Especial: Os desafios da educação indígena em MS — entre a aldeia e a universidade
Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do Brasil, mas apenas 3% dos jovens guarani e kaiowá concluem o ensino superior. Reportagem mostra avanços e barreiras.

Maria Guarani tem 22 anos, nasceu na Reserva Indígena de Dourados e em agosto defenderá seu trabalho de conclusão de curso em Pedagogia na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Será a primeira pessoa de sua família — que abrange quatro gerações — a obter um diploma universitário. A caminhada até aqui, porém, foi tudo menos linear.
"No primeiro ano, pensei em desistir pelo menos cinco vezes. A universidade é outro mundo. Os horários, a linguagem, a comida, o jeito de se relacionar — tudo é diferente da aldeia. Muitos dos meus parentes não entendiam por que eu precisava passar o dia inteiro fora. E o dinheiro nunca era suficiente", conta Maria, que sustentou os estudos com uma bolsa de R$ 400 do programa de permanência da universidade e trabalho informal nos fins de semana.
A história de Maria é ao mesmo tempo excepcional e representativa. Excepcional porque apenas 3% dos jovens guarani e kaiowá de Mato Grosso do Sul que concluem o ensino médio chegam à universidade — e desses, menos da metade concluem a graduação. Representativa porque os obstáculos que ela enfrentou são compartilhados por praticamente todos os estudantes indígenas que tentam construir uma trajetória acadêmica.
Os números da exclusão
Mato Grosso do Sul abriga aproximadamente 85 mil indígenas — a segunda maior população indígena do Brasil, atrás apenas do Amazonas. As etnias predominantes são Guarani, Kaiowá e Terena, distribuídas em 29 terras indígenas e 8 reservas. Apesar dessa presença significativa, a representação indígena no ensino superior permanece desproporcionalmente baixa.
| Indicador | Indígenas (MS) | Média estadual |
|---|---|---|
| Taxa de conclusão do ensino fundamental | 68% | 94% |
| Taxa de conclusão do ensino médio | 41% | 78% |
| Ingresso no ensino superior | 8% dos concluintes | 38% dos concluintes |
| Conclusão da graduação | 58% dos ingressantes | 72% dos ingressantes |
| Taxa de evasão universitária | 42% | 28% |
Os dados do Censo Escolar e do Inep revelam uma pirâmide de exclusão progressiva. A cada etapa de ensino, a proporção de estudantes indígenas que avança diminui drasticamente. Das 12.400 crianças indígenas que ingressaram no ensino fundamental em MS em 2018, estima-se que aproximadamente 5.100 concluíram essa etapa em 2026. Desses, cerca de 2.100 terminaram ou estão concluindo o ensino médio, e apenas 168 ingressaram em universidades.
Avanços institucionais
Apesar do cenário desafiador, houve avanços significativos nas últimas duas décadas. A UFGD criou em 2006 a Faculdade Intercultural Indígena (Faind), que oferece Licenciatura Intercultural — curso de formação de professores indígenas com currículo que integra saberes tradicionais guarani, kaiowá e terena ao conhecimento acadêmico ocidental. Desde sua criação, a Faind formou 487 professores indígenas que hoje atuam em escolas das aldeias.
A UFMS, a UEMS e o IFMS adotam políticas de cotas para indígenas em todos os cursos. A UFGD reserva 60 vagas anuais exclusivas para indígenas no processo seletivo — o maior número entre as universidades federais do país. Em 2026, 2.800 estudantes indígenas estão matriculados em instituições de ensino superior de MS, o triplo do registrado em 2015.
O programa de bolsas de permanência do MEC, no valor de R$ 900 mensais para estudantes indígenas e quilombolas, foi ampliado em 2025 e hoje atende 1.100 estudantes em MS. Mas o valor, segundo a Associação dos Acadêmicos Indígenas da UFGD, é insuficiente para cobrir moradia, alimentação e transporte, especialmente para estudantes que precisam se deslocar diariamente das aldeias — distantes entre 15 e 80 km dos campi universitários.
As barreiras persistentes
Para além das questões financeiras, os estudantes indígenas enfrentam barreiras de natureza cultural, linguística e psicológica. A adaptação à cultura universitária — prazos rígidos, avaliações escritas individuais, produção textual em normas acadêmicas — conflita em muitos aspectos com os modos de aprendizagem tradicionais indígenas, que privilegiam a oralidade, o coletivo e a experiência prática.
"Na aldeia, a gente aprende fazendo. Vai para a roça, observa o mais velho, tenta, erra, tenta de novo. Na universidade, tudo é mediado pelo texto escrito. O professor passa 30 páginas de um livro para ler até amanhã. Para quem cresceu em uma cultura oral, isso é violento", explica o professor Tonico Benites, antropólogo guarani-kaiowá e docente da Faind.
O preconceito, embora menos explícito que no passado, permanece como barreira. Pesquisa realizada pela UFGD em 2025 com 180 estudantes indígenas mostrou que 67% relataram ter sofrido algum tipo de discriminação no ambiente universitário — desde comentários depreciativos sobre aparência e sotaque até questionamentos sobre a "legitimidade" de sua presença na universidade.
Iniciativas comunitárias
Diante das limitações institucionais, as próprias comunidades indígenas têm desenvolvido iniciativas de apoio à educação. Na Reserva de Dourados, a Aty Guasu (Grande Assembleia Guarani e Kaiowá) criou em 2024 o programa "Caminho do Saber", que oferece reforço escolar, orientação vocacional e apoio psicológico para estudantes indígenas do ensino médio e da universidade. O programa é coordenado por egressos indígenas da UFGD e UFMS que retornaram às aldeias.
Na aldeia Te'ýikue, em Caarapó, a escola indígena inaugurou em 2025 um laboratório de informática e um espaço de estudos equipado com internet de alta velocidade — financiado por uma cooperação entre a UFGD e uma ONG internacional. O espaço permite que estudantes indígenas que ingressaram em cursos EAD acessem as plataformas sem precisar se deslocar até a cidade.
O futuro possível
Maria Guarani, que abriu esta reportagem, planeja após a formatura trabalhar como professora na escola da reserva onde cresceu. "Muitas crianças da minha aldeia nunca viram um indígena formado. Quando eles me veem na universidade, eles pensam: se ela conseguiu, talvez eu também consiga. Isso é o mais importante que eu posso dar de volta para o meu povo."
A história de Maria, e de outras centenas como ela, mostra que a educação indígena em MS é um campo de tensões — entre a preservação cultural e a inserção no mundo do trabalho não-indígena, entre a aldeia e a universidade, entre a tradição oral e a cultura escrita. A resolução dessas tensões não virá de uma única política pública, mas da construção paciente de pontes que respeitem ambos os lados do rio.
Reportagem especial produzida com apoio da Faculdade Intercultural Indígena da UFGD e da Associação dos Acadêmicos Indígenas de MS.
Fonte: Reportagem Especial
❓ Perguntas Frequentes
Aproximadamente 85 mil pessoas, representando 3% da população do estado. As etnias predominantes são Guarani, Kaiowá e Terena.
Cerca de 2.800 indígenas estão matriculados em instituições de ensino superior de MS, incluindo UFGD, UFMS, UEMS e IFMS.
É uma unidade da UFGD dedicada à formação de professores indígenas (Licenciatura Intercultural), com currículo que integra saberes tradicionais e conhecimento acadêmico.
A taxa de evasão é de 42% nos cursos de graduação, contra 28% da média geral. As principais causas são dificuldades financeiras, distância da comunidade e choque cultural.
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Ana Carolina Ribeiro
Repórter
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