Pular para o conteúdo
quinta-feira, 02 de abril de 2026
📈 Economia

Estudo de viabilidade da ferrovia Campo Grande-Porto Murtinho é aprovado

ANTT valida projeto de 480 km que pode reduzir frete da soja em 38%. Investimento estimado em R$ 12,7 bilhões com concessão de 35 anos.

Marcos Vinícius Borges7 min de leituraCampo Grande
Estudo de viabilidade da ferrovia Campo Grande-Porto Murtinho é aprovado

A Agência Nacional de Transportes Terrestres aprovou na quarta-feira, 29 de janeiro, o estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental da ferrovia que ligará Campo Grande a Porto Murtinho, no extremo sudoeste de Mato Grosso do Sul. O traçado de 480 km cortará o estado de leste a oeste, passando por Sidrolândia, Maracaju, Guia Lopes da Laguna, Jardim e Bonito. O investimento estimado é de R$ 12,7 bilhões, com modelo de concessão por 35 anos.

A ferrovia é peça-chave da Rota Bioceânica — o corredor logístico que conecta o Atlântico brasileiro ao Pacífico chileno. Sem ela, a soja e a carne de MS continuam reféns do caminhão.

O traçado e a capacidade

O projeto prevê linha singela (uma via) com capacidade para 25 milhões de toneladas por ano, expansível para 40 milhões com duplicação futura. A bitola será métrica (1,0 metro), compatível com a malha existente da Rumo que chega a Campo Grande.

O traçado foi desenhado para evitar áreas de preservação permanente e terras indígenas, mas cruza 12 km da zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. O Ibama exigirá licenciamento ambiental completo, com audiências públicas em todos os municípios do traçado.

A velocidade operacional será de 60 km/h para trens de carga, com composições de até 120 vagões. O tempo de viagem de Campo Grande a Porto Murtinho: 8 horas por trem, contra 6 horas por caminhão. A vantagem não é velocidade — é volume e custo.

"Um trem de 120 vagões carrega 9.600 toneladas. Pra transportar o mesmo volume por rodovia, precisa de 320 caminhões. O custo por tonelada cai de R$ 180 pra R$ 112 — redução de 38%", calculou o engenheiro de transportes Dr. Newton Rabelo, da EPL (Empresa de Planejamento e Logística).

Quem ganha com a ferrovia

O agronegócio é o principal beneficiário. MS produz 14,2 milhões de toneladas de soja e 11,8 milhões de milho por safra. Hoje, 92% escoa por rodovia. A ferrovia absorveria entre 8 e 12 milhões de toneladas por ano, aliviando a BR-163 e a BR-267.

A Aprosoja-MS estima que a economia no frete representaria R$ 1,2 bilhão por ano para os produtores do estado. "É dinheiro que hoje vai pro pneu e pro diesel. Com ferrovia, fica no bolso do produtor ou vira investimento na fazenda", disse Enrique Neto, presidente da entidade.

A mineração também se beneficia. Corumbá produz 8 milhões de toneladas de minério de ferro e manganês por ano, escoadas por hidrovia (Rio Paraguai) e rodovia. A ferrovia ofereceria uma terceira opção, mais confiável que a hidrovia nos meses de seca, quando o rio fica raso demais para barcaças carregadas.

O turismo de Bonito ganharia acesso ferroviário — o traçado passa a 15 km da cidade. A prefeitura já estuda um ramal de conexão e uma estação turística.

Os obstáculos

R$ 12,7 bilhões é muito dinheiro. O modelo de concessão prevê que o investidor privado banque a construção e opere a ferrovia por 35 anos, cobrando tarifa de frete. O governo entra com a garantia de demanda mínima — se o volume transportado ficar abaixo de 15 milhões de toneladas por ano nos primeiros 10 anos, o Tesouro complementa a receita do concessionário.

Essa garantia preocupa o TCU. O ministro relator, Augusto Nardes, pediu esclarecimentos sobre o risco fiscal. "Garantia de demanda é cheque em branco se a projeção de carga estiver errada. Precisamos de cenários pessimistas robustos", disse em sessão plenária.

O prazo de construção estimado é de 6 anos. Se o leilão de concessão acontecer em 2027 (projeção otimista), a ferrovia ficaria pronta em 2033. Até lá, a soja de MS continuará no caminhão.

A questão fundiária é outro entrave. O traçado cruza 1.240 propriedades rurais. A desapropriação de faixas de domínio (30 metros de cada lado dos trilhos) afetará 7.440 hectares. O custo estimado das desapropriações é de R$ 890 milhões, incluído no orçamento total.

"Desapropriação no Brasil é sinônimo de processo judicial. Vai ter fazendeiro que aceita, vai ter fazendeiro que briga. Isso atrasa obra em 2, 3 anos fácil", alertou o advogado especialista em direito agrário, Dr. Henrique Machado, de Dourados.

O que vem agora

Com o estudo aprovado pela ANTT, o próximo passo é a audiência pública, prevista para abril. Depois, o projeto vai ao TCU para análise do modelo de concessão. Se aprovado, o edital de leilão pode ser publicado no segundo semestre de 2027.

O governador Riedel classificou a aprovação como "o dia mais importante para a logística de MS em 30 anos". O ministro dos Transportes foi mais cauteloso: "Estudo aprovado não é ferrovia construída. Temos um longo caminho pela frente."

Na BR-267, entre Jardim e Porto Murtinho, uma fila de 14 caminhões graneleiros subia a serra carregados de soja. O motorista do primeiro, parado no acostamento trocando um pneu furado, não sabia da ferrovia. Quando soube, riu. "Ferrovia? Meu avô já ouvia falar de ferrovia aqui. Quando tiver trilho, eu já tô aposentado."

HASHTAGS: #FocoDoEstado #Economia #Ferrovia #PortoMurtinho #Logística #MS #MatoGrossoDoSul #ANTT #RotaBioceânica #Infraestrutura #Soja CHAMADA: 📰 ANTT aprova estudo de ferrovia Campo Grande-Porto Murtinho — R$ 12,7 bi e redução de 38% no frete → Leia no Foco do Estado

💰 A Ferrovia Bioceânica

1

Extensão total

3.750 km

2

Trecho em MS

780 km

3

Investimento estimado

R$ 28 bilhões

4

Redução do frete ao Pacífico

-35%

Fonte: ANTT / EPL / Ministério dos Transportes

❓ Perguntas Frequentes

🗳️ Enquete

A Ferrovia Bioceânica vai sair do papel?

#ferrovia#Campo Grande#Porto Murtinho#logística#ANTT#infraestrutura
Compartilhar:f𝕏watg
MV

Marcos Vinícius Borges

Repórter