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quarta-feira, 15 de abril de 2026
🚔 Polícia

Idosa perde R$ 48 mil para golpista que prometia bilhete de R$ 9 milhões

Mulher de 72 anos em Campo Grande perde R$ 48 mil em golpe do falso prêmio após criminoso prometer bilhete premiado de R$ 9 milhões

Camila Ferreira7 min de leituraCampo Grande
Idosa perde R$ 48 mil para golpista que prometia bilhete de R$ 9 milhões

Nove milhões de reais. Era o que o homem do telefone prometia. Bastava pagar umas taxas — imposto de renda, taxa de transferência, seguro do prêmio. Uma idosa de 72 anos, moradora do bairro Coophatrabalho, em Campo Grande, acreditou. Em três semanas, transferiu R$ 48 mil via Pix para contas que o golpista indicava. O prêmio, claro, nunca existiu. O dinheiro — economias de uma vida — desapareceu junto com o criminoso.

O Que Aconteceu

A vítima registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Proteção ao Idoso de Campo Grande nesta terça-feira (15), após perceber que havia sido enganada. Segundo o relato, o primeiro contato aconteceu no dia 25 de março, quando um homem ligou para o telefone fixo da idosa dizendo ser representante de uma empresa de promoções.

O golpista informou que a mulher havia sido sorteada em uma promoção vinculada a um supermercado onde ela costuma fazer compras. O prêmio: um bilhete premiado de R$ 9 milhões. Para liberar o valor, seria necessário pagar taxas. A primeira foi de R$ 5 mil, supostamente referente ao imposto de renda sobre o prêmio. A idosa transferiu via Pix.

Nos dias seguintes, vieram novas cobranças: R$ 12 mil para a "taxa de transferência bancária", R$ 8 mil para o "seguro do prêmio", R$ 7 mil para a "taxa de liberação do Banco Central". A cada pagamento, o golpista prometia que o prêmio seria depositado "em até 48 horas". As 48 horas nunca chegavam — e uma nova taxa surgia.

Ao todo, a idosa fez sete transferências entre 25 de março e 12 de abril, totalizando R$ 48 mil. O dinheiro foi enviado para contas em bancos digitais, em nomes diferentes — provavelmente laranjas. Quando a neta da vítima descobriu o que estava acontecendo e confrontou a avó, a idosa percebeu que havia sido enganada.

Contexto e Histórico

O golpe do falso prêmio é um dos mais antigos e persistentes do repertório dos estelionatários brasileiros. A mecânica é sempre a mesma: a vítima recebe a notícia de que ganhou algo valioso e, para receber, precisa pagar taxas antecipadas. O criminoso vai inventando novas cobranças até que a vítima perceba a fraude ou fique sem dinheiro.

Em Mato Grosso do Sul, os idosos são o alvo preferencial. A Polícia Civil registrou 1.230 ocorrências de estelionato contra pessoas com mais de 60 anos em 2025 — média de mais de três por dia. O número representa aumento de 22% em relação a 2024 e de 58% em relação a 2023. A tendência de alta preocupa as autoridades.

O perfil das vítimas é recorrente: mulheres acima de 65 anos, moradoras de bairros residenciais, que vivem sozinhas ou com pouco contato com familiares no dia a dia. A solidão e a confiança excessiva em estranhos são fatores que os golpistas exploram com precisão cirúrgica. O homem do telefone é educado, paciente, chama a vítima pelo nome e cria uma relação de confiança ao longo de dias ou semanas antes de pedir o primeiro pagamento.

O Pix facilitou a vida dos golpistas. Antes, as transferências bancárias levavam horas ou dias para serem processadas, dando tempo para a vítima ou a família perceber a fraude e cancelar a operação. Com o Pix, o dinheiro cai na conta do criminoso em segundos — e é sacado ou transferido para outras contas quase imediatamente, dificultando o rastreamento.

O Banco Central criou o MED (Mecanismo Especial de Devolução) em 2021 para combater fraudes via Pix. O mecanismo permite que a vítima solicite a devolução do valor transferido em até 80 dias após a operação. Porém, a eficácia do MED depende de haver saldo na conta do recebedor — o que raramente acontece, já que os golpistas movimentam o dinheiro rapidamente.

A Delegacia de Proteção ao Idoso de Campo Grande foi criada em 2019 e é uma das poucas especializadas do Brasil. A unidade registra em média 100 ocorrências por mês, das quais cerca de 40% são de estelionato. A delegada titular alerta que os números reais são muito maiores: "Para cada idoso que vem aqui registrar ocorrência, estimamos que outros três ou quatro não vêm — por vergonha, por medo de ser julgado pela família ou por nem perceber que foi vítima de golpe."

O bairro Coophatrabalho, onde a vítima mora, fica na região sul de Campo Grande e tem população predominantemente de classe média. A idosa é aposentada e vivia com as economias acumuladas ao longo de décadas de trabalho. Os R$ 48 mil representavam quase a totalidade de suas reservas.

Impacto Para a População

O golpe contra a idosa do Coophatrabalho é mais um caso que expõe a vulnerabilidade dos idosos sul-mato-grossenses diante de criminosos cada vez mais sofisticados.

Aspecto Detalhe
Prejuízo R$ 48 mil
Prêmio prometido R$ 9 milhões
Número de transferências 7 via Pix
Período do golpe 25/03 a 12/04/2026
Idade da vítima 72 anos
Golpes contra idosos em MS (2025) 1.230 registros
Aumento em relação a 2024 22%

Para a vítima, o prejuízo vai além do financeiro. A idosa relatou à delegacia que sente vergonha, culpa e dificuldade para dormir desde que percebeu o golpe. "Ela me disse que se sente burra, que não sabe como caiu nisso. Mas não é burrice — é manipulação. Esses criminosos são profissionais", disse a delegada da Proteção ao Idoso.

O caso serve de alerta para famílias com idosos. Filhos e netos devem conversar abertamente sobre golpes, explicar que nenhum prêmio legítimo exige pagamento antecipado e orientar que qualquer ligação pedindo dinheiro deve ser comunicada a um familiar antes de qualquer transferência.

Para a comunidade do Coophatrabalho, o caso gerou comoção. Vizinhos organizaram vaquinha online para ajudar a idosa a recuperar parte do prejuízo. Até o fechamento desta reportagem, a campanha havia arrecadado R$ 6,2 mil.

O Que Dizem os Envolvidos

A delegada da Proteção ao Idoso informou que a investigação está em andamento e que a Polícia Civil já solicitou aos bancos digitais o bloqueio das contas que receberam as transferências e a identificação dos titulares. "Vamos rastrear o dinheiro e identificar os responsáveis. Golpe contra idoso é crime hediondo na prática, mesmo que a lei ainda não o classifique assim", afirmou.

O Procon-MS divulgou alerta reforçando que nenhuma promoção legítima exige pagamento de taxas para liberação de prêmios. "Se alguém ligar dizendo que você ganhou algo e pedir dinheiro, desligue. É golpe. Sempre", orientou o diretor do órgão.

A neta da vítima, que descobriu o golpe e acompanhou a avó à delegacia, fez apelo nas redes sociais. "Minha avó trabalhou a vida inteira e guardou esse dinheiro com sacrifício. Um bandido levou tudo em três semanas. Cuidem dos seus idosos, conversem com eles sobre esses golpes", escreveu.

Próximos Passos

A Polícia Civil aguarda o retorno dos bancos digitais com a identificação dos titulares das contas que receberam as transferências. O prazo para resposta é de 10 dias úteis.

A vítima, orientada pela delegacia, acionou o MED (Mecanismo Especial de Devolução) do Banco Central para tentar recuperar os valores transferidos via Pix. A expectativa, porém, é baixa — os golpistas costumam esvaziar as contas rapidamente.

A Delegacia de Proteção ao Idoso vai realizar palestra sobre prevenção a golpes no Centro de Convivência do Idoso do Coophatrabalho, prevista para a próxima semana. A ação faz parte do programa "Idoso Seguro", que leva orientações a centros de convivência e igrejas de Campo Grande.

A Defensoria Pública de MS informou que está disponível para orientar a vítima sobre possíveis ações judiciais contra os bancos que permitiram a abertura de contas em nome de laranjas.

Fechamento

Quarenta e oito mil reais. Economias de uma vida inteira. Transferidos em sete Pix para um criminoso que prometia R$ 9 milhões que nunca existiram. A idosa do Coophatrabalho não é a primeira e não será a última — enquanto houver telefone tocando e idoso sozinho em casa, o golpe do falso prêmio vai continuar fazendo vítimas. A melhor vacina é a conversa: fale com seus pais, avós e vizinhos idosos sobre esses golpes. E se alguém ligar prometendo prêmio, a resposta é uma só: desligue. Denúncias podem ser feitas pelo Disque 100 (Direitos Humanos) ou pelo 181 (Disque-Denúncia).

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Delegacia de Proteção ao Idoso de Campo Grande
  • Procon-MS (procon.ms.gov.br)
  • Banco Central do Brasil — MED (bcb.gov.br)

💰 Golpe do falso prêmio

1

Prejuízo da vítima

R$ 48 mil

2

Prêmio prometido

R$ 9 milhões

3

Idade da vítima

72 anos

4

Golpes contra idosos em MS (2025)

1.230 registros

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

O golpista entrou em contato com a idosa de 72 anos por telefone, dizendo que ela havia sido sorteada em uma promoção e que ganhara um bilhete premiado de R$ 9 milhões. Para liberar o prêmio, ele exigiu o pagamento de taxas — primeiro R$ 5 mil para o imposto de renda, depois R$ 12 mil para a taxa de transferência, e assim por diante. Ao longo de três semanas, a vítima fez sete transferências via Pix para contas indicadas pelo criminoso, totalizando R$ 48 mil. O golpista desapareceu quando a idosa percebeu a fraude e parou de pagar.

A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul registrou 1.230 ocorrências de estelionato contra pessoas com mais de 60 anos em 2025, um aumento de 22% em relação a 2024. Os golpes mais comuns são o do falso prêmio, o do falso sequestro, o do falso funcionário de banco e o do empréstimo consignado fraudulento. Campo Grande concentra cerca de 45% dos registros. A Delegacia de Proteção ao Idoso alerta que os números reais são maiores, pois muitas vítimas não registram ocorrência por vergonha ou por não perceberem que foram enganadas.

O primeiro passo é registrar boletim de ocorrência na delegacia mais próxima ou pela Delegacia Virtual de MS (devir.pc.ms.gov.br). Em seguida, a vítima deve entrar em contato com o banco para tentar bloquear as transferências e solicitar o mecanismo especial de devolução do Pix (MED), que permite a recuperação de valores em casos de fraude. O prazo para acionar o MED é de até 80 dias após a transferência. A família também pode procurar a Defensoria Pública para orientação jurídica gratuita e o Procon-MS para registro de reclamação.

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CF

Camila Ferreira

Repórter