Após alta médica, 7 pacientes ficam meses internados em MS sem ter casa para voltar
Hospitais públicos mantêm pacientes que já poderiam ser liberados porque não têm família, moradia ou rede de apoio para recebê-los

Sete pessoas estão internadas em hospitais públicos de Mato Grosso do Sul sem necessidade médica. Já receberam alta. Poderiam ir embora. Mas não têm casa, não têm família, não têm para onde ir. Ficam nos leitos — alguns há mais de oito meses — enquanto o sistema de saúde e a assistência social tentam encontrar uma solução que não chega.
O Que Aconteceu
O levantamento foi feito pela Secretaria Estadual de Saúde (SES-MS) a pedido do Ministério Público. São 7 pacientes distribuídos em hospitais de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas que ocupam leitos de enfermaria e clínica médica sem indicação clínica para internação.
O caso mais antigo é o de um homem de 67 anos, internado no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) desde agosto de 2025. Ele deu entrada com pneumonia grave, foi tratado, recebeu alta médica em outubro. Mas é morador de rua, não tem documentos, não tem família identificada. Oito meses depois, continua no mesmo leito.
Outro caso envolve uma mulher de 43 anos com deficiência física, internada em Dourados desde dezembro de 2025. A família se recusou a buscá-la após a alta. O hospital acionou o CREAS, que não encontrou vaga em instituição de acolhimento na cidade.
"A gente dá alta no prontuário, mas o paciente não sai da cama. Fica ali, ocupando leito, comendo a comida do hospital, usando os insumos. E a gente não pode colocar na rua", relatou uma enfermeira do HRMS que pediu anonimato.
Contexto e Histórico
O fenômeno tem nome técnico: internação social. Acontece quando a permanência no hospital se justifica não por razões médicas, mas por razões sociais — falta de moradia, abandono familiar, ausência de rede de apoio. É um problema que consome recursos hospitalares escassos e mantém pessoas presas em um ambiente que não é feito para morar.
O problema não é exclusivo de MS. Um levantamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) de 2025 estimou que 3,2% dos leitos de hospitais públicos no Brasil são ocupados por pacientes em internação social. Em números absolutos, são cerca de 12 mil leitos bloqueados no país inteiro. O custo anual estimado ultrapassa R$ 2,1 bilhões — dinheiro que poderia financiar a construção de 350 UBSs ou a contratação de 8 mil médicos para o SUS.
Em Mato Grosso do Sul, a rede hospitalar pública tem 4.380 leitos distribuídos em 47 hospitais. Se a proporção nacional se aplicar, seriam 140 leitos ocupados por internação social — número que a SES-MS contesta, afirmando que o levantamento identificou apenas 7 casos. A discrepância sugere subnotificação. Hospitais têm pouco incentivo para reportar internação social: o registro implica admitir que o leito está sendo usado de forma inadequada, o que pode gerar questionamentos do Tribunal de Contas e do Ministério Público.
A rede de acolhimento institucional em MS é limitada. Campo Grande tem 4 abrigos públicos para adultos, com capacidade total de 180 vagas. Dourados tem 2 abrigos com 60 vagas. Três Lagoas tem 1 abrigo com 30 vagas. Todos operam próximos da lotação máxima. A fila de espera para vaga em abrigo em Campo Grande é de 45 a 90 dias, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social.
O perfil dos pacientes retidos é revelador. Dos 7 identificados pela SES-MS, 4 são homens acima de 60 anos, 2 são mulheres com deficiência física e **1 é um jovem de 22 anos com transtorno mental que perdeu o vínculo familiar durante a internação. Nenhum deles tem renda própria. Nenhum tem endereço fixo.
O custo de manter um paciente em leito hospitalar é significativamente maior do que em abrigo. Uma diária em enfermaria custa ao SUS entre R$ 480 e R$ 1.200. Uma vaga em abrigo público custa entre R$ 45 e R$ 80 por dia. A diferença é de até 15 vezes. Em seis meses, um único paciente em internação social custa ao sistema entre R$ 86 mil e R$ 216 mil — valor que financiaria sua permanência em abrigo por 3 a 13 anos.
Impacto Para a População
Cada leito ocupado por internação social é um leito a menos para quem precisa de atendimento médico.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Pacientes em internação social | 7 identificados |
| Hospitais afetados | HRMS (CG), Dourados, Três Lagoas |
| Tempo de retenção | 3 a 8 meses |
| Custo diário por leito | R$ 480 a R$ 1.200 |
| Custo diário em abrigo | R$ 45 a R$ 80 |
| Leitos públicos em MS | 4.380 |
| Abrigos em Campo Grande | 4 (180 vagas) |
| Internação social no Brasil | 3,2% dos leitos (estimativa CNS) |
O HRMS, maior hospital público de MS, opera com taxa de ocupação de 92%. Sete leitos podem parecer pouco, mas em um sistema que trabalha no limite, cada vaga conta. Em março de 2026, o hospital registrou 14 pacientes aguardando leito de enfermaria no pronto-socorro — parte deles poderia ter sido internada nos leitos ocupados por pacientes sem alta social.
O Que Dizem os Envolvidos
O secretário estadual de Saúde reconheceu o problema e atribuiu a responsabilidade à assistência social municipal. "O hospital não é abrigo. Nossa função é tratar e dar alta. A partir daí, o acolhimento é responsabilidade do município", afirmou.
A Secretaria Municipal de Assistência Social de Campo Grande informou que "trabalha em conjunto com os hospitais para encaminhar os pacientes à rede de acolhimento" e que "a falta de vagas em abrigos é um desafio nacional, não exclusivo de Campo Grande".
O Ministério Público de MS, que solicitou o levantamento, informou que vai instaurar procedimento para acompanhar cada caso individualmente e cobrar soluções dos municípios. "Não é aceitável que uma pessoa fique oito meses em um leito hospitalar porque ninguém assume a responsabilidade de acolhê-la", disse o promotor responsável.
A Defensoria Pública de MS informou que está acompanhando dois dos sete casos e que já ingressou com ação judicial pedindo vaga em instituição de acolhimento.
Próximos Passos
O MPMS deu prazo de 30 dias para que os municípios de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas apresentem plano de encaminhamento para os 7 pacientes. O descumprimento pode resultar em ação civil pública contra as prefeituras.
A SES-MS informou que vai criar um protocolo estadual de "alta social", com fluxo definido entre hospital e assistência social para evitar que novos casos se acumulem. A previsão é que o protocolo esteja pronto até junho de 2026.
O governo estadual estuda a ampliação da rede de abrigos, com a abertura de 2 novas unidades em Campo Grande e 1 em Dourados, totalizando 120 vagas adicionais. O investimento estimado é de R$ 3,8 milhões, com recursos do Fundo Estadual de Assistência Social.
Fechamento
Sete pessoas presas em leitos de hospital. Não por doença — por abandono. O sistema de saúde diz que não é abrigo. A assistência social diz que não tem vaga. E o paciente fica ali, no limbo entre a alta médica e a rua. O custo é absurdo: R$ 1.200 por dia em leito hospitalar quando uma vaga em abrigo custaria R$ 80. Mas o custo humano é pior. Oito meses olhando o teto de um hospital sem estar doente. Sem visita. Sem perspectiva. Quem conhece alguém nessa situação pode procurar o CRAS mais próximo ou ligar para o Disque 100.
Fontes e Referências
- Campo Grande News (campograndenews.com.br)
- SES-MS — Secretaria Estadual de Saúde
- Ministério Público de Mato Grosso do Sul (mpms.mp.br)
- Conselho Nacional de Saúde
- Defensoria Pública de MS
💰 Internação social em MS
Pacientes retidos
7 em hospitais públicos
Tempo médio de retenção
3 a 8 meses
Custo diário por leito
R$ 480 a R$ 1.200
Motivo
Sem moradia ou família
Fonte: Campo Grande News / SES-MS
❓ Perguntas Frequentes
O fenômeno é chamado de 'internação social' — quando o paciente já está clinicamente apto para deixar o hospital, mas não tem para onde ir. São pessoas em situação de rua, idosos abandonados pela família, pacientes com deficiência que perderam o vínculo familiar ou pessoas que moravam em condições precárias incompatíveis com a continuidade do tratamento. Sem moradia, sem cuidador e sem rede de apoio, esses pacientes permanecem ocupando leitos hospitalares que poderiam atender outros doentes, gerando um custo elevado para o sistema público de saúde.
O custo varia conforme o tipo de leito. Uma diária em enfermaria de hospital público em Mato Grosso do Sul custa entre R$ 480 e R$ 1.200 ao SUS, dependendo da complexidade. Um paciente retido por 6 meses em leito de enfermaria gera um custo estimado de R$ 86 mil a R$ 216 mil — dinheiro que poderia ser usado para atender dezenas de outros pacientes. Além do custo financeiro, há o custo humano: o paciente retido perde autonomia, desenvolve quadros de depressão e ansiedade, e o leito ocupado impede a internação de quem realmente precisa de cuidados hospitalares.
A responsabilidade é compartilhada entre o sistema de saúde e a assistência social. Quando o hospital identifica que o paciente não tem para onde ir após a alta, deve acionar o Serviço Social do próprio hospital, que por sua vez comunica o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) ou o CREAS (Centro de Referência Especializado) do município. Cabe à assistência social municipal providenciar acolhimento institucional, como abrigos ou casas de passagem. O problema é que a rede de acolhimento em MS é insuficiente: Campo Grande tem apenas 4 abrigos públicos para adultos, com capacidade total de 180 vagas, frequentemente lotados.
Patrícia Souza
Repórter
Leia também
Empresa de energia solar aposta na formação de estudantes em MS
17 de abril de 2026
🏙️ CidadesEstudo com 21 mil imagens revela fauna ativa em áreas queimadas do Pantanal em MS
17 de abril de 2026
🚔 PolíciaHomem maltrata tamanduá em Três Lagoas e é procurado pela polícia
17 de abril de 2026
🏛️ PolíticaMunicípio de MS corta expediente de servidores para cobrir gastos sociais
17 de abril de 2026