Especial: Pantanal sustentável — como o ecoturismo está transformando a economia da região
Roteiro completo pelo novo Pantanal que atrai turistas do mundo inteiro: de safáris de onça-pintada a pousadas carbono neutro, o bioma encontra no turismo de experiência seu passaporte para a preservação.

A lancha desliza silenciosa sobre as águas cristalinas do rio Paraguai enquanto o guia pantaneiro Seu Divino — 62 anos de vida, 45 deles dedicados ao Pantanal — ergue a mão pedindo silêncio absoluto. Na margem esquerda, parcialmente escondida entre a vegetação de sarã, uma onça-pintada de aproximadamente 80 quilos descansa no que parece ser o mesmo local onde já foi fotografada por dezenas de turistas europeus e americanos nos últimos meses. A cena, que se repete diariamente no trecho entre Porto Jofre e o rio Cuiabá, é o cartão-postal de uma revolução econômica e ambiental que está transformando o Pantanal de MS de um bioma ameaçado em um caso mundial de conservação sustentável.
O turismo de natureza no Pantanal sul-mato-grossense movimentou R$ 3,2 bilhões em 2025 — crescimento de 35% em relação a 2024 — e atraiu 680 mil visitantes, dos quais 180 mil estrangeiros. Os números, compilados pela Fundação de Turismo de MS (Fundtur), colocam o Pantanal como o segundo destino de ecoturismo mais visitado do Brasil, superando Fernando de Noronha e ficando atrás apenas da Amazônia. Mas, diferente da visitação dispersa da Amazônia, o Pantanal concentra sua oferta turística em uma cadeia de serviços altamente organizada e profissionalizada que se tornou referência global em turismo regenerativo.
A economia da onça-pintada
| Atividade turística | Crescimento 2025 | Receita estimada |
|---|---|---|
| Safári de onça | +28% | R$ 890M |
| Observação de aves | +60% | R$ 320M |
| Turismo científico | +45% | R$ 18M |
| Experiências culturais | +35% | R$ 210M |
| Flutuação (Bonito/Serra) | +22% | R$ 580M |
| Hospedagem eco-lodge | +40% | R$ 1,2B |
| Total | +35% | R$ 3,2B |
Se o Pantanal tivesse que escolher um CEO, seria a onça-pintada. O maior felino das Américas, que quase desapareceu da região nos anos 1990 devido à caça e à destruição do habitat, hoje é o ativo econômico mais valioso do ecoturismo pantaneiro. Um estudo do Instituto de Conservação de Felinos (ICF), publicado em janeiro na revista Nature Conservation, calculou que cada onça-pintada viva no Pantanal gera US$ 1,2 milhão por ano em receita turística — considerando hospedagem, guias, transporte, alimentação e equipamentos fotográficos adquiridos pelos visitantes.
O censo mais recente do ICMBio estima a população de onças-pintadas no Pantanal em 2.200 indivíduos — um aumento de 18% em relação à contagem de 2020, que havia sido devastada pelos incêndios florestais daquele ano. A recuperação é atribuída diretamente ao modelo de conservação baseado em turismo que transformou fazendeiros que antes viam a onça como inimiga da pecuária em anfitriões que lucram com a presença do predador em suas propriedades.
"A conta é simples. Uma onça matava em média dois bezerros por ano, causando prejuízo de R$ 3 mil ao fazendeiro. Hoje, essa mesma onça atrai turistas que pagam R$ 800 por dia para ficar na pousada e tentar fotografá-la. Em uma semana, a onça gera mais renda do que o prejuízo de um ano inteiro. Nenhum fazendeiro no Pantanal quer mais matar onça — ele quer proteger", explicou o biólogo e fundador do Projeto Onçafari, que opera em 12 propriedades do Pantanal sul-mato-grossense.
O modelo de coexistência entre pecuária e predadores é único no mundo e tem sido estudado por pesquisadores de países como Índia (que enfrenta conflitos semelhantes com tigres), Quênia (leões) e Canadá (ursos). Em 2025, o Pantanal recebeu delegações técnicas de sete países para conhecer o programa de compensação por predação, no qual fazendeiros que documentam e protegem onças em suas propriedades recebem pagamento por serviços ambientais financiado pela taxa de visitação turística.
As pousadas carbono neutro
A hotelaria do Pantanal vive sua própria revolução. Das 120 pousadas e hotéis cadastrados na Fundtur-MS, 38 já possuem certificação de neutralidade de carbono — número que deve chegar a 60 até o final de 2026. A certificação, concedida pelo programa "Pantanal Verde" desenvolvido em parceria entre a Embrapa Pantanal e a UFMS, exige que o estabelecimento compense 100% de suas emissões de CO2 por meio de restauração de áreas degradadas, proteção de matas ciliares e projetos de energia renovável.
A Pousada Araras Eco Lodge, localizada na Estrada Parque entre Campo Grande e Miranda, é referência nesse modelo. Com energia 100% solar, tratamento biológico de efluentes, horta orgânica que abastece o restaurante e uma área de 1.200 hectares de reserva particular do patrimônio natural (RPPN), a pousada recebeu em 2025 o prêmio de melhor eco-lodge da América Latina pelo guia Condé Nast Traveller.
"O turista internacional que visita o Pantanal hoje não quer apenas ver animais — ele quer saber qual é o impacto da sua visita. Quer dados: quanta água economizamos, quantas árvores plantamos, quantos empregos locais geramos. A sustentabilidade deixou de ser diferencial para ser pré-requisito", explicou a proprietária da Pousada Araras, que emprega 85 funcionários, todos moradores da região, com salário médio 40% acima do piso regional.
Os novos roteiros
O Pantanal de 2026 oferece experiências que vão muito além da pesca — atividade que, embora ainda importante, deixou de ser o principal atrativo. Os roteiros mais procurados são:
Safári de onça-pintada (Porto Jofre / Estrada Parque): O roteiro mais icônico, com taxa de avistamento de 95% durante a estação seca (maio a outubro). Pacotes de três a cinco dias incluem navegação em lanchas silenciosas pelo rio Paraguai, trilhas noturnas com câmeras térmicas para observação de animais noturnos e workshops de fotografia de vida selvagem conduzidos por fotógrafos premiados do National Geographic.
Observação de aves (Nhecolândia): A sub-região concentra a maior diversidade de aves do Pantanal, com 450 espécies registradas em uma área relativamente compacta. O turismo de birdwatching cresceu 60% em 2025, atraindo especialistas de todo o mundo que buscam espécies raras como a arara-azul-grande, o tuiuiú e o gavião-real. Guias pantaneiros especializados em ornitologia — formados por programa do Sebrae e ICMBio — cobram entre R$ 500 e R$ 1.200 por dia.
Turismo científico e voluntariado ambiental: Universidades estrangeiras enviam estudantes para programas de imersão de duas a quatro semanas, nos quais participam de projetos de monitoramento de biodiversidade, restauração de áreas degradadas e pesquisa de espécies ameaçadas. O programa movimentou R$ 18 milhões em 2025 e tem lista de espera de seis meses.
Experiências culturais pantaneiras: Estadas em fazendas históricas centenárias onde o turista participa da lida do gado com os peões, aprende culinária pantaneira (arroz carreteiro, carne de sol com mandioca, chipa), faz cavalgadas ao amanhecer e dorme em redes sob o céu mais estrelado do Centro-Oeste. As experiências culturais atraem principalmente o público brasileiro que busca desconexão digital e reconexão com a natureza.
Turismo aquático de flutuação: Rios de águas cristalinas como o Rio da Prata e o Rio Sucuri, na região de Bonito/Serra da Bodoquena (que integra o circuito ampliado do Pantanal), oferecem flutuação em águas transparentes com visibilidade de até 50 metros, onde o turista flutua entre cardumes de piraputangas, dourados e pacus em um aquário natural sem paralelo no mundo.
Comunidades tradicionais e geração de renda
O turismo sustentável está transformando a vida das comunidades ribeirinhas e tradicionais do Pantanal. O programa "Guias do Pantanal", coordenado pela Fundtur-MS em parceria com o Sebrae e o SENAC, já formou 420 guias turísticos locais — 60% deles originários de comunidades ribeirinhas, indígenas (Terena e Kadiwéu) e quilombolas. Os guias atuam como empreendedores individuais ou vinculados a cooperativas e têm renda média de R$ 4.800 mensais nos meses de alta temporada.
A Cooperativa de Turismo Comunitário do Pantanal (COOPANTUR), fundada em 2022, reúne 85 famílias ribeirinhas que oferecem hospedagem em casas tradicionais, refeições com culinária pantaneira, passeios de canoa e demonstrações de pesca artesanal sustentável. Em 2025, a cooperativa faturou R$ 3,2 milhões e distribuiu 80% da receita diretamente às famílias participantes.
"Antes do turismo, eu vivia da pesca de subsistência e de bicos em fazendas. Ganhava R$ 800 por mês quando tinha sorte. Hoje sou guia certificado, falo inglês básico e espanhol, recebo turistas de 20 países diferentes e minha renda triplicou. Meus filhos estão na universidade. O turismo mudou a vida da minha família e da minha comunidade", relatou José Carlos da Silva, 48 anos, guia pantaneiro e membro da COOPANTUR, com visível orgulho.
Desafios e ameaças
Apesar do crescimento impressionante, o ecoturismo pantaneiro enfrenta desafios que podem comprometer sua sustentabilidade a longo prazo. O mais urgente é a mudança climática, que altera o regime hídrico do Pantanal. As cheias do rio Paraguai — que determinam a sazonalidade de toda a vida no bioma — têm sido menores e mais curtas nas últimas décadas, afetando a reprodução de peixes, a formação das baías (lagoas sazonais) e a distribuição da fauna.
Os incêndios florestais continuam sendo uma ameaça recorrente. Embora o sistema de monitoramento por satélite operado pelo INPE tenha sido ampliado e as brigadas de combate a incêndios tenham sido profissionalizadas, a temporada de seca de 2024 registrou 12 mil focos de calor no Pantanal — número que, embora menor que a catástrofe de 2020 (22 mil focos), evidencia a vulnerabilidade do bioma a eventos climáticos extremos.
A capacidade de carga turística é outra preocupação crescente. Pesquisadores da UFMS alertam que o volume atual de visitantes em alguns trechos, especialmente no corredor de observação de onças entre Porto Jofre e a boca do rio Cuiabá, pode estar se aproximando do limite de sustentabilidade. O excesso de lanchas e o ruído dos motores podem estressar os animais e alterar seus comportamentos naturais de caça e reprodução.
O ICMBio, órgão federal responsável pela gestão das unidades de conservação, está trabalhando na implementação de um sistema de cotas de visitação para os trechos mais sensíveis, limitando o número de embarcações por dia e estabelecendo distâncias mínimas de aproximação para cada espécie. A medida, que deve entrar em vigor em 2027, é resistida por operadores turísticos menores que temem perda de receita, mas apoiada pelas pousadas de alto padrão que já praticam turismo de baixa densidade.
O futuro do Pantanal turístico
O modelo pantaneiro de turismo sustentável está sendo replicado em outros biomas brasileiros. O governo federal incluiu o caso do Pantanal no programa "Turismo Regenerativo Brasil 2030" como caso de sucesso a ser escalado para a Amazônia, a Mata Atlântica e a Caatinga. Organizações internacionais como o World Wildlife Fund (WWF) e a International Union for Conservation of Nature (IUCN) citam o Pantanal de MS como referência mundial em conciliação entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
O próximo passo, segundo especialistas, é integrar o turismo do Pantanal ao circuito internacional de ecoturismo de alto padrão — competindo diretamente com destinos como os parques nacionais do Quênia, as Galápagos e a Costa Rica. Para isso, investimentos em infraestrutura aeroportuária (ampliação do aeroporto de Corumbá para receber voos internacionais), capacitação em idiomas estrangeiros e certificações ambientais internacionais (como a Green Globe e a Rainforest Alliance) são considerados essenciais.
"O Pantanal tem tudo para se tornar o principal destino de ecoturismo do mundo. Temos a maior concentração de vida selvagem visível do planeta, comunidades tradicionais acolhedoras, uma culinária excepcional e paisagens de tirar o fôlego. O que nos falta é a infraestrutura de acesso e a ousadia de nos posicionarmos globalmente como alternativa às savanas africanas — com a vantagem de oferecermos segurança, hospitalidade e preços mais acessíveis", avaliou o diretor-presidente da Fundtur-MS.
O Pantanal que desponta em 2026 é muito diferente daquele de duas décadas atrás. Onde antes havia conflito entre pecuária e preservação, hoje há simbiose. Onde havia exploração predatória, hoje há turismo que financia conservação. Onde havia pobreza e êxodo rural, hoje há comunidades empoderadas que encontraram na natureza que sempre esteve ao seu redor o recurso mais valioso de todos — não para consumir, mas para compartilhar com o mundo.
Reportagem realizada em expedição de sete dias pelo corredor turístico do Pantanal sul-mato-grossense, percorrendo Corumbá, Miranda, Aquidauana, Estrada Parque e Porto Jofre.
💰 Turismo Sustentável em Números
Receita turística em 2025
R$ 3,2 bilhões
Valor de 1 onça viva/ano
US$ 1,2 milhão
Renda média por guia pantaneiro
R$ 4.800/mês
Visitantes estrangeiros
180 mil em 2025
Fonte: Fundtur-MS / ICMBio
❓ Perguntas Frequentes
A estação seca (maio a outubro) é ideal para safári de onça-pintada e observação de fauna, com taxa de avistamento de 95%.
Pacotes de 3 a 5 dias custam de R$ 2.500 a R$ 8.000 por pessoa, incluindo hospedagem, alimentação e guia especializado.
O ICMBio está implementando cotas de visitação e distâncias mínimas de aproximação. O turismo de baixa densidade é o modelo preferido.
Sim. Programas de 2 a 4 semanas para monitoramento de biodiversidade e restauração ambiental estão disponíveis, com lista de espera de 6 meses.
Sim. Um safári de 5 dias no Pantanal custa em média R$ 5.000, enquanto no Quênia custa de US$ 3.000 a US$ 8.000 (R$ 16 a 44 mil).
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Juliana Barbosa
Repórter
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