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terça-feira, 14 de abril de 2026
🚔 Polícia

PCC fechou aliança com facção carioca para se blindar em MS

Investigação revela que Primeiro Comando da Capital firmou acordo com grupo do Rio de Janeiro para dividir território e evitar conflitos no estado

Roberto Almeida7 min de leituraCampo Grande
PCC fechou aliança com facção carioca para se blindar em MS

Dividir pra não brigar. A lógica é de empresa, mas o negócio é o tráfico. Uma investigação revelou que o PCC (Primeiro Comando da Capital) firmou aliança com uma facção de origem carioca para dividir territórios em Mato Grosso do Sul e evitar guerras que atraem a polícia. O acordo, segundo fontes ligadas à segurança pública, está em vigor há pelo menos seis meses.

O Que Aconteceu

A informação foi divulgada pelo Campo Grande News nesta segunda-feira (13), com base em dados de inteligência da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) e do sistema penitenciário de MS. Segundo a apuração, o PCC — que domina o tráfico de drogas no estado há mais de uma década — fechou acordo com um grupo criminoso de origem carioca que vinha expandindo sua atuação em municípios da fronteira sul de MS.

O pacto prevê divisão territorial: o PCC mantém o controle das rotas de entrada de drogas pela fronteira com o Paraguai (Ponta Porã, Coronel Sapucaia, Mundo Novo) e a distribuição para o Sudeste. A facção carioca fica com o varejo em bairros periféricos de cidades do interior — Dourados, Naviraí, Nova Andradina — onde já tinha presença.

"Não é amizade. É negócio. Os dois lados perceberam que a guerra entre eles gerava mortes, e mortes geram operações policiais. Sem guerra, a polícia tem menos motivo pra apertar", explicou uma fonte da Sejusp ao Campo Grande News.

A aliança explicaria a queda de 23% nos homicídios ligados ao tráfico em MS no primeiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. A redução, que parecia positiva, pode ser na verdade sinal de que o crime organizado se profissionalizou — menos violência visível, mais lucro silencioso.

Contexto e Histórico

O PCC chegou a Mato Grosso do Sul no início dos anos 2000, aproveitando a posição estratégica do estado na rota do tráfico internacional. Com 1.498 km de fronteira com Paraguai e Bolívia, MS é o principal corredor de entrada de cocaína boliviana e maconha paraguaia no Brasil.

A facção paulista consolidou o domínio ao longo de duas décadas, controlando desde a compra de drogas no Paraguai até a distribuição em São Paulo. O modelo é empresarial: células locais operam com autonomia, mas respondem a uma liderança estadual que, por sua vez, se reporta ao comando nacional — preso no sistema penitenciário federal.

A presença de facções cariocas em MS é mais recente. A expansão começou por volta de 2019, quando membros transferidos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro para presídios de MS começaram a recrutar internos e montar células fora das cadeias. A disputa por território gerou uma onda de homicídios entre 2020 e 2024, especialmente em Dourados e Ponta Porã.

O DOF (Departamento de Operações de Fronteira) apreendeu mais de 150 toneladas de drogas em 2025 — recorde histórico. Mas a apreensão, por maior que seja, representa apenas uma fração do volume total que cruza a fronteira. Estimativas da PF indicam que apenas 10% a 15% das drogas que entram por MS são interceptadas.

"O PCC não é uma gangue de rua. É uma organização com estrutura financeira, jurídica e logística. Quando eles fazem aliança com outra facção, é porque calcularam que o custo da guerra é maior que o custo de dividir o mercado", disse o promotor do Gaeco durante evento do MPMS em fevereiro.

A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou recentemente projeto que classifica PCC e CV como organizações terroristas — medida que, se sancionada, permitiria o uso de instrumentos mais severos de investigação e punição, incluindo bloqueio de bens e regime disciplinar diferenciado permanente.

O sistema penitenciário sul-mato-grossense abriga hoje 18.400 presos, dos quais a Sejusp estima que 42% tenham vínculo comprovado com alguma facção. A superlotação — a taxa de ocupação média é de 167% — facilita o recrutamento dentro das cadeias. No Estabelecimento Penal de Dourados, onde a capacidade é de 800 vagas e a população carcerária ultrapassa 1.300, a separação entre facções rivais depende de acordos informais entre os próprios detentos, monitorados por agentes penitenciários que trabalham em regime de plantão de 24 por 72 horas. Nas noites quentes do verão douradense, quando a temperatura dentro das celas ultrapassa 40 °C e o barulho dos ventiladores improvisados se mistura ao som de rádios sintonizados em emissoras paraguaias, as negociações entre lideranças presas acontecem por bilhetes passados de cela em cela — método arcaico que os bloqueadores de celular não alcançam.

Impacto Para a População

A aliança entre facções tem efeitos paradoxais: menos mortes no curto prazo, mais poder do crime organizado no longo prazo.

Aspecto Detalhe
Facções PCC + facção carioca
Tipo de acordo Divisão territorial
Vigência estimada 6+ meses
Fronteira MS (PY + BO) 1.498 km
Queda de homicídios por tráfico -23% no 1º tri 2026
Apreensões DOF (2025) 150+ toneladas
Interceptação estimada 10-15% do total
Movimentação ilícita PCC em MS ~R$ 2 bilhões/ano
Presos por tráfico (2025) 3.200+

Para o cidadão comum, a aliança pode significar menos tiroteios em bairros periféricos — o que é bom no imediato. Mas o fortalecimento do crime organizado contamina a economia legal. Dinheiro do tráfico é lavado em postos de combustível, lava-jatos, lojas de material de construção e fazendas. A concorrência desleal prejudica empresários que operam dentro da lei.

Para as forças de segurança, a aliança dificulta o trabalho. Sem guerra entre facções, há menos informantes, menos flagrantes e menos oportunidades de infiltração. O crime organizado silencioso é mais difícil de combater do que o violento.

O Que Dizem os Envolvidos

A Sejusp confirmou que "monitora movimentações de organizações criminosas em MS" e que "a inteligência penitenciária tem identificado mudanças nos padrões de comunicação entre lideranças presas". Não confirmou nem negou a aliança específica.

O Gaeco informou que "investigações em andamento apuram a estrutura de comando das facções em MS" e que "resultados serão divulgados oportunamente".

A Polícia Federal em MS disse que "a cooperação entre facções é fenômeno conhecido e monitorado" e que "operações conjuntas com as forças estaduais estão em planejamento".

Próximos Passos

O Gaeco deve deflagrar operações contra lideranças das facções em MS nos próximos meses, com base nas investigações em andamento. O foco é a estrutura financeira — contas bancárias, empresas de fachada e imóveis usados para lavagem de dinheiro.

A Sejusp anunciou a ampliação do programa de inteligência penitenciária, com instalação de bloqueadores de sinal de celular em todos os presídios de MS até o final de 2026. Atualmente, apenas 4 dos 12 estabelecimentos penais do estado têm o equipamento.

O projeto que classifica PCC e CV como organizações terroristas aguarda votação no plenário da Câmara dos Deputados.

Fechamento

PCC e facção carioca dividindo MS como quem divide um bolo. Menos tiro, mais lucro. A queda nos homicídios por tráfico parece boa notícia, mas é o contrário — é sinal de que o crime organizado amadureceu. Quando as facções param de brigar entre si, sobra energia pra corromper, infiltrar e expandir. O inimigo silencioso é sempre o mais perigoso. Denúncias sobre tráfico de drogas: 181 (Disque Denúncia, anônimo) ou Polícia Federal pelo (67) 3382-1500.

Fontes e Referências

  • Campo Grande News (campograndenews.com.br)
  • Sejusp-MS (sejusp.ms.gov.br)
  • Gaeco / MPMS (mpms.mp.br)
  • Polícia Federal em MS (gov.br/pf)
  • DOF — Departamento de Operações de Fronteira (dof.ms.gov.br)

💰 Crime organizado em MS

1

Facções envolvidas

PCC + facção carioca

2

Objetivo

Dividir território em MS

3

Fronteira MS

1.498 km (PY + BO)

4

Apreensões DOF (2025)

150+ toneladas de drogas

Fonte: Campo Grande News

❓ Perguntas Frequentes

Sim. O Primeiro Comando da Capital (PCC) é a facção criminosa com maior presença em Mato Grosso do Sul, controlando o tráfico de drogas em praticamente todos os municípios do estado. A posição geográfica de MS — com 1.498 quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia — torna o estado corredor estratégico para o tráfico internacional de cocaína e maconha. O PCC controla as rotas de entrada de drogas pela fronteira e a distribuição para São Paulo e outros estados do Sudeste. A Sejusp estima que o PCC movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano em atividades ilícitas em MS, incluindo tráfico, extorsão e lavagem de dinheiro.

A investigação divulgada pelo Campo Grande News indica que o PCC firmou acordo com uma facção de origem carioca para dividir territórios e evitar conflitos em Mato Grosso do Sul. Historicamente, o PCC e o Comando Vermelho (CV) são rivais em nível nacional, mas alianças locais e temporárias acontecem quando há interesse mútuo — geralmente para evitar guerras que atraem atenção policial e prejudicam os negócios de ambos os lados. Em MS, a aliança teria como objetivo garantir que cada grupo opere em áreas definidas sem disputas violentas, reduzindo homicídios ligados ao tráfico e, consequentemente, a pressão das forças de segurança.

O governo de Mato Grosso do Sul mantém diversas frentes de combate ao crime organizado. O DOF (Departamento de Operações de Fronteira) atua na faixa de fronteira com operações diárias de apreensão de drogas e contrabando. O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), vinculado ao MPMS, conduz investigações contra lideranças das facções. A Sejusp coordena o programa de inteligência penitenciária para monitorar a comunicação de presos ligados ao PCC. A Polícia Federal mantém operações permanentes na fronteira. Em 2025, as forças de segurança de MS apreenderam mais de 150 toneladas de drogas e prenderam mais de 3.200 pessoas por tráfico.

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RA

Roberto Almeida

Repórter