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quinta-feira, 02 de abril de 2026
📚 Educação

Fila de espera por creche em Campo Grande chega a 7,2 mil crianças

Déficit de vagas atinge principalmente bairros periféricos. Mães perdem emprego por falta de onde deixar os filhos. Prefeitura promete 12 novas unidades.

Juliana Mendes7 min de leituraCampo Grande
Fila de espera por creche em Campo Grande chega a 7,2 mil crianças

São 7.218 crianças de 0 a 3 anos na fila de espera por vaga em creche pública ou conveniada em Campo Grande. O número, atualizado em 20 de fevereiro pela Secretaria Municipal de Educação, é o maior da série histórica e representa aumento de 14% sobre fevereiro de 2025 (6.330 crianças).

A rede municipal tem 98 Centros de Educação Infantil (Ceinfs) com capacidade para 14.200 crianças. A demanda total é de 21.418. O déficit: 7.218 vagas — 33,7% da demanda.

Os bairros mais afetados

O Aero Rancho lidera a fila com 890 crianças aguardando vaga. O bairro tem 2 Ceinfs com 280 vagas — para uma demanda de 1.170. A espera média é de 18 meses.

Tiradentes vem em segundo com 720 crianças na fila. Jardim Noroeste, 580. Moreninha, 510. Nova Lima, 440. São os mesmos bairros que lideram em dengue, alagamento e violência. A periferia concentra todos os déficits.

"Eu inscrevi minha filha na creche quando ela tinha 3 meses. Ela fez 2 anos e ainda não chamaram. Perdi dois empregos porque não tinha onde deixar ela", contou Tatiane Oliveira, 26 anos, moradora do Aero Rancho, mãe de duas crianças.

A história de Tatiane se repete milhares de vezes. Pesquisa da Semed de 2025 mostrou que 62% das mães na fila de creche estão desempregadas ou em trabalho informal — e 78% delas citam a falta de creche como principal obstáculo para conseguir emprego formal.

"Creche não é só educação. É política de emprego, de renda, de igualdade de gênero. Mãe sem creche não trabalha. Mãe que não trabalha não tem renda. Família sem renda entra na pobreza. É um ciclo", analisou a professora Dra. Cláudia Lemos, da UFMS.

O custo de uma vaga

Manter uma criança em Ceinf custa R$ 780 por mês ao município — incluindo alimentação (4 refeições por dia), material pedagógico, salário de professores e auxiliares, manutenção do prédio e transporte. Para as 7.218 crianças na fila, o custo mensal seria de R$ 5,6 milhões — R$ 67,5 milhões por ano.

O orçamento da educação infantil de Campo Grande em 2026 é de R$ 312 milhões. Cobrir o déficit exigiria aumento de 21,6% — inviável sem receita nova.

A alternativa que a prefeitura usa é o conveniamento com instituições privadas e filantrópicas. Campo Grande tem 42 creches conveniadas que atendem 3.800 crianças, com repasse municipal de R$ 520 por criança por mês. O custo é 33% menor que o Ceinf público, mas a qualidade varia.

"Tem conveniada que é excelente — espaço amplo, professora formada, alimentação boa. Tem conveniada que é um quartinho com 20 crianças e uma cuidadora sem formação. A fiscalização não dá conta", disse a conselheira do Conselho Municipal de Educação, Rosângela Martins.

As 12 novas unidades prometidas

A prefeitura anunciou em janeiro a construção de 12 novos Ceinfs, com investimento de R$ 84 milhões — R$ 48 milhões do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e R$ 36 milhões de contrapartida municipal. Cada unidade terá capacidade para 180 crianças.

Os bairros contemplados: Aero Rancho (2 unidades), Tiradentes (2), Noroeste (1), Moreninha (1), Nova Lima (1), Seminário (1), Rita Vieira (1), Jardim Aeroporto (1), Pioneiros (1) e Centro-Oeste (1).

O prazo de construção é de 18 meses. Se cumprido, as 12 unidades estarão prontas em julho de 2027, adicionando 2.160 vagas. O déficit cairia de 7.218 para 5.058 — redução de 30%. Significativa, mas insuficiente.

"Doze Ceinfs em 18 meses é ambicioso. A última licitação de Ceinf, em 2023, levou 8 meses só pra homologar. A obra levou 24 meses. Faça a conta realista", ponderou o vereador Professor André, presidente da Comissão de Educação da Câmara.

O que dizem os números nacionais

O Brasil tem 1,8 milhão de crianças de 0 a 3 anos fora da creche, segundo o Censo Escolar 2025. A taxa de atendimento nacional é de 40,2% — abaixo da meta do PNE (Plano Nacional de Educação) de 50% até 2024, que não foi cumprida.

Campo Grande atende 66,3% da demanda — acima da média nacional, mas abaixo de capitais como Curitiba (78%), Florianópolis (82%) e Vitória (85%). O TCE-MS recomendou em relatório de 2025 que o município atinja 75% de cobertura até 2028.

Na porta do Ceinf do Aero Rancho, às 6h45, mães deixavam os filhos antes de correr para o ponto de ônibus. Uma delas, com uniforme de supermercado, beijou a filha de 2 anos na testa e saiu apressada. A menina chorou. A professora pegou no colo. A mãe não olhou pra trás — se olhasse, não ia embora.

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💰 O déficit de creches em CG

1

Crianças na fila

4.800

2

Vagas disponíveis

12.400

3

Déficit total

4.800 vagas

4

Custo por vaga/ano

R$ 8.400

Fonte: Secretaria Municipal de Educação / Semed / TCE-MS

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Como resolver o déficit de creches?

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Juliana Mendes

Repórter