Morador Resgata Jiboia em Travessia de Avenida na Região da Popular em Campo Grande
Serpente de grande porte tentava cruzar a Avenida José Barbosa Rodrigues após chuvas; motoristas pararam e morador devolveu o réptil à mata em segurança.

O início da manhã desta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, reservou um flagrante surpreendente de convivência entre a rotina urbana e a rica biodiversidade sul-mato-grossense na Região Oeste de Campo Grande. Condutores que trafegavam pela Avenida José Barbosa Rodrigues, nas imediações da ponte de acesso à região do Bairro Popular e Vila Nasser, foram surpreendidos por uma serpente de grande porte que cruzava lentamente a pista de asfalto molhada.
O episódio ocorreu por volta das 7 horas da manhã, em pleno horário de pico de circulação escolar e de trabalhadores. Ao notar o réptil estendido sobre a via sob risco iminente de atropelamento, motoristas reduziram a velocidade e pararam seus automóveis, formando um bloqueio momentâneo de segurança. Na sequência, um morador que levava crianças para a escola aproximou-se com cautela e ajudou a serpente a concluir a travessia até a mata ciliar que margeia o córrego, devolvendo-a ao seu habitat natural e restabelecendo o fluxo do trânsito sem ferimentos para pedestres ou para o animal.
O caso chamou a atenção de quem passava pelo local e reacende o debate sobre a circulação de fauna silvestre nas vias públicas da capital após os temporais recentes que atingiram o estado. Analistas e biólogos consultados apontam que o espécime, com cerca de dois metros de comprimento, apresenta características compatíveis com uma jiboia (Boa constrictor), espécie nativa do Cerrado e não peçonhenta que desempenha papel essencial no controle biológico de roedores e pragas urbanas.
O Que Aconteceu
O flagrante na Avenida José Barbosa Rodrigues mobilizou motoristas e pedestres que passavam pela entrada do Bairro Popular logo nas primeiras horas do dia. A pista, ainda úmida em virtude das chuvas registradas durante a madrugada, refletia a iluminação matinal quando a serpente iniciou a travessia de uma das faixas de rolamento em direção à margem oposta.
Ao avistar o animal sobre o pavimento, condutores acionaram as luzes de emergência dos veículos para sinalizar o obstáculo aos motoristas que desciam a via. Em seguida, um dos moradores desceu do automóvel e, munido de prudência e tranquilidade, direcionou o corpo do réptil para fora da pista de rolamento, guiando-o de volta à vegetação densa que acompanha a galeria de drenagem pluvial da ponte.
A fotografia captada no local por testemunhas mostra a serpente estendida em linha diagonal no asfalto molhado. Pelo padrão de manchas dorsais geométricas, formato da cabeça e silhueta corporal robusta, a avaliação preliminar de especialistas aponta para um exemplar saudável de jiboia (Boa constrictor), amplamente encontrada em fragmentos florestais e matas de galeria urbanas de Campo Grande.
"A atitude de parar os veículos e evitar o atropelamento demonstra a sensibilidade da população campo-grandense com a fauna silvestre. No entanto, orientamos que intervenções manuais diretas sejam evitadas sempre que possível, priorizando a sinalização de trânsito e o acionamento dos órgãos especializados para que o manejo seja feito com os equipamentos técnicos de proteção", destaca o protocolo operacional da Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul (PMA-MS).
Jiboia ou Sucuri? Diferenças Anatômicas e Ecológicas
Nas matas de galeria e bacias hidrográficas que entrecortam o perímetro urbano de Campo Grande — a exemplo dos vales dos córregos Imbirussu, Segredo, Prosa e Anhanduí —, tanto a jiboia (Boa constrictor) quanto a sucuri-verde (Eunectes murinus) encontram abrigo natural. A aparição de serpentes de porte avantajado frequentemente gera dúvidas imediatas entre moradores sobre a identificação e os eventuais riscos de cada espécie.
Embora ambas pertençam à família Boidae e compartilhem a condição de animais constritores desprovidos de veneno, as duas serpentes apresentam diferenças morfológicas, anatômicas e ecológicas significativas. A jiboia é uma espécie de hábitos predominantemente terrestres e semiarborícolas, capaz de subir em troncos e arbustos secos para descansar e caçar, exibindo tons terrosos de bege, cinza e castanho com manchas em formato de sela e cauda avermelhada. Por outro lado, a sucuri-verde possui corpo mais denso e pesado, coloração verde-oliva com manchas oceladas escuras e dependência estrita de ecossistemas aquáticos, como brejos, lagoas e córregos de fluxo constante.
A tabela a seguir consolida as características comparativas essenciais entre as duas espécies:
| Critério de Comparação | Jiboia (Boa constrictor) | Sucuri (Eunectes murinus) |
|---|---|---|
| Padrão de Cor e Desenho | Tons de bege, castanho e cinza com manchas geométricas dorsais; cauda avermelhada | Verde-oliva ou marrom-escuro com manchas circulares pretas espalhadas pelo dorso |
| Habitat Predileto | Terrestre e semiarborícola (matas secas, capões, troncos caídos e galhos) | Estritamente aquático e semiaquático (brejos, banhados, riachos e várzeas) |
| Comprimento Médio Adulto | Entre 1,5 e 2,5 metros (raramente ultrapassa 3 metros) | Entre 3,0 e 6,0 metros (uma das maiores serpentes do planeta) |
| Presença de Veneno | Não peçonhenta (glândulas inoculadoras de veneno ausentes) | Não peçonhenta (glândulas inoculadoras de veneno ausentes) |
| Mecanismo de Captura | Emboscada e constrição mecânica através de anéis musculares | Emboscada aquática, arrasto e constrição vigorosa submersa |
| Comportamento Defensivo | Emissão de silvo característico (bufar) e postura em 'S'; morde se encurralada | Fuga rápida para a água profunda; descarga cloacal e mordidas defensivas |
| Dieta na Natureza | Pequenos mamíferos, roedores, aves, morcegos e lagartos | Peixes grandes, aves aquáticas, jacarés e mamíferos de médio porte |
No registro fotográfico realizado na Avenida José Barbosa Rodrigues, a coloração bege-acastanhada, o corpo esguio e o desenho dorsal em losangos confirmam a hipótese predominante de se tratar de uma jiboia. Nenhuma das duas espécies utiliza toxinas peçonhentas para caçar: ambas imobilizam suas presas comprimindo a caixa torácica com a musculatura do corpo, impedindo a respiração e a circulação sanguínea do animal capturado.
Por Que Répteis Aparecem em Avenidas? O Fator Chuvas e Habitat Urbano
A presença de grandes répteis em eixos viários asfaltados de Campo Grande não é um acontecimento isolado ou casual. O município possui uma topografia recortada por dezenas de fundos de vale, bacias hidrográficas e reservas biológicas preservadas que funcionam como corredores ecológicos contínuos entre o perímetro habitado e as zonas rurais do estado.
Nas últimas 48 horas, tempestades com precipitação acumulada e fortes rajadas de vento atingiram a capital e o interior de Mato Grosso do Sul, provocando a saturação rápida do solo e a elevação momentânea do nível das águas pluviais nos córregos da bacia do Imbirussu. De acordo com pesquisadores do Instituto Butantan e biólogos especialistas em herpetologia, esse excesso hídrico atua como um gatilho direto para o deslocamento forçado de animais silvestres:
- Alagamento de Tocas e Abrigos Naturais: Têmporas de chuva intensa encharcam fendas de barrancos, raízes ocas de árvores e tocas subterrâneas cavadas por tatus e roedores, obrigando as serpentes a abandonar seus abrigos habituais em busca de superfícies secas e elevadas para não se afogarem.
- Necessidade Vital de Termorregulação: Serpentes são animais ectotérmicos (pecilotérmicos), o que significa que sua temperatura corpórea depende exclusivamente de fontes externas de calor. O asfalto escuro das avenidas absorve e retém o calor solar mesmo em manhãs nubladas, tornando-se uma superfície atrativa para que o réptil recupere energia e ative sua circulação metabólica.
- Fragmentação de Corredores de Caça: A expansão viária cruza várzeas e fundos de vale nativos. Quando uma jiboia precisa se deslocar de um fragmento de mata para outro em busca de alimento, depara-se com as faixas de rolamento construídas diretamente sobre suas rotas tradicionais de passagem.
- Deslocamento Forçado de Presas: O volume repentino de enxurradas expulsa ratos, preás, anfíbios e pequenas aves de suas tocas próximas às galerias pluviais. Ao rastrear esses animais pelo olfato termossensível, os predadores naturais acabam alcançando o leito asfaltado das avenidas.
Dessa forma, compreender que a serpente encontrada na entrada do Bairro Popular não estava "perdida", mas sim se deslocando em seu corredor ambiental histórico, é fundamental para que a sociedade trate o encontro com equilíbrio e responsabilidade coletiva.
Riscos de Atropelamento e a Preservação da Biodiversidade
O atropelamento viário configura uma das mais graves ameaças à conservação da fauna silvestre no território brasileiro. Estudos desenvolvidos pelo Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) indicam que centenas de milhões de vertebrados morrem todos os anos atropelados nas rodovias e vias urbanas do país, sendo répteis e anfíbios as classes mais atingidas pela locomoção lenta sobre superfícies pavimentadas.
Além da velocidade do tráfego automotivo, esses animais enfrentam a barreira cultural do medo e da desinformação. Por preconceito ou desconhecimento sobre a ausência de veneno em espécies como a jiboia, muitos condutores chegam a acelerar intencionalmente contra cobras na pista, eliminando animais vitais para a saúde pública e para o equilíbrio ambiental das cidades.
A atitude exemplar observada na Avenida José Barbosa Rodrigues, na qual os cidadãos preferiram interromper momentaneamente o tráfego e prestar auxílio ao réptil, simboliza um avanço relevante na conscientização ambiental em Campo Grande. As jiboias prestam serviços ecossistêmicos indispensáveis à sociedade:
- Controle Sanitário de Zoonoses Urbanas: Uma única jiboia adulta consome dezenas de roedores ao longo dos meses. Ao caçar ratos-de-esgoto e camundongos que se proliferam em terrenos e galerias, as serpentes auxiliam diretamente no controle da leptospirose, da hantavirose e de outras infecções graves transmissíveis aos seres humanos.
- Estabilidade da Teia Alimentar: Como predadoras de topo em fragmentos de mata urbana, as serpentes regulam populações de anfíbios, lagartos e pequenas aves, evitando infestações descontroladas nas vizinhanças residenciais vizinhas a parques.
- Manutenção da Identidade Ecológica Regional: Mato Grosso do Sul é internacionalmente reconhecido por sua vocação ambiental e pelo ecoturismo no Pantanal e em Bonito. A coexistência pacífica com a fauna nativa dentro dos centros urbanos fortalece o compromisso conservacionista do estado.
Orientações Oficiais da Polícia Militar Ambiental e Bombeiros
O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul (193) e a Polícia Militar Ambiental (190) mantêm equipes especializadas em captura e resgate de fauna silvestre de prontidão diária para atender ocorrências em todo o estado. Embora a ação do morador na Avenida José Barbosa Rodrigues tenha terminado de forma positiva, as forças de segurança reforçam recomendações fundamentais para evitar acidentes:
- Evitar Manejo Manual Desprotegido: Mesmo sem possuir glândulas de veneno, jiboias adultas dispõem de dezenas de dentes pontiagudos curvados para trás e forte pressão mandibular. Quando assustadas ou acuadas, podem morder para se defender, provocando lacerações cutâneas dolorosas e suscetíveis a infecções bacterianas.
- Sinalizar a Pista à Distância Segura: O motorista que identificar um animal atravessando a rodovia deve diminuir a velocidade, acionar o pisca-alerta e parar em local seguro antes da serpente, alertando os veículos de trás para evitar colisões traseiras ou atropelamentos da fauna.
- Afastar Espectadores e Cães Domésticos: Crianças e animais de estimação devem ser mantidos a uma distância prudente. Cães soltos costumam latir e avançar contra serpentes na via pública, gerando reações defensivas violentas do réptil e ferimentos graves no focinho dos cães.
- Acionamento Técnico pelos Telefones 190 e 193: Caso a serpente permaneça na pista, adentre quintais, garagens, motores de veículos ou recintos comerciais, o protocolo correto é ligar para a PMA ou para os Bombeiros. Os agentes utilizam ganchos herpetológicos, cambões e caixas de transporte apropriadas para recolher o animal sem machucá-lo, realizando a soltura em áreas de reserva legal.
O Que Fazer ao Encontrar uma Serpente em Vias Públicas
O encontro com animais da fauna silvestre em perímetros urbanos exige serenidade, respeito e cumprimento das orientações sanitárias e ambientais estabelecidas pelas autoridades de Mato Grosso do Sul. Seguir os passos adequados garante tanto a integridade dos moradores quanto a preservação dos animais:
- Mantenha a Calma e Não Encurralhe o Animal: Serpentes não atacam seres humanos por iniciativa própria; elas reagem defensivamente apenas quando sentem seu espaço invadido ou quando são tocadas. Deixe sempre uma rota de fuga desimpedida para que o réptil possa retornar à mata espontaneamente.
- Não Tente Identificar a Espécie por Proximidade Arriscada: Muitas espécies inofensivas mimetizam padrões de serpentes peçonhentas (como jararacas e corais). Sem treinamento técnico em biologia ou medicina veterinária, aproxime-se apenas o suficiente para sinalização e nunca toque com as mãos no corpo do animal.
- Respeite a Legislação Ambiental Brasileira: Matar, ferir, perseguir ou maltratar animais silvestres configura crime ambiental previsto no Artigo 29 da Lei Federal nº 9.605/1998, sujeito a penas de detenção e multas financeiras pesadas.
- Valorize a Ação Comunitária Consciente: O salvamento registrado na entrada da Popular em Campo Grande demonstra que a harmonia entre o crescimento urbano e a biodiversidade local é perfeitamente viável quando a comunidade adota atitudes solidárias e conscientes de preservação da vida.
Fonte: Polícia Militar Ambiental (PMA-MS) / Corpo de Bombeiros (CBMMS) / Instituto Butantan / Direto das Ruas
❓ Perguntas Frequentes
A jiboia (Boa constrictor) possui coloração padrão com tons terrosos, marrom, bege e cinza, exibindo manchas dorsais geométricas irregulares com cauda avermelhada e corpo adaptado a ambientes terrestres, matas secas e galhos de árvores. Já a sucuri-verde (Eunectes murinus) apresenta porte muito mais musculoso, pesado e cilíndrico, tonalidade verde-oliva ou amarelada com manchas circulares pretas espalhadas pelo dorso, sendo estritamente vinculada a rios, lagoas e banhados. Ambas pertencem à família Boidae e não possuem peçonha, dominando suas presas exclusivamente por constrição mecânica.
Embora desprovidas de glândulas inoculadoras de toxinas peçonhentas, serpentes como jiboias e sucuris adultas possuem dezenas de dentes recurvados e afiados voltados para o interior da mandíbula, capazes de infligir lacerações profundas e dolorosas quando o animal se sente encurralado ou ameaçado. Além disso, a cavidade oral desses répteis abriga colônias bacterianas que podem provocar infecções secundárias graves nos tecidos humanos. Por essa razão, a Polícia Militar Ambiental recomenda nunca tentar segurar o animal com as mãos desprotegidas ou sem capacitação técnica.
A recomendação formal da Polícia Militar Ambiental (PMA-MS) e do Corpo de Bombeiros Militar (193) determina que os motoristas diminuam a velocidade, acionem o pisca-alerta para sinalizar a via aos demais condutores e aguardem a travessia espontânea à distância segura. Caso o animal esteja machucado, encalhado em local de atropelamento iminente ou ofereça risco à vizinhança urbana, o cidadão deve ligar para o telefone 190 ou 193 solicitando o envio de uma equipe técnica equipada com ganchos e caixas de transporte.
Redação Foco do Estado
Repórter
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