Fila de espera por creche em Campo Grande chega a 7,2 mil crianças
Déficit de vagas atinge principalmente bairros periféricos. Mães perdem emprego por falta de onde deixar os filhos. Prefeitura promete 12 novas unidades.

São 7.218 crianças de 0 a 3 anos na fila de espera por vaga em creche pública ou conveniada em Campo Grande. O número, atualizado em 20 de fevereiro pela Secretaria Municipal de Educação, é o maior da série histórica e representa aumento de 14% sobre fevereiro de 2025 (6.330 crianças).
A rede municipal tem 98 Centros de Educação Infantil (Ceinfs) com capacidade para 14.200 crianças. A demanda total é de 21.418. O déficit: 7.218 vagas — 33,7% da demanda.
Os bairros mais afetados
O Aero Rancho lidera a fila com 890 crianças aguardando vaga. O bairro tem 2 Ceinfs com 280 vagas — para uma demanda de 1.170. A espera média é de 18 meses.
Tiradentes vem em segundo com 720 crianças na fila. Jardim Noroeste, 580. Moreninha, 510. Nova Lima, 440. São os mesmos bairros que lideram em dengue, alagamento e violência. A periferia concentra todos os déficits.
"Eu inscrevi minha filha na creche quando ela tinha 3 meses. Ela fez 2 anos e ainda não chamaram. Perdi dois empregos porque não tinha onde deixar ela", contou Tatiane Oliveira, 26 anos, moradora do Aero Rancho, mãe de duas crianças.
A história de Tatiane se repete milhares de vezes. Pesquisa da Semed de 2025 mostrou que 62% das mães na fila de creche estão desempregadas ou em trabalho informal — e 78% delas citam a falta de creche como principal obstáculo para conseguir emprego formal.
"Creche não é só educação. É política de emprego, de renda, de igualdade de gênero. Mãe sem creche não trabalha. Mãe que não trabalha não tem renda. Família sem renda entra na pobreza. É um ciclo", analisou a professora Dra. Cláudia Lemos, da UFMS.
O custo de uma vaga
Manter uma criança em Ceinf custa R$ 780 por mês ao município — incluindo alimentação (4 refeições por dia), material pedagógico, salário de professores e auxiliares, manutenção do prédio e transporte. Para as 7.218 crianças na fila, o custo mensal seria de R$ 5,6 milhões — R$ 67,5 milhões por ano.
O orçamento da educação infantil de Campo Grande em 2026 é de R$ 312 milhões. Cobrir o déficit exigiria aumento de 21,6% — inviável sem receita nova.
A alternativa que a prefeitura usa é o conveniamento com instituições privadas e filantrópicas. Campo Grande tem 42 creches conveniadas que atendem 3.800 crianças, com repasse municipal de R$ 520 por criança por mês. O custo é 33% menor que o Ceinf público, mas a qualidade varia.
"Tem conveniada que é excelente — espaço amplo, professora formada, alimentação boa. Tem conveniada que é um quartinho com 20 crianças e uma cuidadora sem formação. A fiscalização não dá conta", disse a conselheira do Conselho Municipal de Educação, Rosângela Martins.
As 12 novas unidades prometidas
A prefeitura anunciou em janeiro a construção de 12 novos Ceinfs, com investimento de R$ 84 milhões — R$ 48 milhões do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e R$ 36 milhões de contrapartida municipal. Cada unidade terá capacidade para 180 crianças.
Os bairros contemplados: Aero Rancho (2 unidades), Tiradentes (2), Noroeste (1), Moreninha (1), Nova Lima (1), Seminário (1), Rita Vieira (1), Jardim Aeroporto (1), Pioneiros (1) e Centro-Oeste (1).
O prazo de construção é de 18 meses. Se cumprido, as 12 unidades estarão prontas em julho de 2027, adicionando 2.160 vagas. O déficit cairia de 7.218 para 5.058 — redução de 30%. Significativa, mas insuficiente.
"Doze Ceinfs em 18 meses é ambicioso. A última licitação de Ceinf, em 2023, levou 8 meses só pra homologar. A obra levou 24 meses. Faça a conta realista", ponderou o vereador Professor André, presidente da Comissão de Educação da Câmara.
O que dizem os números nacionais
O Brasil tem 1,8 milhão de crianças de 0 a 3 anos fora da creche, segundo o Censo Escolar 2025. A taxa de atendimento nacional é de 40,2% — abaixo da meta do PNE (Plano Nacional de Educação) de 50% até 2024, que não foi cumprida.
Campo Grande atende 66,3% da demanda — acima da média nacional, mas abaixo de capitais como Curitiba (78%), Florianópolis (82%) e Vitória (85%). O TCE-MS recomendou em relatório de 2025 que o município atinja 75% de cobertura até 2028.
Na porta do Ceinf do Aero Rancho, às 6h45, mães deixavam os filhos antes de correr para o ponto de ônibus. Uma delas, com uniforme de supermercado, beijou a filha de 2 anos na testa e saiu apressada. A menina chorou. A professora pegou no colo. A mãe não olhou pra trás — se olhasse, não ia embora.
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💰 O déficit de creches em CG
Crianças na fila
4.800
Vagas disponíveis
12.400
Déficit total
4.800 vagas
Custo por vaga/ano
R$ 8.400
Fonte: Secretaria Municipal de Educação / Semed / TCE-MS
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
Como resolver o déficit de creches?
Juliana Mendes
Repórter
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