Pular para o conteúdo
quarta-feira, 08 de abril de 2026
🔴 Urgente🚔 Polícia

PF deflagra Operação Terra Forjada contra fraude em sistemas federais usada para grilagem de terras em MS

Investigação mira esquema que manipulava dados fundiários para simular posse sobre áreas rurais; ação partiu da Base Quadrante em Corumbá

Camila Ferreira8 min de leituraCorumbá
PF deflagra Operação Terra Forjada contra fraude em sistemas federais usada para grilagem de terras em MS

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, a Operação Terra Forjada para combater um sofisticado esquema de fraude em sistemas públicos federais utilizado para "esquentar" processos de grilagem de terras em Mato Grosso do Sul. A ação tem como alvo duas empresas e seis pessoas suspeitas de manipular dados fundiários para simular domínio ou posse sobre extensas áreas rurais.

As investigações tiveram início na Base Quadrante, unidade da PF instalada em Corumbá durante a seca extrema e os incêndios devastadores que atingiram o Pantanal em 2024. Durante as operações de combate aos crimes ambientais, os agentes identificaram irregularidades em registros fundiários de propriedades na região pantaneira.

Modus operandi do esquema

Segundo a PF, os investigados utilizavam conhecimentos técnicos avançados para acessar e manipular dados em sistemas federais de gestão fundiária. O esquema envolvia a alteração de informações no SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária), no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e em bases de dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

O processo de "esquentamento" das terras griladas seguia etapas bem definidas:

Etapa Ação Objetivo
1 Identificação de terras devolutas Mapear áreas sem registro formal
2 Criação de documentos falsos Simular cadeia dominial
3 Inserção de dados nos sistemas Dar aparência de legalidade
4 Obtenção de certidões Legitimar a posse fraudulenta
5 Venda ou exploração Lucrar com a terra grilada

Os criminosos cobravam entre R$ 50 mil e R$ 200 mil por operação de regularização fraudulenta, dependendo do tamanho da área e da complexidade do processo. Estima-se que o esquema tenha movimentado milhões de reais nos últimos anos.

Conexão com crimes ambientais

A investigação revelou que parte das terras griladas estava sendo utilizada para atividades ilegais de desmatamento e queimadas no Pantanal. A PF identificou que alguns dos incêndios que devastaram a região em 2024 e 2025 ocorreram em áreas com registros fundiários fraudulentos.

"Existe uma conexão direta entre a grilagem de terras e os crimes ambientais no Pantanal", explicou o delegado responsável pela operação. "Os grileiros desmatam e queimam para transformar a terra em pastagem ou lavoura, aumentando seu valor de mercado antes de vendê-la."

A Base Quadrante, criada como resposta à crise ambiental no Pantanal, tornou-se um centro de inteligência para investigações que envolvem crimes fundiários e ambientais na região. A unidade conta com apoio do Ibama, do ICMBio e da Polícia Militar Ambiental de MS.

Mandados e apreensões

Durante a operação, foram cumpridos 8 mandados de busca e apreensão em Corumbá, Campo Grande e Miranda. Os policiais federais apreenderam computadores, documentos, telefones celulares e mídias de armazenamento que serão periciados para identificar a extensão do esquema.

Não houve prisões nesta fase da operação, mas os investigados foram intimados a prestar depoimento na sede da PF em Campo Grande. Os crimes investigados incluem:

  • Estelionato qualificado (art. 171, §3º do CP) — pena de 4 a 8 anos
  • Falsidade ideológica (art. 299 do CP) — pena de 1 a 5 anos
  • Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do CP) — pena de 1 a 4 anos
  • Associação criminosa (art. 288 do CP) — pena de 1 a 3 anos
  • Crimes contra a administração pública — penas variadas

Impacto na regularização fundiária

O esquema de fraude prejudica diretamente os esforços de regularização fundiária legítima em Mato Grosso do Sul. O estado possui uma das maiores áreas de terras devolutas do país, e a manipulação de sistemas federais dificulta a identificação de propriedades irregulares.

O Incra em MS informou que está colaborando com as investigações e que implementará medidas adicionais de segurança em seus sistemas para evitar novas fraudes. Entre as ações previstas estão:

  1. Auditoria completa nos registros fundiários da região do Pantanal
  2. Implementação de autenticação em duas etapas para acesso aos sistemas
  3. Cruzamento de dados com imagens de satélite para verificar ocupação real
  4. Parceria com cartórios para validação de documentos

Contexto histórico da grilagem em MS

Mato Grosso do Sul tem um histórico de conflitos fundiários que remonta à sua criação como estado, em 1977. A divisão de Mato Grosso deixou pendências na regularização de terras que persistem até hoje, criando um ambiente propício para a grilagem.

Segundo dados do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS), aproximadamente 15% do território estadual ainda possui situação fundiária indefinida. No Pantanal, esse percentual pode chegar a 25% em algumas áreas, especialmente nas regiões de difícil acesso.

A Operação Terra Forjada representa mais um esforço da PF para combater a grilagem de terras em MS, que já foi alvo de outras operações como a Operação Faroeste (2019) e a Operação Caipora (2023).

Canais de denúncia

A população pode denunciar irregularidades fundiárias e crimes ambientais pelos seguintes canais:

  • Disque-Denúncia PF: 181
  • Linha Verde Ibama: 0800 618 080
  • Ouvidoria do Incra: 0800 725 2505
  • Base Quadrante (Corumbá): (67) 3231-2500

A PF informou que a operação continua em andamento e que novas fases podem ser deflagradas à medida que a análise do material apreendido revelar outros envolvidos no esquema.

Fonte: Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Incra

💰 Dimensão do esquema

1

Empresas investigadas

2

2

Pessoas investigadas

6

3

Área sob suspeita

Milhares de hectares

4

Região afetada

Pantanal e entorno

Fonte: Polícia Federal

❓ Perguntas Frequentes

Grilagem é a apropriação ilegal de terras públicas ou de terceiros por meio de documentos falsos. O termo vem da prática antiga de colocar documentos em caixas com grilos para que parecessem envelhecidos e legítimos.

Os criminosos manipulam dados em sistemas como o SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária) e o CAR (Cadastro Ambiental Rural) para criar registros falsos de propriedade, dificultando a identificação das terras como públicas ou de terceiros.

#PF#operação#grilagem#terras#fraude#Corumbá#Pantanal#MS
Compartilhar:f𝕏watg
CF

Camila Ferreira

Repórter