Homem maltrata tamanduá em Três Lagoas e é procurado pela polícia
Vídeo mostra homem agredindo animal silvestre com pedaço de madeira; PMA investiga crime ambiental e tamanduá foi resgatado com ferimentos

O vídeo dura 47 segundos. Nele, um homem de bermuda e chinelo golpeia um tamanduá-bandeira com um pedaço de madeira enquanto o animal tenta se arrastar para longe. Ao fundo, risadas. Alguém filma e incentiva. O tamanduá, com as garras dianteiras levantadas em posição de defesa, recebe pelo menos três pancadas na cabeça antes de o vídeo cortar. As imagens circularam nas redes sociais na noite de terça-feira, 15 de abril, e chegaram à Polícia Militar Ambiental de Três Lagoas na manhã seguinte.
O Que Aconteceu
A PMA (Polícia Militar Ambiental) de Três Lagoas abriu investigação para identificar e localizar o homem que aparece no vídeo agredindo um tamanduá-bandeira em uma área rural do município. As imagens, gravadas aparentemente por uma segunda pessoa, mostram o agressor em uma estrada de terra próxima a uma propriedade rural na região do distrito de Arapuá, a cerca de 45 quilômetros do centro de Três Lagoas.
O animal foi localizado por uma equipe da PMA na tarde de quarta-feira, 16 de abril, a aproximadamente 200 metros do local onde o vídeo teria sido gravado. O tamanduá — um adulto de porte médio, com cerca de 1,30 metro de comprimento — apresentava escoriações na cabeça, hematomas nas patas dianteiras e sinais de estresse agudo. Não havia fraturas, segundo avaliação preliminar feita no local por um veterinário do Corpo de Bombeiros.
"O animal estava prostrado, desidratado e com dificuldade de locomoção. As lesões são compatíveis com trauma por objeto contundente", descreveu o tenente Marcos Ferreira, da PMA de Três Lagoas, que coordenou o resgate. O tamanduá foi sedado, colocado em uma caixa de transporte e encaminhado ao CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres) de Campo Grande, a 340 quilômetros de distância.
A PMA já identificou a propriedade rural próxima ao local da agressão e ouviu moradores da região. "Temos elementos que indicam a autoria. O homem é conhecido na comunidade. Estamos trabalhando para localizá-lo", afirmou o tenente Ferreira, sem revelar o nome do suspeito.
O vídeo foi removido das principais plataformas após denúncias de usuários, mas cópias continuam circulando em grupos de WhatsApp. A PMA pede que quem tiver informações sobre o agressor entre em contato pelo telefone 190 ou pelo aplicativo MS Digital.
Contexto e Histórico
Três Lagoas fica no leste de Mato Grosso do Sul, na divisa com São Paulo, em uma região onde o Cerrado dá lugar a extensas áreas de eucalipto e pastagem. A expansão do agronegócio e da silvicultura reduziu o habitat natural de espécies como o tamanduá-bandeira, empurrando os animais para beiras de estrada, áreas periurbanas e propriedades rurais — onde o encontro com humanos se torna inevitável.
O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é classificado como espécie vulnerável pela IUCN e pelo ICMBio. No Brasil, estima-se que a população tenha diminuído 30% nas últimas três décadas. Em MS, o animal é símbolo do Pantanal e do Cerrado, mas enfrenta ameaças constantes: atropelamentos em rodovias, queimadas, perda de habitat e, como neste caso, violência direta.
Dados da PMA de Mato Grosso do Sul mostram que o estado registrou 1.847 ocorrências envolvendo fauna silvestre em 2025. Dessas, 214 foram de maus-tratos — um aumento de 18% em relação a 2024. Três Lagoas aparece entre os cinco municípios com mais registros, ao lado de Campo Grande, Dourados, Corumbá e Bonito.
"O problema não é só a agressão em si. É a naturalização da violência contra o animal silvestre. O cara filma, ri, posta na internet. Acha que é engraçado. Isso mostra uma falha de educação ambiental que a gente ainda não conseguiu resolver", avaliou a bióloga Carla Menegat, pesquisadora do Instituto de Meio Ambiente de MS (Imasul).
E o caso de Três Lagoas não é isolado. Em fevereiro de 2026, um homem foi preso em Aquidauana após ser flagrado mantendo um filhote de arara-azul em cativeiro. Em março, a PMA resgatou três jacarés que estavam sendo criados em um tanque de piscicultura em Coxim — o proprietário alegou que "eram de estimação". Em janeiro, um cachorro-do-mato foi encontrado morto a pauladas em uma fazenda de Ribas do Rio Pardo.
O calor seco de abril, com temperaturas que passam dos 36°C na região de Três Lagoas, agrava a situação. Animais silvestres se aproximam de áreas habitadas em busca de água e alimento, aumentando o risco de conflito. "Nessa época do ano, a gente recebe três, quatro chamados por dia de animal silvestre em área urbana ou rural. Cobra, tatu, tamanduá, capivara. A orientação é sempre a mesma: não se aproxime, não toque, ligue pra PMA", disse o sargento Ribeiro, do Corpo de Bombeiros de Três Lagoas.
Impacto Para a População
O caso do tamanduá agredido em Três Lagoas reacendeu o debate sobre a proteção da fauna silvestre em Mato Grosso do Sul — um estado que abriga dois dos biomas mais ricos do planeta, o Cerrado e o Pantanal, mas que ainda registra números alarmantes de crimes ambientais.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Espécie agredida | Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) |
| Status de conservação | Vulnerável (IUCN / ICMBio) |
| Local da agressão | Área rural de Três Lagoas (distrito de Arapuá) |
| Pena por maus-tratos | 3 meses a 1 ano de detenção + multa |
| Multa administrativa (Ibama) | Até R$ 5 mil |
| Ocorrências com fauna em MS (2025) | 1.847 registros |
| Casos de maus-tratos (2025) | 214 ocorrências |
| Redução da população de tamanduás (Brasil) | 30% em 3 décadas |
Para a população de Três Lagoas, o episódio expõe uma contradição. O município, que se orgulha do título de "Capital Mundial da Celulose" e investe em turismo ecológico na região do rio Sucuriú, convive com índices elevados de agressão à fauna. A imagem do homem batendo em um tamanduá circulou em grupos de moradores com reações que iam da indignação ao deboche — sinal de que a consciência ambiental ainda é desigual.
Mas a repercussão também mobilizou. Uma petição online pedindo punição exemplar ao agressor reuniu mais de 8.500 assinaturas em menos de 24 horas. ONGs de proteção animal de Campo Grande e Três Lagoas se ofereceram para custear o tratamento do tamanduá no CRAS. E a Câmara Municipal de Três Lagoas anunciou que vai convocar audiência pública sobre proteção à fauna silvestre no município.
"A gente vê esse tipo de vídeo e dá vontade de desistir. Mas aí lembra que tem muita gente que se importa, que denuncia, que cobra. É isso que faz a diferença", disse a veterinária Luciana Prado, que atua como voluntária no CRAS de Campo Grande e acompanhou a chegada do tamanduá à unidade.
O animal chegou ao CRAS na noite de quarta-feira, após uma viagem de cinco horas em ambulância veterinária. Recebeu hidratação intravenosa, anti-inflamatórios e passou por exames de imagem. O prognóstico é reservado, mas os veterinários consideram a recuperação viável. "Ele é jovem e forte. Se não houver complicação infecciosa, em 30 a 45 dias pode estar apto para soltura", estimou a veterinária responsável pelo CRAS, Dra. Fernanda Queiroz.
O Que Dizem os Envolvidos
A PMA de Três Lagoas informou que o inquérito foi instaurado e que o suspeito será indiciado por maus-tratos a animal silvestre (artigo 32 da Lei 9.605/1998). Se identificado e preso, pode responder também por crime contra espécie ameaçada de extinção, o que agrava a pena.
"Vamos pedir a prisão preventiva se houver risco de fuga ou reiteração. O vídeo é prova robusta. A autoria está praticamente confirmada", afirmou o delegado de Polícia Civil de Três Lagoas, André Luís Ramires, que acompanha o caso em conjunto com a PMA.
O Ibama informou que vai instaurar processo administrativo paralelo, com multa que pode chegar a R$ 5 mil. A autarquia também vai avaliar se há necessidade de interdição da propriedade rural onde o crime ocorreu, caso fique comprovado que o agressor é o proprietário ou funcionário do local.
A prefeitura de Três Lagoas divulgou nota repudiando o ato e reforçando que "a proteção à fauna silvestre é compromisso do município". A nota, porém, não mencionou ações concretas de prevenção.
"Nota de repúdio é fácil. Quero ver colocar fiscal na rua, fazer campanha nas escolas, investir em educação ambiental de verdade. Isso ninguém faz", criticou o ambientalista e professor da UFMS de Três Lagoas, Paulo Henrique Duarte.
Próximos Passos
A PMA trabalha para cumprir o mandado de busca e apreensão na propriedade rural identificada como local da agressão. O objetivo é localizar o pedaço de madeira usado nas agressões — que servirá como prova material — e apreender o celular usado para gravar o vídeo.
O suspeito, se localizado, será conduzido à delegacia para prestar depoimento. A PMA também vai ouvir a pessoa que filmou o vídeo, que pode responder como coautora do crime por ter incentivado a agressão.
O tamanduá permanecerá no CRAS de Campo Grande por pelo menos 30 dias para tratamento e observação. Se a recuperação for bem-sucedida, o animal será devolvido à natureza em uma área de reserva legal na região de Três Lagoas, longe do local onde foi agredido.
A Câmara Municipal de Três Lagoas marcou audiência pública sobre proteção à fauna para 28 de abril. Representantes da PMA, do Imasul, da UFMS e de ONGs ambientais foram convidados. A expectativa é que a audiência resulte em um projeto de lei municipal criando um programa permanente de educação ambiental nas escolas da rede pública.
Fechamento
Quarenta e sete segundos de vídeo. Três pancadas na cabeça de um animal que não oferecia risco a ninguém. Risadas ao fundo. O tamanduá-bandeira, com suas garras de 10 centímetros que poderiam abrir o abdômen de uma onça, escolheu não atacar — tentou apenas fugir. O homem de bermuda e chinelo escolheu bater. A PMA de Três Lagoas sabe quem ele é. É questão de tempo. E quando for encontrado, vai descobrir que 47 segundos de crueldade podem custar até um ano de detenção, R$ 5 mil de multa e um processo que vai persegui-lo por anos. Denúncias de crimes ambientais podem ser feitas pelo 190 (PMA), pelo 0800 61 8080 (Ibama) ou pelo aplicativo MS Digital.
Fontes e Referências
- Polícia Militar Ambiental de MS (pma.ms.gov.br)
- Corpo de Bombeiros Militar de MS
- Polícia Civil de Três Lagoas
- CRAS — Centro de Reabilitação de Animais Silvestres de Campo Grande
- ICMBio (icmbio.gov.br)
- Ibama (ibama.gov.br)
- UFMS — Campus de Três Lagoas
💰 Crime ambiental em números
Pena prevista
3 meses a 1 ano de detenção
Multa administrativa
Até R$ 5 mil (Ibama)
Ocorrências com fauna em MS (2025)
1.847 registros
Status do animal
Resgatado com ferimentos
Fonte: PMA / Corpo de Bombeiros de MS / Polícia Civil de Três Lagoas
❓ Perguntas Frequentes
O tamanduá-bandeira foi encontrado com ferimentos na cabeça e nas patas dianteiras após ser agredido por um homem com um pedaço de madeira. O animal foi resgatado por uma equipe da Polícia Militar Ambiental em conjunto com o Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres de Campo Grande, onde recebeu atendimento veterinário. Segundo o laudo preliminar, o tamanduá apresentava escoriações, hematomas e sinais de estresse agudo, mas não teve fraturas. A recuperação é considerada viável pelos veterinários.
O crime de maus-tratos contra animais silvestres está previsto no artigo 32 da Lei 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais, com pena de detenção de 3 meses a 1 ano e multa. Se o animal sofrer lesão grave ou morrer, a pena é aumentada em um sexto a um terço. O agressor também pode ser autuado administrativamente pelo Ibama ou pelo órgão ambiental estadual, com multa que pode chegar a R$ 5 mil por animal. Em Mato Grosso do Sul, a Polícia Militar Ambiental é o órgão responsável pela fiscalização e pelo atendimento de ocorrências envolvendo fauna silvestre.
O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é classificado como espécie vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e consta na lista oficial de espécies ameaçadas do ICMBio. No Cerrado e no Pantanal de Mato Grosso do Sul, a principal ameaça ao animal são os atropelamentos em rodovias, seguidos por queimadas e perda de habitat. Estima-se que a população de tamanduás-bandeira no Brasil tenha diminuído cerca de 30% nas últimas três décadas, segundo dados do ICMBio publicados em 2024.
Thiago Oliveira
Repórter
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