Fábrica de celulose em Ribas do Rio Pardo gera 3.200 empregos e muda economia local
Operação da planta da Suzano transformou município de 25 mil habitantes. PIB per capita triplicou em dois anos e comércio local cresceu 140%.

Ribas do Rio Pardo nunca foi notícia por bons motivos. Município de 25 mil habitantes encravado no cerrado sul-mato-grossense, a 96 quilômetros de Campo Grande pela BR-262, a cidade figurava entre as 20 menores economias do estado até 2023. Dois anos depois, o cenário é irreconhecível. A fábrica de celulose da Suzano, que iniciou operação comercial em julho de 2024, transformou Ribas num dos municípios que mais crescem no Centro-Oeste — e os números não deixam margem para dúvida.
São 3.200 empregos diretos na planta industrial, que opera 24 horas em três turnos. Outros 4.800 postos indiretos sustentam a cadeia que vai do plantio de eucalipto ao transporte da celulose até o porto de Santos. O PIB per capita do município saltou de R$ 18.400 em 2023 para R$ 54.200 em 2025, segundo estimativa da Semade. Triplicou.
A cidade que não cabia em si
Quem passa pela Avenida Presidente Vargas, a principal de Ribas, percebe a mudança no primeiro olhar. Onde havia terrenos baldios e casas de comércio fechadas, agora se veem restaurantes, lojas de material de construção, agências bancárias e até uma concessionária de veículos — a primeira da história do município.
O comércio local cresceu 140% em faturamento entre 2023 e 2025, segundo dados da Associação Comercial de Ribas do Rio Pardo. O número de empresas ativas no município passou de 620 para 1.480 no mesmo período. "Antes a gente ia pra Campo Grande comprar qualquer coisa. Agora tem de tudo aqui. Até delivery de comida japonesa", contou Dona Marlene Souza, moradora do bairro São Francisco há 32 anos, enquanto esperava atendimento no novo posto do Detran inaugurado em janeiro.
A arrecadação de ICMS do município cresceu 380% em dois anos. A prefeitura, que operava com orçamento anual de R$ 48 milhões em 2023, projeta receita de R$ 187 milhões para 2026. O prefeito Roberson Mougenot não esconde a satisfação, mas reconhece os desafios. "O dinheiro chegou, mas os problemas também. Habitação, saneamento, trânsito — tudo precisa acompanhar o ritmo da fábrica."
Dentro da planta
A unidade de Ribas do Rio Pardo é a maior linha única de produção de celulose do mundo. Capacidade: 2,55 milhões de toneladas por ano. O investimento total da Suzano no projeto foi de R$ 22,2 bilhões, incluindo a fábrica, a base florestal de 420 mil hectares de eucalipto e a infraestrutura logística.
A planta consome 32 mil metros cúbicos de madeira por dia — o equivalente a 800 carretas de toras. O eucalipto é colhido num raio de até 150 quilômetros da fábrica, em áreas de plantio próprio e de produtores parceiros. A Suzano mantém contratos de fomento florestal com 340 proprietários rurais da região, que recebem mudas, assistência técnica e garantia de compra.
"O fomento florestal mudou a vida de muita gente aqui. Produtor que vivia só de gado, com pasto degradado, hoje tem renda fixa com eucalipto e ainda mantém a pecuária", explicou o engenheiro florestal Thiago Rezende, gerente de operações florestais da Suzano em Ribas.
A celulose produzida segue por ferrovia até o terminal de Aparecida do Taboado, de onde é transportada por barcaça pelo rio Paraná até o porto de Santos. A rota multimodal reduz o custo logístico em 23% comparado ao transporte exclusivamente rodoviário.
O lado B do boom
Nem tudo são flores — ou eucaliptos. O crescimento acelerado trouxe problemas que a estrutura municipal não estava preparada para absorver. A população de Ribas cresceu 40% em dois anos, de 25 mil para 35 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE. Mas a rede de água e esgoto foi dimensionada para 28 mil pessoas.
O déficit habitacional explodiu. O aluguel de uma casa simples de dois quartos, que custava R$ 450 em 2023, hoje não sai por menos de R$ 1.200. Trabalhadores da fábrica que não conseguem moradia em Ribas fazem o trajeto diário de Campo Grande — são 192 quilômetros de ida e volta. A Suzano opera uma frota de 18 ônibus fretados para esse deslocamento.
A rede de saúde também sente a pressão. O único hospital do município, o Hospital Municipal São Lucas, tem 32 leitos e atende uma demanda que dobrou. A prefeitura negocia com o governo estadual a construção de uma UPA, mas a obra ainda não tem data para começar.
Na educação, três escolas municipais operam com turmas acima da capacidade. A Secretaria de Educação contratou 45 professores temporários em 2025 para dar conta da demanda, mas o sindicato cobra concurso público.
Impacto ambiental e sustentabilidade
A operação da fábrica levantou questionamentos ambientais desde o início. O Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS) condicionou a licença de operação a 14 medidas compensatórias, incluindo a manutenção de 180 mil hectares de reserva legal e a recuperação de 8.500 hectares de áreas de preservação permanente degradadas.
A Suzano afirma que a planta de Ribas é carbono negativa — remove mais CO2 da atmosfera do que emite. A empresa cita o balanço de carbono certificado pela consultoria internacional Bureau Veritas, que aponta remoção líquida de 4,2 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, considerando o sequestro de carbono pela base florestal.
Ambientalistas contestam. O biólogo Ricardo Machado, do Instituto Homem Pantaneiro, argumenta que a monocultura de eucalipto reduz a biodiversidade e afeta o regime hídrico. "Não é floresta. É lavoura de árvore. O impacto nos córregos e nascentes da região precisa ser monitorado de perto", disse.
O Ministério Público Estadual instaurou inquérito civil em outubro de 2025 para acompanhar o cumprimento das condicionantes ambientais. Até o momento, não foram identificadas irregularidades.
Efeito cascata na região
O impacto da fábrica não se limita a Ribas do Rio Pardo. Municípios vizinhos como Água Clara, Bandeirantes e Camapuã também sentem os efeitos. Água Clara, que abriga parte da base florestal da Suzano, registrou aumento de 60% na arrecadação municipal. Bandeirantes ganhou um terminal de carregamento ferroviário que movimenta 800 vagões por mês.
A Fiems (Federação das Indústrias de MS) estima que o complexo de celulose de Ribas do Rio Pardo responde por 2,3% do PIB estadual — um único empreendimento. "É o maior investimento privado da história de Mato Grosso do Sul. O impacto vai se sentir por décadas", avaliou o presidente da federação, Sérgio Longen.
O governo estadual, por sua vez, negocia com a Bracell (do grupo RGE) a instalação de uma segunda fábrica de celulose no estado, desta vez na região de Três Lagoas, que já abriga duas plantas da Suzano e uma da Eldorado. Se confirmado, o investimento de R$ 15 bilhões faria de MS o maior polo de celulose do planeta.
Na saída da fábrica, às 18h de uma terça-feira, o fluxo de trabalhadores no portão principal lembra o de uma indústria de cidade grande. Capacetes amarelos, crachás pendurados no pescoço, pick-ups estacionadas em fila. Ribas do Rio Pardo, a cidade que ninguém conhecia, agora aparece no mapa — literalmente. O Google Maps atualizou a imagem de satélite do município três vezes nos últimos dois anos.
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Fonte: Suzano S.A. / Prefeitura de Ribas do Rio Pardo
Carlos Eduardo Santos
Repórter
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