Rompimento de adutora deixa 120 mil pessoas sem água em Campo Grande
Tubulação de 800 mm se rompeu na Avenida Guaicurus na manhã de quinta-feira. Sanesul prevê normalização em 36 horas. Região norte é a mais afetada.

Uma adutora de 800 mm de diâmetro se rompeu na Avenida Guaicurus, na região norte de Campo Grande, por volta das 9h40 de quinta-feira, 26 de março de 2026. O rompimento abriu uma cratera de 8 metros de diâmetro na pista, interditou a avenida nos dois sentidos e deixou 120 mil pessoas sem abastecimento de água nos bairros Coronel Antonino, Nova Lima, Jardim Noroeste, Monte Líbano e Caiobá.
A Sanesul mobilizou 3 equipes de manutenção e 2 retroescavadeiras para o reparo. A previsão de normalização é de 36 horas — o abastecimento deve voltar gradualmente a partir da manhã de sábado, 28 de março.
O que aconteceu
A adutora, instalada em 1998, transporta água tratada da Estação de Tratamento do Guariroba para os reservatórios da região norte. O rompimento ocorreu numa junta de dilatação, segundo avaliação preliminar da Sanesul. A pressão da água abriu o asfalto e formou um jato de 4 metros de altura que durou 20 minutos até o fechamento do registro.
A Agetran interditou a Avenida Guaicurus entre a Rua Bahia e a Rua Ceará — trecho de 600 metros. O trânsito foi desviado para a Rua Pernambuco e a Avenida Euler de Azevedo. O congestionamento na região norte durou até as 13h.
"A tubulação tem 28 anos. A vida útil projetada era de 30. Tá no limite. Precisamos trocar 14 km de adutora na região norte, mas o custo é de R$ 48 milhões e não temos orçamento", disse o diretor de operações da Sanesul, Carlos Magno Ferreira.
Dados técnicos do rompimento
| Detalhe | Valor |
|---|---|
| Diâmetro da adutora | 800 mm (ferro fundido dúctil) |
| Ano de instalação | 1998 (28 anos) |
| Vida útil projetada | 30 anos |
| Ponto de ruptura | Junta de dilatação (km 4,2) |
| Pressão operacional | 12 kgf/cm² |
| Cratera na pista | 8 metros de diâmetro |
| Volume estimado de água perdida | 2,4 milhões de litros |
| Custo do reparo emergencial | R$ 380 mil |
O impacto na população
Os 120 mil moradores afetados ficaram sem água na torneira a partir das 10h de quinta-feira. A Sanesul distribuiu 8 caminhões-pipa nos bairros atingidos, com prioridade para hospitais, escolas e asilos. O Hospital da Santa Casa, na região norte, acionou seu reservatório de emergência (capacidade para 48 horas).
Moradores formaram filas em bicas e poços artesianos. No bairro Nova Lima, uma bica pública na Rua Ceará teve fila de 40 pessoas com baldes e garrafões às 14h. "Não é a primeira vez. Toda vez que rompe adutora, a gente fica sem água 2, 3 dias. Já comprei caixa d'água de 1.000 litros por causa disso", disse o aposentado José Carlos, 68 anos.
A UBS do Coronel Antonino suspendeu atendimentos que exigem água (curativos, nebulização) e manteve apenas consultas médicas. A escola municipal do bairro dispensou os alunos ao meio-dia por falta de água para o refeitório e os banheiros. Três restaurantes da região fecharam por falta de condições sanitárias para funcionar.
Infraestrutura envelhecida: um problema crônico
O rompimento expõe um problema crônico: a rede de distribuição de água de Campo Grande tem 4.200 km de tubulação, dos quais 38% foram instalados antes de 2000. A taxa de perdas na distribuição é de 34% — a cada 100 litros tratados, 34 se perdem em vazamentos, conexões irregulares e erros de medição.
| Indicador | Campo Grande | Média Brasil | Referência internacional |
|---|---|---|---|
| Extensão da rede | 4.200 km | — | — |
| Idade média da rede | 22 anos | 18 anos | 12 anos (Alemanha) |
| Tubulação com +25 anos | 38% | 28% | 8% |
| Perdas na distribuição | 34% | 36% | 6% (Japão) |
| Rompimentos/ano (adutoras) | 14 | — | — |
A Sanesul investiu R$ 82 milhões em renovação de rede em Campo Grande em 2025 — substituindo 28 km de tubulação antiga. No ritmo atual, levaria 60 anos para trocar toda a rede com mais de 25 anos — uma defasagem que especialistas classificam como "dívida em infraestrutura".
O Plano Municipal de Saneamento prevê investimento de R$ 1,8 bilhão em 10 anos para universalizar o abastecimento e reduzir perdas para 25%. A meta do Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) é atingir 99% de cobertura de água tratada até 2033.
O que precisa mudar
Engenheiros de saneamento consultados pelo Foco do Estado apontam que a solução para o problema de rompimentos recorrentes não é apenas trocar tubulações velhas, mas modernizar a gestão da rede com tecnologia:
Monitoramento de pressão em tempo real: Sensores de pressão em pontos estratégicos da rede detectam variações anômalas que indicam vazamentos antes que se tornem rompimentos. O custo de implantação para Campo Grande é estimado em R$ 12 milhões.
Setorização da rede: Dividir a rede em zonas de pressão independentes — com válvulas de controle — permite isolar setores com vazamento sem afetar toda a região. Cidades como Campinas (SP) e Curitiba (PR) reduziram perdas em 15 pontos percentuais com esta técnica.
Substituição prioritária: Focar a troca em tubulações de ferro fundido com mais de 25 anos — material mais suscetível a corrosão — por PEAD (polietileno de alta densidade), que tem vida útil projetada de 50 anos.
Na Avenida Guaicurus, às 18h de quinta-feira, a equipe da Sanesul trabalhava sob holofotes. A cratera, agora drenada, revelava a tubulação de ferro fundido rachada — uma cicatriz de ferrugem de 1,5 metro. O encanador-chefe, Marcos Silva, 54 anos, olhou pra tubulação e balançou a cabeça. "Essa aqui eu já soldei 3 vezes. Na quarta, não segura mais."
💰 O preço da infraestrutura envelhecida
Moradores sem água
120 mil pessoas
Tempo sem abastecimento
36 horas
Custo para trocar rede antiga
R$ 48 milhões (só norte)
Perda na distribuição
34% do tratado
Fonte: Sanesul / Defesa Civil / Agetran
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
O que deveria ser prioridade no saneamento de CG?
Juliana Mendes
Repórter
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