistas e da oposição sobre a fiscalização deficiente exercida pelo município nos últimos anos.
Contexto e Histórico
O Consórcio Guaicurus assinou o contrato de concessão do transporte público coletivo de Campo Grande em 2012, com vigência estabelecida por 20 anos. O contrato previa o monopólio da operação das linhas urbanas em troca do compromisso das empresas em manter a frota atualizada, construir novos abrigos e terminais e prestar serviço de alta qualidade técnica e de pontualidade.
No entanto, nos últimos sete anos, o sistema de transporte coletivo de Campo Grande entrou em declínio acentuado. Os usuários passaram a reclamar diariamente da falta de ônibus nas linhas troncais, veículos sem ar-condicionado operando sob temperaturas extremas, vazamentos e quebras mecânicas no meio de trajetos e atrasos crônicos. O consórcio alegava desequilíbrio econômico-financeiro gerado pela proliferação de aplicativos de transporte de passageiros e a defasagem no valor da tarifa técnica subsidiada pela prefeitura.
Diante do impasse e de sucessivas ameaças de greve de motoristas por atrasos nos salários, a prefeitura decretou a intervenção administrativa temporária no início de 2026, afastando a diretoria do consórcio e nomeando um gestor público para gerenciar as finanças e operações, culminando no relatório técnico apresentado na Câmara Municipal.
Impacto Para a População
A precariedade do transporte público atinge diretamente os cerca de 120 mil usuários diários que dependem do ônibus para se deslocar ao trabalho e escolas em Campo Grande. A presença de 190 ônibus sucateados eleva o tempo de espera nos pontos, uma vez que as quebras de veículos no meio do trajeto forçam a retirada temporária de linhas de circulação.
A tabela a seguir apresenta os principais dados revelados pela auditoria física e financeira e as principais metas de reparação do sistema propostas pela intervenção municipal:
| Indicador Crítico do Transporte | Situação Atual (Intervenção) | Meta Proposta pela Auditoria | Impacto Direto ao Passageiro |
|---|---|---|---|
| Dívida Acumulada Concessionária | R$ 20,4 milhões | Saneamento em 12 meses | Regularidade de pagamento a fornecedores |
| Frota com Mais de 10 Anos | 190 ônibus (47,5%) | Substituição por 80 novos carros | Redução de quebras mecânicas na rua |
| Idade Média da Frota | 7,8 anos | Redução para 4,8 anos | Maior conforto com ar-condicionado |
| Indicações de Tapa-Buraco/Trajeto | 8.900 pontos críticos | Reparo nas rotas de ônibus | Viagens mais seguras e rápidas |
Para o trabalhador das regiões periféricas, a regularização do sistema representa a garantia de pontualidade no trabalho e menor cansaço físico diário, uma vez que a menor quantidade de quebras de ônibus reduz as aglomerações extremas nos terminais e veículos.
O Que Dizem os Envolvidos
Os vereadores da Comissão de Transporte e Trânsito manifestaram revolta com o quadro financeiro e de frota apresentado no relatório. "O Consórcio Guaicurus faturou milhões de reais nos últimos 14 anos e deixou o sistema sucatear a esse nível crítico. O relatório comprova que a concessão faliu e que o município precisa avaliar a caducidade do contrato para licitar novas empresas", afirmou o presidente da comissão da Câmara.
O interventor municipal defendeu que a prioridade absoluta da gestão temporária é restabelecer a segurança dos passageiros. "A frota atual representa um risco. Estamos negociando com bancos públicos uma linha de crédito emergencial atrelada a repasses futuros de subsídio tarifário para adquirir pelo menos 80 ônibus novos nas próximas semanas e retirar de circulação os carros com mais de 10 anos", apontou.
O sindicato das empresas operadoras de transporte (que representa o Consórcio Guaicurus) contestou judicialmente o decreto de intervenção e os dados do relatório, afirmando que o rombo de R$ 20 milhões e o sucateamento da frota decorrem do calote histórico do governo municipal e estadual no pagamento das gratuidades de estudantes e idosos e na fixação de tarifas técnicas abaixo dos custos operacionais reais nos últimos anos.
Próximos Passos
A Câmara Municipal encaminhará o relatório de intervenção ao Ministério Público Estadual (MPMS) e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS) para apuração de responsabilidades administrativas dos gestores anteriores das empresas e fiscalizadores do município.
O interventor apresentará em até 30 dias um Plano de Recuperação Operacional Emergencial detalhando as fontes de financiamento para compra de novos ônibus e o cronograma físico de substituição dos 190 veículos sucateados.
O Poder Judiciário de MS deve julgar o mérito da ação movida pelo Consórcio Guaicurus contra a legalidade do decreto de intervenção municipal nas próximas semanas, decisão que definirá se o controle operacional do transporte permanecerá nas mãos do interventor público ou retornará aos antigos diretores do grupo empresarial.
Fechamento
O primeiro relatório de intervenção no Consórcio Guaicurus expôs de forma crua as graves falhas estruturais e econômicas que paralisam o transporte coletivo de Campo Grande. A solução desse rombo de R$ 20 milhões e a renovação dos 190 ônibus sucateados são passos urgentes para devolver a dignidade e a segurança ao trabalhador sul-mato-grossense. O portal Foco do Estado manterá a cobertura atenta sobre as negociações de compra de nova frota e as decisões da Câmara Municipal sobre a concessão pública. Para enviar sugestões, reclamações de linhas ou denunciar a precariedade de veículos, o leitor de Campo Grande pode utilizar os canais oficiais da Agereg ou falar diretamente com a ouvidoria da Câmara.
Fontes e Referências
- Câmara Municipal de Campo Grande - Comissão Permanente de Transporte e Trânsito - Relatório de Intervenção do Transporte Coletivo (Julho/2026).
- Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Campo Grande (Agereg) - Caderno de Encargos do Transporte.
- Tribunal de Justiça de MS - Autos do Mandado de Segurança contra Intervenção Coletiva.
- Consórcio Guaicurus de Transporte Coletivo - Relatórios Financeiros e Manifestação Oficial de Defesa.
