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segunda-feira, 13 de abril de 2026
🚔 Polícia

Marido é preso por atropelar mulher e ligar para PM inventando ataque

Homem atropelou a esposa em Água Clara e acionou a polícia alegando que ela havia sido vítima de terceiros

Patrícia Souza6 min de leituraÁgua Clara
Marido é preso por atropelar mulher e ligar para PM inventando ataque

Ele atropelou a mulher. Depois ligou para a PM dizendo que ela tinha sido atacada por desconhecidos. A farsa durou menos de uma hora. Policiais militares de Água Clara, a 190 quilômetros de Campo Grande, prenderam o marido em flagrante por tentativa de feminicídio na manhã deste domingo (12).

O Que Aconteceu

A ocorrência começou por volta das 9h15, quando a PM de Água Clara recebeu ligação de um homem relatando que sua esposa havia sido atropelada por um veículo desconhecido em frente à residência do casal, no bairro Centro. A equipe do Samu foi acionada e encontrou a mulher — de 32 anos — caída na calçada com fraturas na perna esquerda e escoriações pelo corpo.

Os policiais iniciaram o atendimento e, ao colher depoimentos de vizinhos, a versão do marido desmoronou. Duas testemunhas relataram que viram o próprio homem — de 38 anos — acelerar a caminhonete Fiat Strada contra a mulher após uma discussão na porta de casa. Uma das vizinhas gravou parte da cena pelo celular.

"Eu tava na varanda e ouvi os gritos. Quando olhei, ele já tava dando ré com a caminhonete em cima dela. Depois saiu do carro, pegou o celular e ligou pra polícia como se não tivesse feito nada", relatou a testemunha à PM.

O homem foi preso em flagrante e conduzido à delegacia de Água Clara. A caminhonete foi apreendida para perícia. A mulher foi estabilizada pelo Samu e transferida para o Hospital Regional de Três Lagoas, onde passou por cirurgia na perna. O estado de saúde é estável. A cirurgia durou aproximadamente duas horas e envolveu fixação de fratura no fêmur esquerdo com placa de titânio.

Contexto e Histórico

Água Clara, município de 16 mil habitantes no leste de MS, não tem delegacia especializada de atendimento à mulher. Casos de violência doméstica são registrados na delegacia comum, o que, segundo especialistas, pode inibir denúncias.

Mato Grosso do Sul registrou 34 feminicídios em 2025, segundo dados da Sejusp. No primeiro trimestre de 2026, já são 11 casos — ritmo que, se mantido, pode superar o ano anterior. A região leste do estado — que inclui Água Clara, Três Lagoas e Paranaíba — concentra 18% dos casos de violência doméstica registrados em MS.

O uso de veículo como arma em tentativas de feminicídio não é incomum. Em fevereiro de 2026, um homem foi preso em Dourados após atropelar a ex-companheira na saída de uma festa. Em janeiro, caso semelhante aconteceu em Ponta Porã. A Sejusp classifica esses casos como "feminicídio tentado com meio cruel", o que agrava a pena. A Defensoria Pública de MS atendeu 1.240 mulheres vítimas de violência doméstica no primeiro trimestre de 2026 — aumento de 17% em relação ao mesmo período de 2025.

A dissimulação — inventar uma versão falsa para a polícia — é agravante prevista no Código Penal. No caso de Água Clara, o marido tentou criar um álibi ao se apresentar como testemunha preocupada, não como agressor. A estratégia falhou porque vizinhos presenciaram o atropelamento e uma delas gravou imagens.

Na semana passada, o presidente Lula sancionou a Lei 15.383/2026, que obriga o uso imediato de tornozeleira eletrônica em casos de violência doméstica quando houver medida protetiva. A nova lei reforça o monitoramento de agressores e pode ser aplicada ao caso de Água Clara.

Em Água Clara, o calor seco de abril — termômetros marcando 36 °C ao meio-dia — empurra os moradores para dentro de casa, onde a maioria dos episódios de violência doméstica acontece. A cidade não conta com Casa da Mulher, CRAM ou qualquer equipamento especializado de acolhimento. A única delegacia funciona com dois investigadores e um escrivão, sem sala reservada para ouvir vítimas de violência de gênero. Dados da Sejusp mostram que 42% das mulheres agredidas em municípios com menos de 20 mil habitantes desistem de registrar ocorrência antes de concluir o boletim — taxa que cai para 19% em cidades com delegacia especializada. A Patrulha Maria da Penha, que deveria fazer visitas periódicas às mulheres com medida protetiva, opera em Água Clara com apenas duas viaturas para cobrir a zona urbana e 23 fazendas da zona rural.

Impacto Para a População

O caso expõe a vulnerabilidade de mulheres em municípios pequenos do interior de MS, onde a rede de proteção é limitada.

Aspecto Detalhe
Vítima Mulher, 32 anos
Agressor Marido, 38 anos
Crime Tentativa de feminicídio
Método Atropelamento intencional
Agravante Dissimulação (versão falsa à PM)
Cidade Água Clara-MS (16 mil hab.)
Feminicídios em MS (2025) 34
Feminicídios tentados (1º tri 2026) 11
DEAM mais próxima Três Lagoas (120 km)

Para mulheres de Água Clara, a delegacia especializada mais próxima fica em Três Lagoas, a 120 quilômetros. A distância é uma barreira concreta para quem precisa de atendimento especializado. A Patrulha Maria da Penha da PM atua no município, mas com efetivo reduzido — apenas dois policiais dedicados ao programa. A rota entre Água Clara e Três Lagoas passa por trechos de terra batida na MS-338, onde a poeira vermelha do cerrado encobre a sinalização e o tempo de viagem pode ultrapassar duas horas em dias de chuva.

O Que Dizem os Envolvidos

O delegado de Água Clara confirmou a prisão em flagrante e informou que o homem foi autuado por tentativa de feminicídio qualificado (meio cruel e dissimulação). "A versão dele caiu por terra com os depoimentos das testemunhas e o vídeo gravado pela vizinha. Ele vai responder preso", afirmou.

A Patrulha Maria da Penha da PM informou que a mulher já havia registrado uma ocorrência de ameaça contra o marido em novembro de 2025, mas não solicitou medida protetiva na época. "Infelizmente, muitas mulheres desistem de prosseguir com a denúncia por medo ou dependência financeira. É um padrão que a gente vê todo dia", disse a sargento responsável pela patrulha em Água Clara.

Próximos Passos

O homem passará por audiência de custódia nas próximas 24 horas. O Ministério Público deve pedir a conversão da prisão em flagrante em preventiva, considerando a gravidade do crime e o risco à vítima.

A mulher deve receber medida protetiva de urgência, com proibição de aproximação do agressor. Com a nova Lei 15.383/2026, o juiz pode determinar o uso de tornozeleira eletrônica já na audiência de custódia.

A Polícia Civil vai encaminhar o inquérito ao Ministério Público com pedido de indiciamento por tentativa de feminicídio qualificado. Se condenado, o homem pode pegar de 8 a 20 anos de reclusão.

Fechamento

Atropelou a mulher e ligou pra polícia fingindo preocupação. A frieza do agressor de Água Clara é o retrato de uma violência que se esconde atrás de portas fechadas em milhares de lares de MS. A vizinha que gravou o vídeo fez mais pela vítima do que qualquer discurso. Denúncias de violência doméstica podem ser feitas pelo 190 (PM), 180 (Central da Mulher) ou nas delegacias de polícia. A ligação é gratuita e pode ser anônima.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • PM de Mato Grosso do Sul (pm.ms.gov.br)
  • Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br)
  • Presidência da República — Lei 15.383/2026

💰 Violência doméstica em MS

1

Crime

Tentativa de feminicídio

2

Método

Atropelamento intencional

3

Cidade

Água Clara-MS

4

Feminicídios em MS (2025)

34 casos

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

Uma mulher foi atropelada intencionalmente pelo próprio marido em Água Clara, município a cerca de 190 quilômetros de Campo Grande. Após o atropelamento, o homem ligou para a Polícia Militar alegando que a esposa havia sido vítima de um ataque de terceiros. A investigação da PM, no entanto, revelou inconsistências na versão do marido, e testemunhas confirmaram que ele próprio conduziu o veículo contra a mulher. O homem foi preso em flagrante por tentativa de feminicídio. A vítima foi socorrida e encaminhada ao hospital com fraturas e escoriações, mas sem risco de morte.

A tentativa de feminicídio é tipificada no artigo 121, parágrafo 2º, inciso VI do Código Penal, combinado com o artigo 14, inciso II. A pena para feminicídio consumado é de 12 a 30 anos de reclusão. Na tentativa, a pena é reduzida de um a dois terços, podendo variar de 4 a 20 anos, dependendo das circunstâncias. Agravantes como uso de veículo como arma, premeditação e dissimulação (como inventar uma versão falsa para a polícia) podem aumentar a pena. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) também prevê medidas protetivas de urgência para a vítima.

Em Mato Grosso do Sul, a denúncia de violência doméstica pode ser feita por diversos canais. O mais imediato é o 190 (Polícia Militar), para situações de emergência. O Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona 24 horas e aceita denúncias anônimas. As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) existem em Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá. O aplicativo MS Digital também permite registro de ocorrência online. A nova Lei 15.383/2026 obriga o uso imediato de tornozeleira eletrônica em agressores de violência doméstica, reforçando a proteção das vítimas.

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PS

Patrícia Souza

Repórter