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terça-feira, 14 de abril de 2026
🚔 Polícia

Prefeitura decreta luto após feminicídio de servidora em Eldorado

Décimo caso de feminicídio em MS em 2026 vitimou funcionária pública do município e autor foi preso em flagrante

Patrícia Souza7 min de leituraEldorado
Prefeitura decreta luto após feminicídio de servidora em Eldorado

Eldorado amanheceu de luto nesta segunda-feira (13). A prefeitura decretou três dias de luto oficial após o feminicídio de uma servidora pública municipal, assassinada pelo companheiro no fim de semana. É o décimo feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em 2026. O autor foi preso em flagrante.

O Que Aconteceu

O crime aconteceu na noite de sábado (12), na residência do casal no centro de Eldorado, município de 12 mil habitantes no extremo sul de MS, a 450 quilômetros de Campo Grande. A vítima — servidora do setor administrativo da prefeitura, de 38 anos — foi encontrada sem vida por vizinhos que ouviram gritos e acionaram a PM.

O companheiro, de 43 anos, foi encontrado na residência e preso em flagrante. A Polícia Civil de Eldorado registrou o caso como feminicídio qualificado. A arma do crime não foi divulgada pela polícia por questões de sigilo investigativo.

A prefeitura publicou decreto de luto oficial de três dias na manhã desta segunda-feira. Bandeiras nos prédios públicos foram colocadas a meio-mastro. O prefeito suspendeu a agenda oficial e participou do velório, realizado no salão paroquial da Igreja Matriz.

"Ela era querida por todos. Trabalhava aqui há mais de 8 anos, sempre dedicada. A cidade inteira está em choque", disse o secretário de Administração da prefeitura.

A vítima deixa dois filhos, de 12 e 16 anos, que estavam na casa de parentes no momento do crime. O Conselho Tutelar foi acionado e os adolescentes foram encaminhados aos avós maternos.

Familiares da vítima relataram à polícia que o casal tinha histórico de brigas, mas que a servidora nunca registrou boletim de ocorrência nem solicitou medida protetiva. "Ela tinha medo. Dizia que se denunciasse, ia piorar. E piorou do mesmo jeito", contou uma irmã da vítima ao Campo Grande News.

Contexto e Histórico

Eldorado é um município pequeno, com economia baseada na agricultura familiar e na pecuária. A cidade não tem delegacia especializada de atendimento à mulher — a DEAM mais próxima fica em Mundo Novo, a 60 quilômetros. Casos de violência doméstica são registrados na delegacia comum, o que pode inibir denúncias.

O feminicídio de Eldorado é o décimo em MS em 2026 — em apenas 103 dias de ano. O ritmo é de um feminicídio a cada 10 dias, superior ao de 2025, quando a média foi de um a cada 11 dias. Se o ritmo se mantiver, o estado pode ultrapassar 36 feminicídios até o final do ano.

A Sejusp aponta que 82% dos feminicídios em MS são cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Em 65% dos casos, havia histórico de violência doméstica anterior — mas apenas 30% das vítimas tinham medida protetiva vigente. A lacuna entre a violência sofrida e a denúncia formal é o ponto mais crítico.

"A mulher do interior tem menos acesso à rede de proteção. Não tem DEAM, não tem Casa da Mulher, não tem Patrulha Maria da Penha. Tem a delegacia comum, onde muitas vezes o delegado é homem e o atendimento não é especializado", explicou a coordenadora da Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher de MS.

Em 2025, o MPMS ajuizou 12 ações contra municípios de MS por falta de estrutura de atendimento à mulher vítima de violência. Eldorado não estava entre os acionados, mas a ausência de DEAM no município é reconhecida como vulnerabilidade.

A nova Lei 15.383/2026, sancionada pelo presidente Lula na semana passada, obriga o uso imediato de tornozeleira eletrônica em agressores de violência doméstica quando houver medida protetiva. Mas a lei só funciona se a vítima denunciar — e muitas não denunciam.

O calor de 37°C que castigava Eldorado no sábado à noite contrastava com o silêncio pesado que tomou conta da cidade após a notícia. Na rua principal, o comércio fechou as portas mais cedo nesta segunda. "Todo mundo conhece todo mundo aqui. Quando acontece uma coisa dessas, a cidade inteira sente", disse o dono de um mercado no centro.

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Eldorado funciona com equipe de três profissionais — uma psicóloga, uma assistente social e uma administrativa — para atender toda a demanda de violência doméstica, abuso infantil e situações de vulnerabilidade do município. Em 2025, o Creas registrou 74 atendimentos relacionados a violência contra a mulher, mas apenas 21 resultaram em boletim de ocorrência. A diferença entre os números revela o abismo entre buscar ajuda e formalizar a denúncia. A psicóloga do Creas relatou que muitas mulheres procuram o serviço em horário comercial, quando o agressor está trabalhando, e pedem sigilo absoluto — temem que a informação vaze na cidade pequena, onde o balconista da farmácia é primo do vizinho que é compadre do agressor.

A Patrulha Maria da Penha, programa que realiza visitas periódicas a mulheres com medida protetiva, existe em apenas 7 dos 79 municípios de MS: Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Corumbá, Ponta Porã, Naviraí e Nova Andradina. Nos demais 72 municípios, a fiscalização do cumprimento de medidas protetivas depende do efetivo regular da PM, que raramente tem condições de fazer rondas específicas. O resultado: em 43% dos feminicídios registrados em MS entre 2022 e 2025, o agressor já havia descumprido medida protetiva anterior sem sofrer consequência.

Impacto Para a População

O feminicídio em Eldorado expõe a vulnerabilidade de mulheres em municípios pequenos do interior de MS.

Aspecto Detalhe
Vítima Servidora pública, 38 anos
Autor Companheiro, 43 anos, preso
Local Centro de Eldorado-MS
Feminicídio em MS (2026) 10º caso
Ritmo 1 a cada 10 dias
Medida protetiva Não tinha
Histórico de violência Sim (não registrado)
DEAM mais próxima Mundo Novo (60 km)
Filhos 2 (12 e 16 anos)
Luto oficial 3 dias

Para os dois filhos adolescentes, a perda da mãe e a prisão do padrasto significam ruptura total da estrutura familiar. O acompanhamento psicológico e social será determinante para o futuro deles.

Para as mulheres de Eldorado e de municípios pequenos de MS, o caso reforça a necessidade de canais de denúncia acessíveis e de rede de proteção que funcione fora das capitais.

O Que Dizem os Envolvidos

O prefeito de Eldorado disse em nota: "Perdemos uma servidora dedicada e uma cidadã exemplar. Decretamos luto oficial e nos solidarizamos com a família. A violência contra a mulher é inaceitável."

A Polícia Civil informou que o autor confessou o crime e que o inquérito será concluído em até 30 dias. "Ele será indiciado por feminicídio qualificado", disse o delegado.

O MPMS informou que "acompanha o caso e que vai requerer a prisão preventiva na audiência de custódia".

Próximos Passos

A audiência de custódia do autor deve acontecer nesta terça-feira (14). O MPMS vai pedir a conversão da prisão em flagrante em preventiva.

A prefeitura de Eldorado anunciou que vai criar um canal de denúncia de violência doméstica vinculado à Secretaria de Assistência Social, com atendimento por WhatsApp.

A Sejusp estuda a implantação de Patrulha Maria da Penha em municípios com mais de 10 mil habitantes que não possuem DEAM, incluindo Eldorado.

Fechamento

Dez feminicídios em 103 dias. Um a cada dez dias. O décimo foi em Eldorado, cidade de 12 mil habitantes onde todo mundo se conhece. A servidora trabalhava na prefeitura há 8 anos, tinha dois filhos e nunca denunciou as agressões. Tinha medo. O medo não a protegeu. Denúncias de violência doméstica: 180 (Central da Mulher, 24h, anônimo) ou 190 (PM). A ligação pode salvar uma vida.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Prefeitura de Eldorado (eldorado.ms.gov.br)
  • Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br)
  • MPMS (mpms.mp.br)

💰 Feminicídio em Eldorado

1

Vítima

Servidora pública municipal

2

Caso em MS (2026)

10º feminicídio

3

Autor

Preso em flagrante

4

Luto oficial

3 dias

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

Uma servidora pública da prefeitura de Eldorado, município de 12 mil habitantes no sul de Mato Grosso do Sul, foi assassinada pelo companheiro em crime classificado como feminicídio. O autor foi preso em flagrante pela Polícia Militar. A prefeitura decretou luto oficial de três dias e suspendeu atividades em homenagem à funcionária, que trabalhava no setor administrativo há mais de 8 anos. O caso é o décimo feminicídio registrado em MS em 2026. A vítima não tinha medida protetiva vigente contra o autor, embora familiares relatem histórico de agressões anteriores não registradas.

Até abril de 2026, Mato Grosso do Sul registrou pelo menos 10 feminicídios, segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública). O número coloca o estado em ritmo superior ao de 2025, quando foram 34 feminicídios no ano inteiro. A maioria das vítimas tinha entre 25 e 45 anos, e em mais de 80% dos casos o autor era companheiro ou ex-companheiro. Campo Grande concentra cerca de 30% dos casos, mas municípios do interior — como Eldorado, Dourados e Ponta Porã — também registram índices elevados proporcionalmente à população.

Luto oficial é um decreto do poder público que reconhece formalmente o pesar pela morte de uma pessoa ou por uma tragédia. No caso de Eldorado, o decreto de luto de três dias implica bandeiras a meio-mastro nos prédios públicos, suspensão de eventos festivos promovidos pela prefeitura e, em alguns casos, dispensa de ponto para servidores que desejarem participar do velório e sepultamento. O luto oficial não tem força de lei para o setor privado, mas é um gesto simbólico importante que reconhece a gravidade do crime e presta solidariedade à família da vítima e à comunidade.

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PS

Patrícia Souza

Repórter