Operação Iscariotes: PF prende policiais envolvidos em contrabando de eletrônicos em MS
Policiais civis de Campo Grande e Sidrolândia foram presos por facilitar contrabando de eletrônicos do Paraguai. Justiça bloqueou R$ 40 milhões em bens.

A Polícia Federal, em ação conjunta com a Receita Federal, deflagrou no dia 18 de março de 2026 a Operação Iscariotes, revelando um esquema sofisticado de contrabando de eletrônicos que contava com a participação ativa de agentes de segurança pública de Mato Grosso do Sul. A operação expôs uma rede que recrutava policiais civis, militares e bombeiros para facilitar crimes de contrabando, descaminho, lavagem de dinheiro e corrupção, representando uma das maiores ações de combate à corrupção policial no estado nos últimos anos.
O esquema: policiais como facilitadores do crime
As investigações, que duraram mais de um ano, revelaram que a organização criminosa havia montado uma estrutura operacional que dependia fundamentalmente da participação de servidores da segurança pública. Os policiais envolvidos desempenhavam funções estratégicas no esquema: forneciam informações sigilosas extraídas de sistemas policiais — como dados de operações em andamento, rotas de fiscalização e alertas de inteligência —, e em alguns casos participavam diretamente do transporte de mercadorias contrabandeadas.
O grupo era especializado na importação irregular de eletrônicos de alto valor agregado provenientes do Paraguai, sem qualquer documentação fiscal. Os produtos — que incluíam smartphones, notebooks, tablets e acessórios de marcas internacionais — eram internados no Brasil por rotas clandestinas na região de fronteira e distribuídos em Campo Grande, especialmente no Camelódromo da capital, além de serem enviados para outros estados, com destaque para Minas Gerais.
A logística do contrabando
Para evitar a detecção pelas forças de segurança, os integrantes da organização utilizavam veículos adaptados com compartimentos ocultos — conhecidos no jargão policial como "fundos falsos" — para o transporte das mercadorias. Os veículos eram, muitas vezes, conduzidos por motoristas sem antecedentes criminais, contratados especificamente para diminuir a probabilidade de abordagens policiais.
A inteligência da PF identificou que o esquema operava em cadeia: os eletrônicos eram adquiridos no Paraguai, cruzavam a fronteira por pontos não fiscalizados, eram armazenados temporariamente em depósitos na região de Ponta Porã e Dourados, e finalmente transportados até Campo Grande, de onde eram redistribuídos para o mercado nacional.
A deflagração: 90 mandados judiciais
No dia da operação, mais de 200 policiais federais foram mobilizados para o cumprimento simultâneo de cerca de 90 ordens judiciais em Mato Grosso do Sul — com ações em Campo Grande e Dourados — e em Minas Gerais, especificamente em Belo Horizonte, Vespasiano e Montes Claros. Foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão e 4 mandados de prisão preventiva.
Entre os presos estão dois policiais civis que atuavam em delegacias de Campo Grande e Sidrolândia: Célio Rodrigues Monteiro e Edivaldo Quevedo da Fonseca. Ambos foram afastados imediatamente de seus cargos de chefia. Em desdobramento posterior, no dia 30 de março, o policial Edivaldo foi solto após o pagamento de fiança determinada pela Justiça, decisão que gerou controvérsia entre entidades de classe e organizações da sociedade civil.
R$ 40 milhões bloqueados
A Justiça Federal determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 40 milhões em bens de pessoas físicas e jurídicas ligadas ao esquema criminoso. O patrimônio bloqueado inclui imóveis residenciais e comerciais, veículos de luxo, contas bancárias e investimentos financeiros. Além disso, a Justiça ordenou a suspensão imediata das atividades de seis empresas identificadas como fachada para a lavagem dos recursos provenientes do contrabando.
As buscas no Camelódromo de Campo Grande resultaram na apreensão de centenas de aparelhos eletrônicos sem nota fiscal, além de documentos contábeis que comprovam a movimentação de valores incompatíveis com a renda declarada pelos comerciantes envolvidos.
O significado do nome: traição institucional
O nome "Iscariotes" foi escolhido pela Polícia Federal como uma referência direta a Judas Iscariotes, o apóstolo bíblico que traiu Jesus Cristo. A analogia é contundente: assim como Judas traiu a confiança de quem deveria proteger, os agentes de segurança pública envolvidos no esquema traíram o juramento que fizeram ao ingressar nas forças de segurança do estado.
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul informou que colaborou com as investigações e confirmou que um policial da reserva estava entre os investigados. A corporação reforçou que "não compactua com desvios de conduta" e que eventuais envolvidos serão submetidos a procedimentos administrativos disciplinares.
Impacto institucional e consequências
A Operação Iscariotes levanta questões preocupantes sobre a integridade institucional das forças de segurança no estado. A participação de policiais da ativa em organizações criminosas mina a confiança da população nas instituições responsáveis pela manutenção da lei e da ordem, além de criar uma vulnerabilidade sistêmica que facilita a atuação de grupos criminosos em outras frentes.
Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem apontam que o envolvimento de agentes policiais em atividades criminosas não é um fenômeno isolado, mas reflete problemas estruturais como baixos salários, falta de controle interno efetivo e a proximidade geográfica com a região de fronteira, onde as tentações financeiras são amplificadas pelo volume de mercadorias ilícitas em circulação.
Cronologia dos eventos
A investigação que culminou na Operação Iscariotes se desenvolveu ao longo de vários meses, com fases distintas de coleta de provas, análise de dados e planejamento operacional. A PF utilizou técnicas de investigação especializadas, incluindo interceptação telefônica autorizada judicialmente, análise de dados bancários e financeiros, e cooperação com órgãos de inteligência de outros estados.
Os desdobramentos da operação continuam em curso, e a expectativa é de que novos mandados possam ser expedidos nas próximas semanas, à medida que a análise do material apreendido — especialmente aparelhos celulares e computadores — revele informações sobre outros integrantes da rede criminosa.
As informações podem ser verificadas pelos canais oficiais da Polícia Federal (gov.br/pf) e nos portais de notícias Campo Grande News, Correio do Estado e Progresso, que acompanharam a operação desde a deflagração.
O problema do contrabando de eletrônicos na fronteira
O contrabando de eletrônicos pela fronteira com o Paraguai é um dos crimes mais antigos e persistentes de Mato Grosso do Sul. A assimetria de preços entre os dois países — produtos eletrônicos no Paraguai custam, em média, 40% a 60% menos do que no Brasil devido à menor carga tributária — cria uma demanda constante por mercadorias contrabandeadas, que alimenta uma cadeia criminosa que vai desde os "sacoleiros" individuais até organizações transnacionais sofisticadas.
Segundo estimativas da Receita Federal, o contrabando de eletrônicos representa um prejuízo anual de mais de R$ 15 bilhões aos cofres públicos brasileiros em tributos não recolhidos, considerando não apenas MS, mas toda a faixa de fronteira do Paraná e de São Paulo. No caso específico de Mato Grosso do Sul, a cidade de Ponta Porã — conurbada com Pedro Juan Caballero, no Paraguai — é o principal ponto de entrada dessas mercadorias no território brasileiro.
A investigação de policiais corruptos
O aspecto mais grave da Operação Iscariotes é a revelação de que agentes responsáveis por combater o contrabando estavam, na verdade, facilitando-o. A investigação da PF demonstrou que os policiais envolvidos recebiam pagamentos regulares de organizações criminosas especializadas em contrabando de eletrônicos, oferecendo em troca informações privilegiadas sobre operações policiais, escalas de fiscalização e rotas de patrulhamento.
A prática, conhecida no meio policial como "vender a escala", permite que contrabandistas planejem suas rotas de transporte para evitar pontos de fiscalização, reduzindo drasticamente o risco de apreensão. A PF estima que os policiais investigados possam ter facilitado a entrada de milhões de reais em mercadorias contrabandeadas ao longo dos anos em que operaram de forma corrupta, causando prejuízos diretos à economia formal e à arrecadação tributária do estado.
A Corregedoria da Polícia Civil de MS e a Corregedoria-Geral da Polícia Militar também acompanham o desdobramento da operação, apurando possíveis infrações disciplinares cometidas pelos agentes envolvidos, que poderão resultar em demissão a bem do serviço público, além das sanções criminais já aplicadas pela Justiça Federal.
💰 Dimensão do esquema criminoso descoberto
Bens bloqueados pela Justiça
R$ 40 milhões
Ordens judiciais cumpridas
90
Policiais federais mobilizados
+200
Mandados de prisão preventiva
4
Fonte: Polícia Federal / gov.br
❓ Perguntas Frequentes
O nome faz referência a Judas Iscariotes, figura bíblica associada à traição. A PF escolheu o nome para simbolizar a quebra de confiança por parte dos agentes públicos que deveriam proteger a sociedade, mas facilitavam o crime organizado.
Dois policiais civis que atuavam em Campo Grande e Sidrolândia foram presos: Célio Rodrigues Monteiro e Edivaldo Quevedo da Fonseca. Em 30 de março, Edivaldo foi solto após pagamento de fiança.
Patrícia Souza
Repórter
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