Rota Bioceânica transforma Porto Murtinho e redesenha o mapa econômico de MS
Reportagem especial mostra como a ponte sobre o Rio Paraguai e o corredor até o Pacífico estão mudando uma cidade de 17 mil habitantes.

Porto Murtinho sempre foi o fim da linha. Uma cidade de 17 mil habitantes encravada no extremo sudoeste de Mato Grosso do Sul, a 437 km de Campo Grande por estrada, onde o asfalto terminava e o Rio Paraguai começava. Quem chegava ali não tinha pra onde ir — a não ser voltar.
Isso está mudando. E rápido.
A ponte sobre o Rio Paraguai que ligará Porto Murtinho a Carmelo Peralta, no Paraguai, está com 68% das obras concluídas. A previsão de inauguração é dezembro de 2026. Quando abrir, será o primeiro elo de um corredor rodoviário de 2.396 km que conecta o Atlântico brasileiro ao Pacífico chileno, passando por Paraguai e Argentina. A Rota Bioceânica — como o projeto é chamado — promete reduzir em 18 dias o tempo de transporte de mercadorias entre o Centro-Oeste do Brasil e os portos do Chile.
Porto Murtinho deixou de ser o fim da linha. Virou encruzilhada.
A ponte que muda tudo
A estrutura tem 680 metros de extensão, duas faixas de rolamento, acostamento e passarela para pedestres. O investimento é de R$ 292 milhões, dividido entre Brasil (60%) e Paraguai (40%), com financiamento do Fonplata (Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata).
O vão central de 200 metros permite a passagem de embarcações de grande porte — o Rio Paraguai é hidrovia navegável até Corumbá e, de lá, até Cáceres, em Mato Grosso. A ponte foi projetada para suportar carretas de até 74 toneladas, compatível com o transporte de soja, minério e celulose.
Na margem brasileira, o canteiro de obras emprega 480 trabalhadores. Na paraguaia, outros 320. A maioria é de Porto Murtinho e Carmelo Peralta, cidades que compartilham mais do que o rio — compartilham famílias, comércio e uma história de isolamento.
"Minha mãe é paraguaia, meu pai é brasileiro. Eu nasci aqui, meus primos moram lá. A gente sempre cruzou o rio de barco. Agora vai ter ponte. Parece mentira", disse Rosana Villalba, 34 anos, professora em Porto Murtinho.
O corredor completo: de Campo Grande ao Pacífico
A Rota Bioceânica não é só a ponte. É um corredor que começa em Campo Grande, segue pela BR-267 até Porto Murtinho, cruza o Paraguai pelo Chaco até Mariscal Estigarribia, entra na Argentina por Jujuy e chega aos portos de Antofagasta e Mejillones, no Chile.
Do lado brasileiro, o trecho crítico é a BR-267 entre Jardim e Porto Murtinho — 98 km de estrada que até 2024 era parcialmente de terra. A pavimentação foi concluída em agosto de 2025, com investimento de R$ 340 milhões do DNIT. Agora, o percurso que levava 3 horas em época de chuva leva 1 hora e 10 minutos.
Do lado paraguaio, a situação é mais complexa. O trecho de 540 km pelo Chaco — região semiárida e pouco povoada — está em obras, com previsão de conclusão para 2028. Até lá, a rota funciona parcialmente.
"A ponte sem a estrada no Paraguai é como ter aeroporto sem avião. Funciona, mas não decola", ponderou o economista Alcides Faria, diretor da Ecoa (Ecologia e Ação), ONG ambiental sediada em Campo Grande.
Porto Murtinho em transformação
Os sinais da mudança já são visíveis. O preço do metro quadrado em Porto Murtinho subiu 140% entre 2022 e 2026, segundo a imobiliária local Pantanal Imóveis. Um terreno de 300 m² no centro, que custava R$ 35 mil em 2022, agora é vendido por R$ 84 mil.
Três postos de combustível foram inaugurados em 2025. Dois hotéis estão em construção. Uma rede de supermercados de Dourados abriu filial na cidade em janeiro. O Sebrae registrou 127 novos MEIs em Porto Murtinho em 2025 — a cidade tinha 340 no total em 2022.
A prefeitura aprovou em dezembro um novo Plano Diretor que prevê a criação de uma zona de processamento de exportação, um distrito industrial e a ampliação do perímetro urbano em 40%. O documento foi elaborado com consultoria da UFMS e financiamento do governo estadual.
"A gente tá se preparando pra uma cidade de 40 mil habitantes em 10 anos. Pode parecer exagero, mas Mundo Novo tinha 8 mil quando a ponte pra Guaíra abriu nos anos 1960. Hoje tem 40 mil", comparou o prefeito Nelson Cintra.
O que a soja tem a ver com isso
Mato Grosso do Sul produz 14,2 milhões de toneladas de soja por safra. Hoje, 78% dessa produção escoa pelos portos de Santos e Paranaguá, a mais de 1.000 km de distância. O frete rodoviário consome entre 18% e 22% do valor da saca.
A Rota Bioceânica oferece uma alternativa: exportar pelo Pacífico para a Ásia, que compra 65% da soja brasileira. A distância marítima de Antofagasta a Xangai é de 18.200 km — contra 19.800 km de Santos. A economia no frete marítimo é estimada em US$ 8 a US$ 12 por tonelada.
"Pra quem produz 5 mil toneladas por safra, US$ 10 de economia por tonelada são US$ 50 mil. Paga o diesel do ano", calculou o produtor Antônio Vidotto, de Maracaju, que já estuda a rota como alternativa.
A Aprosoja-MS estima que, quando o corredor estiver plenamente operacional, entre 15% e 20% da soja de MS poderá ser escoada pelo Pacífico. Isso representaria 2,1 a 2,8 milhões de toneladas por ano passando por Porto Murtinho.
Os riscos ambientais
A Rota Bioceânica corta o Pantanal. E isso preocupa.
O trecho da BR-267 entre Jardim e Porto Murtinho atravessa a borda leste do Pantanal, área de transição entre cerrado e planície alagável. A pavimentação da estrada já alterou o regime hídrico local — moradores relatam que áreas que alagavam anualmente deixaram de alagar depois que a rodovia funcionou como barreira.
O aumento do tráfego de caminhões — estimado em 800 veículos pesados por dia quando a rota estiver completa — traz riscos de atropelamento de fauna, contaminação por combustível e pressão sobre comunidades ribeirinhas e indígenas.
A comunidade Kadiwéu, cujo território de 538 mil hectares faz divisa com a BR-267, manifestou preocupação. "A estrada já matou 12 animais nossos no ano passado — boi, cavalo, cachorro. Com 800 caminhões por dia, vai matar gente", alertou o cacique Cândido Matchua, em audiência pública realizada em Porto Murtinho em fevereiro.
O Ibama condicionou a licença de operação da ponte à instalação de 14 passagens de fauna sob a rodovia, 3 postos de monitoramento ambiental e um programa de compensação para as comunidades indígenas afetadas. O custo dessas medidas é de R$ 47 milhões, incluídos no orçamento da obra.
O futuro que já chegou
Na beira do Rio Paraguai, onde os pilares da ponte se erguem, Porto Murtinho vive um momento que poucas cidades brasileiras experimentam: a certeza de que o amanhã será radicalmente diferente do ontem.
Seu Joaquim, dono do bar mais antigo da orla, resume com a sabedoria de quem viu muita promessa virar pó: "Já prometeram ferrovia, já prometeram porto, já prometeram zona franca. Dessa vez tem concreto no rio. Concreto não mente."
A ponte cresce um metro por dia. Porto Murtinho, talvez mais.
HASHTAGS: #FocoDoEstado #Especiais #RotaBioceânica #PortoMurtinho #Ponte #Logística #MS #MatoGrossoDoSul #ComércioExterior #Pantanal #Infraestrutura CHAMADA: 📰 Rota Bioceânica transforma Porto Murtinho: ponte a 68%, preço de terreno sobe 140% → Leia no Foco do Estado
Fonte: DNIT / Governo de MS / Ministério dos Transportes
Marcos Vinícius Borges
Repórter
Leia também
Emergência ambiental: Governo Federal declara estado de alerta no Pantanal e Bombeiros ativam Operação 2026
01 de abril de 2026
📰 EspeciaisEspecial: Os desafios da educação indígena em MS — entre a aldeia e a universidade
31 de março de 2026
🏥 SaúdeSecretaria de Saúde confirma primeiro caso de febre oropouche em Mato Grosso do Sul
31 de março de 2026
💬 OpiniãoOpinião: A Ferrovia Bioceânica pode transformar MS no novo hub logístico da América do Sul
30 de março de 2026