Chikungunya já matou 10 pessoas em MS em 2026 e Dourados concentra 6 óbitos
SES-MS confirma duas novas mortes por chikungunya e estado lidera incidência nacional com mais de 4 mil casos confirmados

Dez mortes. Quatro mil casos confirmados. Trinta e sete gestantes infectadas. Os números da chikungunya em Mato Grosso do Sul em 2026 não param de subir, e Dourados virou o epicentro de uma crise sanitária que o estado não via desde os piores anos da dengue. A SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde) confirmou nesta sexta-feira (11) mais dois óbitos, elevando o total para 10 mortes no ano.
O Que Aconteceu
A Secretaria de Estado de Saúde divulgou o boletim epidemiológico atualizado com a confirmação de duas novas mortes por chikungunya. As vítimas — um homem de 72 anos com diabetes e uma mulher de 58 anos com hipertensão — estavam internadas em hospitais de Dourados. Ambas desenvolveram a forma grave da doença, com comprometimento renal e cardíaco.
Dos 10 óbitos registrados em 2026, seis ocorreram em Dourados. Os outros quatro se distribuem entre Itaporã, Naviraí, Maracaju e Ponta Porã. A concentração na região da Grande Dourados não é coincidência: o município registrou 558 novos casos notificados em um único dia na semana passada, um recorde que assustou até os epidemiologistas mais experientes da SES-MS.
O número total de casos confirmados no estado ultrapassou 4.200 até o fechamento deste boletim. Dourados responde por quase metade — cerca de 1.900 casos. A taxa de incidência no município chegou a 850 casos por 100 mil habitantes, mais de quatro vezes acima do limiar epidêmico definido pelo Ministério da Saúde.
Contexto e Histórico
A chikungunya não é novidade em MS. O estado registrou surtos em 2017 e 2023, mas nenhum com a letalidade observada em 2026. Em todo o ano de 2025, foram 3 óbitos no estado. Em pouco mais de três meses de 2026, o número já triplicou.
O que mudou? Especialistas apontam três fatores. Primeiro, a circulação de uma linhagem do vírus com maior virulência — o genótipo ECSA (East/Central/South African), que produz quadros mais graves do que o genótipo asiático que predominava nos surtos anteriores. Segundo, o acúmulo de chuvas acima da média em fevereiro e março, que multiplicou os criadouros do Aedes aegypti. Terceiro, a baixa imunidade da população: como a chikungunya não circulava com força em MS desde 2023, grande parte dos moradores não tem anticorpos contra o vírus.
"A gente tá vendo um cenário que não esperava pra 2026. O genótipo ECSA é mais agressivo, e a população de Dourados não tinha imunidade coletiva", explicou a epidemiologista da SES-MS durante coletiva na quinta-feira (10).
O calor úmido que domina a região da Grande Dourados entre fevereiro e abril — com temperaturas acima de 35 °C e umidade relativa perto de 80% — cria o ambiente perfeito para o Aedes. Dados do Inmet mostram que março de 2026 registrou 287 mm de chuva em Dourados, contra a média histórica de 172 mm. Poças se formam em terrenos baldios, lajes descobertas e até nos pratos de vasos que enfeitam as calçadas do centro comercial da cidade. A Vigilância Ambiental calcula que o índice de infestação predial atingiu 4,2% — quatro vezes o limite tolerável de 1%.
No cenário nacional, Mato Grosso do Sul lidera a incidência de chikungunya entre os estados brasileiros. O Ministério da Saúde reconheceu a situação de emergência em Dourados no final de março e prometeu envio de vacinas e equipes de apoio.
Impacto Para a População
A epidemia de chikungunya afeta diretamente a rotina de milhares de sul-mato-grossenses, especialmente em Dourados.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Óbitos em 2026 | 10 confirmados |
| Óbitos em Dourados | 6 (60% do total) |
| Casos confirmados no estado | Mais de 4.200 |
| Casos em Dourados | Aproximadamente 1.900 |
| Incidência em Dourados | 850 por 100 mil hab. |
| Gestantes infectadas | 37 |
| Notificações em 1 dia (Dourados) | 558 |
| Leitos ocupados | 89% em Dourados |
As UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) de Dourados operam no limite. A taxa de ocupação de leitos clínicos chegou a 89%, e pacientes com quadros leves estão sendo orientados a permanecer em casa com acompanhamento remoto. A dor articular crônica — sequela mais comum da chikungunya — pode durar meses ou anos, afetando a capacidade de trabalho. Em Dourados, o INSS já registrou aumento de 23% nos pedidos de auxílio-doença relacionados a arboviroses no primeiro trimestre de 2026. Trabalhadores rurais da região, que dependem do corpo para colher mandioca e operar tratores nas lavouras de soja, relatam incapacidade de retomar a rotina mesmo semanas após a fase aguda.
Para gestantes, o risco é ainda maior. A transmissão vertical pode causar encefalite neonatal, e 37 grávidas já foram diagnosticadas com a doença no estado. A SES-MS recomenda que gestantes usem repelente a cada quatro horas, vistam roupas de manga longa e instalem telas nas janelas.
O Que Dizem os Envolvidos
"Estamos em guerra contra o mosquito e contra o tempo. As vacinas precisam chegar antes que a curva epidêmica atinja o pico", afirmou o secretário estadual de Saúde durante reunião com prefeitos da região da Grande Dourados na quinta-feira.
A prefeitura de Dourados decretou situação de emergência sanitária e autorizou a contratação emergencial de 120 agentes de endemias temporários. Mutirões de limpeza acontecem diariamente nos bairros com maior incidência — Jardim Água Boa, Vila Industrial e Parque das Nações. "A gente limpa num dia, no outro já tem pneu jogado no terreno baldio de novo. Falta consciência da população", desabafou o coordenador de vigilância ambiental do município.
O Ministério da Saúde informou que doses da vacina Ixchiq, produzida pelo laboratório Valneva, devem chegar a MS nos próximos dias. A vacina é de dose única e indicada para adultos a partir de 18 anos. Gestantes e imunossuprimidos não podem receber o imunizante.
Próximos Passos
A SES-MS aguarda a chegada das vacinas contra chikungunya para iniciar a imunização emergencial em Dourados e municípios com alta incidência. A previsão é que as primeiras doses sejam aplicadas ainda na segunda quinzena de abril.
O governo estadual também anunciou a liberação de R$ 8,5 milhões em recursos emergenciais para o combate ao Aedes aegypti, incluindo a compra de inseticidas, equipamentos de nebulização e contratação de agentes temporários. A Defesa Civil estadual foi acionada para apoiar os municípios mais afetados.
Em Dourados, a prefeitura estuda a possibilidade de decretar estado de calamidade pública caso o número de casos continue subindo no ritmo atual. O pico epidêmico, segundo projeções da SES-MS, deve ocorrer entre o final de abril e o início de maio.
Fechamento
Dez mortes em três meses. O número, por si só, já justificaria o alarme. Mas o que preocupa mais é a velocidade: 558 casos notificados em um único dia em Dourados. A chikungunya não mata como a dengue hemorrágica — mata devagar, por complicações em quem já tem o corpo fragilizado. E deixa sequelas que duram anos. Quem quiser denunciar terrenos com acúmulo de água ou criadouros do mosquito pode ligar para a Vigilância Sanitária de Dourados pelo (67) 3411-7652 ou para o Disque Saúde 136.
Fontes e Referências
- SES-MS — Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (saude.ms.gov.br)
- Midiamax (midiamax.com.br)
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- Ministério da Saúde (saude.gov.br)
💰 Chikungunya em números
Óbitos confirmados
10 em 2026
Óbitos em Dourados
6 dos 10
Casos confirmados
Mais de 4 mil
Gestantes infectadas
37 casos
Fonte: SES-MS / Midiamax
❓ Perguntas Frequentes
Até a segunda semana de abril de 2026, a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul confirmou 10 óbitos por chikungunya no estado. Dourados concentra seis dessas mortes, o que levou o município a decretar situação de emergência sanitária. Os outros quatro óbitos foram registrados em municípios do interior. A maioria das vítimas fatais tinha comorbidades prévias, como diabetes e hipertensão, que agravam o quadro clínico da doença. O número de mortes em 2026 já supera o total registrado em todo o ano de 2025.
A chikungunya representa risco significativo para gestantes, especialmente no terceiro trimestre de gravidez. A transmissão vertical — da mãe para o bebê durante o parto — pode causar encefalite neonatal, uma inflamação grave no cérebro do recém-nascido. Em Mato Grosso do Sul, 37 gestantes foram diagnosticadas com chikungunya em 2026. A SES-MS recomenda que grávidas redobrem os cuidados com repelentes, roupas de manga longa e eliminação de criadouros do Aedes aegypti. Não existe vacina aprovada para gestantes no Brasil até o momento.
A vacina Ixchiq, produzida pelo laboratório Valneva e aprovada pela Anvisa em março de 2024, começou a ser distribuída pelo Ministério da Saúde em caráter emergencial para regiões com alta incidência. O governo de MS anunciou que doses devem chegar ao estado nos próximos dias, com prioridade para Dourados e municípios com maior número de casos. A vacina é de dose única e indicada para adultos a partir de 18 anos. Gestantes, imunossuprimidos e menores de 18 anos não podem receber a vacina no momento.
Juliana Mendes
Repórter
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