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sexta-feira, 03 de abril de 2026
🌾 Agro

Plantio do milho safrinha em MS atinge 89% da área e bate ritmo recorde

Colheita antecipada da soja abriu janela ideal. Produtores plantaram 1,87 milhão de hectares até 20 de fevereiro. Preço da saca anima.

Marcos Vinícius Borges7 min de leituraDourados
Plantio do milho safrinha em MS atinge 89% da área e bate ritmo recorde

O plantio do milho safrinha em Mato Grosso do Sul atingiu 89% da área prevista até 20 de fevereiro — ritmo mais acelerado dos últimos 10 anos. Dos 2,1 milhões de hectares estimados pela Aprosoja-MS, 1,87 milhão já estavam semeados. No mesmo período de 2025, o índice era de 71%.

A velocidade se deve à colheita antecipada da soja, que liberou as áreas mais cedo que o habitual. Com 92% da soja já colhida em 20 de fevereiro, os produtores conseguiram plantar o milho dentro da janela ideal — que em MS se encerra no fim de fevereiro para a maioria das regiões.

Janela fechada, risco aberto

A janela de plantio do milho safrinha é uma corrida contra o calendário. Plantar depois de 28 de fevereiro no sul do estado (Dourados, Maracaju, Ponta Porã) significa expor a lavoura às geadas de junho e julho, que podem dizimar a produção. No norte (Chapadão do Sul, Costa Rica), a janela se estende até 10 de março.

"Esse ano a gente plantou 80% do milho até 15 de fevereiro. É o cenário dos sonhos. Se não vier geada atípica, a safrinha vai ser muito boa", projetou o engenheiro agrônomo Cláudio Spadotto, da Embrapa Agropecuária Oeste.

Em 2025, o plantio atrasou por causa de chuvas excessivas em janeiro que impediram a colheita da soja. Resultado: 35% do milho safrinha foi plantado fora da janela, e a geada de 18 de junho destruiu 420 mil hectares. A perda foi estimada em R$ 2,1 bilhões.

"O produtor aprendeu na dor. Quem plantou soja superprecoce esse ano colheu em janeiro e já tava com milho no chão em fevereiro. Quem insistiu em cultivar de ciclo longo vai plantar milho em março e torcer pra não gear", comparou Enrique Neto, presidente da Aprosoja-MS.

Preço que anima

O milho está cotado a R$ 62 a saca de 60 kg em Dourados — 22% acima dos R$ 50,80 de fevereiro de 2025. A alta é sustentada por três fatores: demanda firme da indústria de rações (MS tem o segundo maior rebanho de confinamento do Brasil), exportações aquecidas para Egito e Irã, e estoques de passagem baixos após a quebra da safrinha 2025.

Na ponta do lápis, o custo de produção do milho safrinha em MS ficou em R$ 3.180 por hectare neste ciclo. Com produtividade esperada de 90 sacas por hectare (média otimista) e preço de R$ 62, a receita bruta seria de R$ 5.580. Margem de R$ 2.400 por hectare — 43%.

"Milho a R$ 62 com custo de R$ 3.180 é festa. Não é todo ano que a conta fecha assim. O produtor que travou preço a R$ 58 em dezembro já tá feliz. Quem esperou, tá mais feliz ainda", disse o consultor de mercado Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting.

A Conab estima que MS produzirá 11,8 milhões de toneladas de milho safrinha em 2026, contra 9,4 milhões em 2025 (ano de geada). Se confirmado, será a segunda maior safrinha da história do estado — atrás apenas de 2023, quando foram 12,1 milhões de toneladas.

Tecnologia no campo

A safrinha 2026 marca a consolidação de duas tecnologias que estão mudando o milho em MS. A primeira é o milho Bt com resistência a cigarrinha — praga que devastou lavouras em 2023 e 2024, causando a doença do enfezamento. As novas cultivares, desenvolvidas pela Embrapa e por empresas privadas, reduziram a incidência de enfezamento de 28% para 4% nas áreas onde foram adotadas.

A segunda é a agricultura de precisão com taxa variável de sementes. Usando mapas de fertilidade do solo gerados por drones e sensores, o produtor ajusta a quantidade de sementes metro a metro — plantando mais onde o solo é fértil e menos onde é pobre. A economia média é de 8% em sementes e 12% em adubo, segundo dados da Embrapa.

"Há 5 anos, o produtor plantava 60 mil sementes por hectare em tudo quanto é lugar. Hoje, planta 72 mil onde o solo aguenta e 52 mil onde não aguenta. O resultado é mais milho com menos insumo", explicou o pesquisador Dr. Gessi Ceccon, da Embrapa.

Na fazenda Bom Futuro, a 40 km de Maracaju, o produtor Ricardo Shimada acompanhava a plantadeira de 24 linhas cruzar o talhão a 8 km/h. O GPS guiava a máquina com precisão de 2,5 centímetros. No monitor da cabine, o mapa de fertilidade indicava as zonas de manejo em cores — verde para alta, amarelo para média, vermelho para baixa.

"Meu avô plantava milho com matraca. Meu pai, com trator e plantadeira mecânica. Eu planto com satélite e inteligência artificial. E meu filho provavelmente vai plantar com drone autônomo", disse Shimada, rindo.

Logística e escoamento

O milho safrinha de MS escoa principalmente por rodovia até os portos de Paranaguá e Santos, e por ferrovia até o terminal de Rondonópolis (MT), de onde segue para o porto de Santos. A Rumo Logística transportou 2,8 milhões de toneladas de milho de MS em 2025 e projeta 3,2 milhões para 2026.

O gargalo é o mesmo da soja: frete caro e estradas ruins. O frete rodoviário de Dourados a Paranaguá para milho está em R$ 195 por tonelada — 18% do preço da saca. "Quase um quinto do que o produtor recebe vai pro caminhoneiro. Não é culpa do caminhoneiro — é culpa da falta de ferrovia", reclamou Neto, da Aprosoja.

O projeto da Ferrogrão — ferrovia que ligaria Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA) — poderia aliviar a pressão sobre os corredores do Sul, mas está parado na Justiça desde 2021 por questões ambientais e indígenas. MS não está na rota da Ferrogrão, mas se beneficiaria indiretamente: com Mato Grosso escoando pelo Norte, sobraria mais capacidade nos portos do Sul para a produção sul-mato-grossense.

Na beira da BR-163, em Dourados, uma fila de 23 caminhões graneleiros aguardava carregamento em um armazém da Cargill. O cheiro de milho seco impregnava o ar. Um motorista, sentado na sombra do caminhão, tomava tereré e esperava. "Tô aqui desde as 5h. Se carregar até o meio-dia, chego em Paranaguá amanhã de noite. Se não, só depois de amanhã." Encolheu os ombros. "É a vida."

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Fonte: Aprosoja-MS / Conab / Embrapa Agropecuária Oeste

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Marcos Vinícius Borges

Repórter