Plantio do milho safrinha em MS atinge 89% da área e bate ritmo recorde
Colheita antecipada da soja abriu janela ideal. Produtores plantaram 1,87 milhão de hectares até 20 de fevereiro. Preço da saca anima.

O plantio do milho safrinha em Mato Grosso do Sul atingiu 89% da área prevista até 20 de fevereiro — ritmo mais acelerado dos últimos 10 anos. Dos 2,1 milhões de hectares estimados pela Aprosoja-MS, 1,87 milhão já estavam semeados. No mesmo período de 2025, o índice era de 71%.
A velocidade se deve à colheita antecipada da soja, que liberou as áreas mais cedo que o habitual. Com 92% da soja já colhida em 20 de fevereiro, os produtores conseguiram plantar o milho dentro da janela ideal — que em MS se encerra no fim de fevereiro para a maioria das regiões.
Janela fechada, risco aberto
A janela de plantio do milho safrinha é uma corrida contra o calendário. Plantar depois de 28 de fevereiro no sul do estado (Dourados, Maracaju, Ponta Porã) significa expor a lavoura às geadas de junho e julho, que podem dizimar a produção. No norte (Chapadão do Sul, Costa Rica), a janela se estende até 10 de março.
"Esse ano a gente plantou 80% do milho até 15 de fevereiro. É o cenário dos sonhos. Se não vier geada atípica, a safrinha vai ser muito boa", projetou o engenheiro agrônomo Cláudio Spadotto, da Embrapa Agropecuária Oeste.
Em 2025, o plantio atrasou por causa de chuvas excessivas em janeiro que impediram a colheita da soja. Resultado: 35% do milho safrinha foi plantado fora da janela, e a geada de 18 de junho destruiu 420 mil hectares. A perda foi estimada em R$ 2,1 bilhões.
"O produtor aprendeu na dor. Quem plantou soja superprecoce esse ano colheu em janeiro e já tava com milho no chão em fevereiro. Quem insistiu em cultivar de ciclo longo vai plantar milho em março e torcer pra não gear", comparou Enrique Neto, presidente da Aprosoja-MS.
Preço que anima
O milho está cotado a R$ 62 a saca de 60 kg em Dourados — 22% acima dos R$ 50,80 de fevereiro de 2025. A alta é sustentada por três fatores: demanda firme da indústria de rações (MS tem o segundo maior rebanho de confinamento do Brasil), exportações aquecidas para Egito e Irã, e estoques de passagem baixos após a quebra da safrinha 2025.
Na ponta do lápis, o custo de produção do milho safrinha em MS ficou em R$ 3.180 por hectare neste ciclo. Com produtividade esperada de 90 sacas por hectare (média otimista) e preço de R$ 62, a receita bruta seria de R$ 5.580. Margem de R$ 2.400 por hectare — 43%.
"Milho a R$ 62 com custo de R$ 3.180 é festa. Não é todo ano que a conta fecha assim. O produtor que travou preço a R$ 58 em dezembro já tá feliz. Quem esperou, tá mais feliz ainda", disse o consultor de mercado Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting.
A Conab estima que MS produzirá 11,8 milhões de toneladas de milho safrinha em 2026, contra 9,4 milhões em 2025 (ano de geada). Se confirmado, será a segunda maior safrinha da história do estado — atrás apenas de 2023, quando foram 12,1 milhões de toneladas.
Tecnologia no campo
A safrinha 2026 marca a consolidação de duas tecnologias que estão mudando o milho em MS. A primeira é o milho Bt com resistência a cigarrinha — praga que devastou lavouras em 2023 e 2024, causando a doença do enfezamento. As novas cultivares, desenvolvidas pela Embrapa e por empresas privadas, reduziram a incidência de enfezamento de 28% para 4% nas áreas onde foram adotadas.
A segunda é a agricultura de precisão com taxa variável de sementes. Usando mapas de fertilidade do solo gerados por drones e sensores, o produtor ajusta a quantidade de sementes metro a metro — plantando mais onde o solo é fértil e menos onde é pobre. A economia média é de 8% em sementes e 12% em adubo, segundo dados da Embrapa.
"Há 5 anos, o produtor plantava 60 mil sementes por hectare em tudo quanto é lugar. Hoje, planta 72 mil onde o solo aguenta e 52 mil onde não aguenta. O resultado é mais milho com menos insumo", explicou o pesquisador Dr. Gessi Ceccon, da Embrapa.
Na fazenda Bom Futuro, a 40 km de Maracaju, o produtor Ricardo Shimada acompanhava a plantadeira de 24 linhas cruzar o talhão a 8 km/h. O GPS guiava a máquina com precisão de 2,5 centímetros. No monitor da cabine, o mapa de fertilidade indicava as zonas de manejo em cores — verde para alta, amarelo para média, vermelho para baixa.
"Meu avô plantava milho com matraca. Meu pai, com trator e plantadeira mecânica. Eu planto com satélite e inteligência artificial. E meu filho provavelmente vai plantar com drone autônomo", disse Shimada, rindo.
Logística e escoamento
O milho safrinha de MS escoa principalmente por rodovia até os portos de Paranaguá e Santos, e por ferrovia até o terminal de Rondonópolis (MT), de onde segue para o porto de Santos. A Rumo Logística transportou 2,8 milhões de toneladas de milho de MS em 2025 e projeta 3,2 milhões para 2026.
O gargalo é o mesmo da soja: frete caro e estradas ruins. O frete rodoviário de Dourados a Paranaguá para milho está em R$ 195 por tonelada — 18% do preço da saca. "Quase um quinto do que o produtor recebe vai pro caminhoneiro. Não é culpa do caminhoneiro — é culpa da falta de ferrovia", reclamou Neto, da Aprosoja.
O projeto da Ferrogrão — ferrovia que ligaria Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA) — poderia aliviar a pressão sobre os corredores do Sul, mas está parado na Justiça desde 2021 por questões ambientais e indígenas. MS não está na rota da Ferrogrão, mas se beneficiaria indiretamente: com Mato Grosso escoando pelo Norte, sobraria mais capacidade nos portos do Sul para a produção sul-mato-grossense.
Na beira da BR-163, em Dourados, uma fila de 23 caminhões graneleiros aguardava carregamento em um armazém da Cargill. O cheiro de milho seco impregnava o ar. Um motorista, sentado na sombra do caminhão, tomava tereré e esperava. "Tô aqui desde as 5h. Se carregar até o meio-dia, chego em Paranaguá amanhã de noite. Se não, só depois de amanhã." Encolheu os ombros. "É a vida."
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Fonte: Aprosoja-MS / Conab / Embrapa Agropecuária Oeste
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O milho safrinha é mais rentável que a soja?
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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