PF deflagra Operação Terra Forjada contra fraude em sistemas federais usada para grilagem de terras em MS
Investigação mira esquema que manipulava dados fundiários para simular posse sobre áreas rurais; ação partiu da Base Quadrante em Corumbá

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, a Operação Terra Forjada para combater um sofisticado esquema de fraude em sistemas públicos federais utilizado para "esquentar" processos de grilagem de terras em Mato Grosso do Sul. A ação tem como alvo duas empresas e seis pessoas suspeitas de manipular dados fundiários para simular domínio ou posse sobre extensas áreas rurais.
As investigações tiveram início na Base Quadrante, unidade da PF instalada em Corumbá durante a seca extrema e os incêndios devastadores que atingiram o Pantanal em 2024. Durante as operações de combate aos crimes ambientais, os agentes identificaram irregularidades em registros fundiários de propriedades na região pantaneira.
Modus operandi do esquema
Segundo a PF, os investigados utilizavam conhecimentos técnicos avançados para acessar e manipular dados em sistemas federais de gestão fundiária. O esquema envolvia a alteração de informações no SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária), no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e em bases de dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
O processo de "esquentamento" das terras griladas seguia etapas bem definidas:
| Etapa | Ação | Objetivo |
|---|---|---|
| 1 | Identificação de terras devolutas | Mapear áreas sem registro formal |
| 2 | Criação de documentos falsos | Simular cadeia dominial |
| 3 | Inserção de dados nos sistemas | Dar aparência de legalidade |
| 4 | Obtenção de certidões | Legitimar a posse fraudulenta |
| 5 | Venda ou exploração | Lucrar com a terra grilada |
Os criminosos cobravam entre R$ 50 mil e R$ 200 mil por operação de regularização fraudulenta, dependendo do tamanho da área e da complexidade do processo. Estima-se que o esquema tenha movimentado milhões de reais nos últimos anos.
Conexão com crimes ambientais
A investigação revelou que parte das terras griladas estava sendo utilizada para atividades ilegais de desmatamento e queimadas no Pantanal. A PF identificou que alguns dos incêndios que devastaram a região em 2024 e 2025 ocorreram em áreas com registros fundiários fraudulentos.
"Existe uma conexão direta entre a grilagem de terras e os crimes ambientais no Pantanal", explicou o delegado responsável pela operação. "Os grileiros desmatam e queimam para transformar a terra em pastagem ou lavoura, aumentando seu valor de mercado antes de vendê-la."
A Base Quadrante, criada como resposta à crise ambiental no Pantanal, tornou-se um centro de inteligência para investigações que envolvem crimes fundiários e ambientais na região. A unidade conta com apoio do Ibama, do ICMBio e da Polícia Militar Ambiental de MS.
Mandados e apreensões
Durante a operação, foram cumpridos 8 mandados de busca e apreensão em Corumbá, Campo Grande e Miranda. Os policiais federais apreenderam computadores, documentos, telefones celulares e mídias de armazenamento que serão periciados para identificar a extensão do esquema.
Não houve prisões nesta fase da operação, mas os investigados foram intimados a prestar depoimento na sede da PF em Campo Grande. Os crimes investigados incluem:
- Estelionato qualificado (art. 171, §3º do CP) — pena de 4 a 8 anos
- Falsidade ideológica (art. 299 do CP) — pena de 1 a 5 anos
- Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do CP) — pena de 1 a 4 anos
- Associação criminosa (art. 288 do CP) — pena de 1 a 3 anos
- Crimes contra a administração pública — penas variadas
Impacto na regularização fundiária
O esquema de fraude prejudica diretamente os esforços de regularização fundiária legítima em Mato Grosso do Sul. O estado possui uma das maiores áreas de terras devolutas do país, e a manipulação de sistemas federais dificulta a identificação de propriedades irregulares.
O Incra em MS informou que está colaborando com as investigações e que implementará medidas adicionais de segurança em seus sistemas para evitar novas fraudes. Entre as ações previstas estão:
- Auditoria completa nos registros fundiários da região do Pantanal
- Implementação de autenticação em duas etapas para acesso aos sistemas
- Cruzamento de dados com imagens de satélite para verificar ocupação real
- Parceria com cartórios para validação de documentos
Contexto histórico da grilagem em MS
Mato Grosso do Sul tem um histórico de conflitos fundiários que remonta à sua criação como estado, em 1977. A divisão de Mato Grosso deixou pendências na regularização de terras que persistem até hoje, criando um ambiente propício para a grilagem.
Segundo dados do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS), aproximadamente 15% do território estadual ainda possui situação fundiária indefinida. No Pantanal, esse percentual pode chegar a 25% em algumas áreas, especialmente nas regiões de difícil acesso.
A Operação Terra Forjada representa mais um esforço da PF para combater a grilagem de terras em MS, que já foi alvo de outras operações como a Operação Faroeste (2019) e a Operação Caipora (2023).
Canais de denúncia
A população pode denunciar irregularidades fundiárias e crimes ambientais pelos seguintes canais:
- Disque-Denúncia PF: 181
- Linha Verde Ibama: 0800 618 080
- Ouvidoria do Incra: 0800 725 2505
- Base Quadrante (Corumbá): (67) 3231-2500
A PF informou que a operação continua em andamento e que novas fases podem ser deflagradas à medida que a análise do material apreendido revelar outros envolvidos no esquema.
Fonte: Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Incra
💰 Dimensão do esquema
Empresas investigadas
2
Pessoas investigadas
6
Área sob suspeita
Milhares de hectares
Região afetada
Pantanal e entorno
Fonte: Polícia Federal
❓ Perguntas Frequentes
Grilagem é a apropriação ilegal de terras públicas ou de terceiros por meio de documentos falsos. O termo vem da prática antiga de colocar documentos em caixas com grilos para que parecessem envelhecidos e legítimos.
Os criminosos manipulam dados em sistemas como o SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária) e o CAR (Cadastro Ambiental Rural) para criar registros falsos de propriedade, dificultando a identificação das terras como públicas ou de terceiros.
Camila Ferreira
Repórter
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