Vape na UTI: Casos Reais de Câncer e Pulmão Colapsado Acendem Alerta no Brasil
O avanço silencioso de graves doenças respiratórias e tumores em jovens brasileiros usuários de cigarro eletrônico expõe a gravidade do vício.

Vape na UTI: Casos Reais de Câncer e Pulmão Colapsado Acendem Alerta no Brasil
A promessa de uma alternativa "moderna, cheirosa e inofensiva" ao tabaco tradicional transformou os cigarros eletrônicos — popularmente conhecidos como vapes ou pods — em uma febre entre os jovens brasileiros. No entanto, por trás das nuvens espessas com aroma de frutas, esconde-se uma bomba química que tem levado usuários saudáveis diretamente para os leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) em todo o país.
Apesar de a comercialização, importação e propaganda de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) serem expressamente proibidas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009 — proibição reforçada e mantida pela RDC nº 855/2024 —, o comércio ilegal nas ruas e na internet expõe milhares de jovens a substâncias altamente tóxicas.
Casos clínicos graves e relatos de sequelas permanentes multiplicam-se nos hospitais, destruindo o mito de que o cigarro eletrônico é apenas "vapor de água".
Casos Reais no Brasil: A Dor Atrás do Vício
O impacto dos dispositivos eletrônicos na saúde de jovens brasileiros não é mais apenas uma estatística distante; ele tem rostos, nomes e histórias de dor que servem como alertas urgentes para a sociedade.
O Caso de Luan: Pulmão Colapsado aos 24 Anos
Luan, um jovem de 24 anos, utilizava cigarro eletrônico de forma prolongada sob a crença de que o hábito era inofensiva. Sua rotina mudou drasticamente quando ele começou a sentir dores agudas no tórax e extrema falta de ar durante atividades físicas simples.
O alerta definitivo veio de sua tia, que é fisioterapeuta e identificou que a respiração de Luan estava gravemente comprometida. Encaminhado às pressas para o hospital, o diagnóstico foi assustador: pneumotórax — um colapso pulmonar em que o ar escapa do pulmão e se acumula no espaço ao redor, impedindo o órgão de inflar. Luan precisou passar por uma cirurgia de emergência e permaneceu cinco dias na UTI lutando para voltar a respirar normalmente.
O Caso de Laura Beatriz: Câncer de Pulmão aos 22 Anos
A história da estudante Laura Beatriz é ainda mais devastadora. Ela iniciou o uso de vapes em 2020, atraída pelo aspecto social do dispositivo. Após quatro anos de uso contínuo e dependência severa da nicotina, Laura começou a apresentar dores recorrentes no peito e forte dificuldade respiratória.
Ao procurar assistência médica e realizar exames de imagem detalhados, veio o diagnóstico que chocou a família: câncer de pulmão em estágio avançado, uma condição extremamente rara para alguém de apenas 22 anos de idade e sem histórico familiar da doença. Para conter o avanço do tumor, Laura teve que se submeter a uma cirurgia de lobectomia (remoção cirúrgica de uma parte de seu pulmão) e iniciar um doloroso tratamento oncológico. Hoje, ela utiliza suas redes sociais como plataforma de conscientização para alertar outros jovens sobre a armadilha mortal do cigarro eletrônico.
O Alerta dos Famosos: Zé Neto e Solange Almeida
O perigo também atingiu celebridades da música brasileira, que usaram sua projeção para expor os danos causados pelo vape:
- Zé Neto (da dupla Zé Neto & Cristiano): Em dezembro de 2021, o cantor sertanejo teve de suspender apresentações após ser diagnosticado com um quadro de "vidro fosco" no pulmão, uma inflamação aguda que reduz a capacidade respiratória. O cantor declarou publicamente que a lesão foi consequência direta do uso excessivo de cigarro eletrônico, que quase destruiu sua capacidade pulmonar para cantar.
- Solange Almeida: A renomeada cantora de forró revelou em outubro de 2023 que o uso de vape por apenas oito a nove meses causou graves lesões em suas cordas vocais e pulmões. A dependência química era tão intensa que ela passou a ter crises de pânico causadas pela falta de ar. Solange precisou fazer um longo tratamento de fonoterapia e acompanhamento médico para recuperar a voz e conseguir voltar aos palcos.
A Ciência do Perigo: O que é a EVALI?
A sigla EVALI (E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury) refere-se à lesão pulmonar aguda associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico ou vaping. Identificada pela primeira vez nos Estados Unidos e amplamente monitorada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a doença causa um processo inflamatório agressivo nos alvéolos pulmonares.
O que causa a EVALI?
Diferente do cigarro tradicional, que queima o tabaco, o vape funciona por meio do aquecimento de um líquido (e-liquid ou juice) para criar um aerossol. Esse líquido é composto por:
- Nicotina Sintética em Altas Doses: Alguns dispositivos contêm sais de nicotina (nic salt) com concentrações tão elevadas que um único pod de descarte pode equivaler à carga de nicotina de 20 a 30 cigarros convencionais. Isso causa dependência química em tempo recorde e eleva a pressão arterial.
- Propilenoglicol e Glicerina Vegetal: Substâncias usadas como base para o líquido. Embora sejam consideradas seguras para ingestão de alimentos, nunca foram testadas ou aprovadas para inalação direta e contínua em altas temperaturas.
- Acetato de Vitamina E: Aditivo frequentemente usado como espessante, especialmente em cartuchos contendo THC (tetrahidrocanabinol). Quando aquecido e inalado, o acetato de vitamina E retorna ao seu estado oleoso dentro do pulmão, aderindo-se aos alvéolos e causando uma pneumonia química gordurosa irreversível (pneumonia lipoídica).
- Metais Pesados e Formaldeído: A bobina metálica que aquece o líquido libera nanopartículas de metais como níquel, chumbo, estanho e cromo, que são depositadas nos tecidos profundos do pulmão. Além disso, o aquecimento excessivo de solventes gera formaldeído, uma substância altamente carcinogênica.
O Caminho da Lesão no Organismo: Do Vape à UTI
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1. Uso do Cigarro Eletrônico (Vape/Pod)
- Ação: O dispositivo aquece o líquido químico (e-liquid) a altas temperaturas para criar o aerossol inalável.
- Efeito: Liberação de uma mistura complexa de substâncias diretamente nas vias aéreas.
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2. Deposição de Substâncias Tóxicas nos Alvéolos
- Metais Pesados e Formaldeído: Partículas de chumbo, níquel e cromo acumulam-se no tecido pulmonar, provocando danos celulares severos a longo prazo.
- Alta Carga de Nicotina: Sobrecarga imediata do sistema cardiovascular e dependência acelerada.
- Acetato de Vitamina E e Solventes: Condensam e voltam ao estado líquido/oleoso nos alvéolos, criando uma barreira física que impede a troca gasosa.
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3. Complicações e Sequelas Graves
- EVALI e Pneumonia Química: Inflamação aguda decorrente do acúmulo de solventes nos pulmões, provocando insuficiência respiratória severa e necessidade de suporte na UTI.
- Pneumotórax (Colapso Pulmonar): Danos profundos na elasticidade alveolar podem causar o rompimento do tecido pulmonar, vazando ar para a cavidade torácica.
A Realidade Oculta: A Luta Contra a Subnotificação no Brasil
A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e a Associação Médica Brasileira (AMB) alertam que o número de casos de EVALI no Brasil é muito maior do que os registros oficiais apontam.
Como a EVALI não era classificada historicamente como uma doença de notificação compulsória nacional, muitos jovens que dão entrada em prontos-socorros com falta de ar aguda e inflamação pulmonar são diagnosticados erroneamente com pneumonia bacteriana comum, asma ou sequela de gripe.
A Mudança na Vigilância em 2025
Para combater essa "epidemia invisível", o Ministério da Saúde, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Anvisa publicaram em junho de 2025 a Nota Técnica Conjunta nº 233/2025. O documento estabelece diretrizes rígidas para que médicos de todo o país identifiquem a EVALI e passem a registrá-la formalmente na Declaração de Óbito (DO) e nos prontuários médicos usando o código U07.0 da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
"A regulamentação e a padronização dos diagnósticos são passos fundamentais para que possamos dimensionar a gravidade do problema no Brasil e subsidiar ações diretas de prevenção escolar e comunitária", destaca a nota do Ministério da Saúde.
Um Apelo de Vida: O Silêncio que Mata
Médicos pneumologistas alertam que o principal obstáculo para o tratamento precoce da EVALI é o silêncio do paciente. Com medo de repreensão dos pais ou devido à proibição legal do produto, muitos adolescentes ocultam o uso do vape quando chegam ao hospital.
Os médicos alertam que a falta de informação sobre o histórico de uso impede a administração correta de corticosteroides e suporte de oxigênio adequados, acelerando a deterioração pulmonar.
A mensagem das famílias de Laura Beatriz e Luan, assim como das equipes médicas brasileiras, é unânime: o cigarro eletrônico não é uma alternativa segura. Ele destrói a juventude por dentro, alvéolo por alvéolo, e o preço do seu uso pode ser a vida.
Fontes e Referências
- Nota Técnica Conjunta nº 233/2025 — Ministério da Saúde, INCA, SVSA, SAPS e Anvisa (gov.br/saude)
- RDC nº 855/2024 (Proibição dos DEFs) — Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa (gov.br/anvisa)
- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) — Alertas epidemiológicos sobre Cigarros Eletrônicos (sbpt.org.br)
- Associação Médica Brasileira (AMB) — Posicionamento científico sobre vapes (amb.org.br)
- Reportagem Especial Record / Fala Brasil — Casos de Luan e Laura Beatriz (r7.com)
- Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC/EUA) — Diretrizes de diagnóstico e fisiopatologia da EVALI (cdc.gov)
💰 Riscos do Vape
Nicotina
Até 20x mais que o cigarro comum
Doença Pulmonar
EVALI (lesão aguda severa)
Regulamentação
Proibido pela Anvisa (RDC 855/2024)
Fonte: Anvisa / Ministério da Saúde / Record / G1 / SBPT
❓ Perguntas Frequentes
EVALI é a sigla em inglês para Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Produtos de Cigarro Eletrônico ou Vaping. É uma inflamação aguda e severa que pode levar à internação em UTI e óbito.
Os principais sintomas incluem falta de ar, dor no peito, tosse persistente, febre, fadiga extrema e, em alguns casos, problemas gastrointestinais como náuseas e vômitos.
Não. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) alerta que os vapes contêm substâncias tóxicas, metais pesados e alta concentração de nicotina, gerando vício mais rápido e lesões agudas severas.
Redação Foco do Estado
Repórter
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