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quinta-feira, 02 de abril de 2026
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Rompimento de adutora deixa 120 mil pessoas sem água em Campo Grande

Tubulação de 800 mm se rompeu na Avenida Guaicurus na manhã de quinta-feira. Sanesul prevê normalização em 36 horas. Região norte é a mais afetada.

Juliana Mendes5 min de leituraCampo Grande
Rompimento de adutora deixa 120 mil pessoas sem água em Campo Grande

Uma adutora de 800 mm de diâmetro se rompeu na Avenida Guaicurus, na região norte de Campo Grande, por volta das 9h40 de quinta-feira, 26 de março de 2026. O rompimento abriu uma cratera de 8 metros de diâmetro na pista, interditou a avenida nos dois sentidos e deixou 120 mil pessoas sem abastecimento de água nos bairros Coronel Antonino, Nova Lima, Jardim Noroeste, Monte Líbano e Caiobá.

A Sanesul mobilizou 3 equipes de manutenção e 2 retroescavadeiras para o reparo. A previsão de normalização é de 36 horas — o abastecimento deve voltar gradualmente a partir da manhã de sábado, 28 de março.

O que aconteceu

A adutora, instalada em 1998, transporta água tratada da Estação de Tratamento do Guariroba para os reservatórios da região norte. O rompimento ocorreu numa junta de dilatação, segundo avaliação preliminar da Sanesul. A pressão da água abriu o asfalto e formou um jato de 4 metros de altura que durou 20 minutos até o fechamento do registro.

A Agetran interditou a Avenida Guaicurus entre a Rua Bahia e a Rua Ceará — trecho de 600 metros. O trânsito foi desviado para a Rua Pernambuco e a Avenida Euler de Azevedo. O congestionamento na região norte durou até as 13h.

"A tubulação tem 28 anos. A vida útil projetada era de 30. Tá no limite. Precisamos trocar 14 km de adutora na região norte, mas o custo é de R$ 48 milhões e não temos orçamento", disse o diretor de operações da Sanesul, Carlos Magno Ferreira.

Dados técnicos do rompimento

Detalhe Valor
Diâmetro da adutora 800 mm (ferro fundido dúctil)
Ano de instalação 1998 (28 anos)
Vida útil projetada 30 anos
Ponto de ruptura Junta de dilatação (km 4,2)
Pressão operacional 12 kgf/cm²
Cratera na pista 8 metros de diâmetro
Volume estimado de água perdida 2,4 milhões de litros
Custo do reparo emergencial R$ 380 mil

O impacto na população

Os 120 mil moradores afetados ficaram sem água na torneira a partir das 10h de quinta-feira. A Sanesul distribuiu 8 caminhões-pipa nos bairros atingidos, com prioridade para hospitais, escolas e asilos. O Hospital da Santa Casa, na região norte, acionou seu reservatório de emergência (capacidade para 48 horas).

Moradores formaram filas em bicas e poços artesianos. No bairro Nova Lima, uma bica pública na Rua Ceará teve fila de 40 pessoas com baldes e garrafões às 14h. "Não é a primeira vez. Toda vez que rompe adutora, a gente fica sem água 2, 3 dias. Já comprei caixa d'água de 1.000 litros por causa disso", disse o aposentado José Carlos, 68 anos.

A UBS do Coronel Antonino suspendeu atendimentos que exigem água (curativos, nebulização) e manteve apenas consultas médicas. A escola municipal do bairro dispensou os alunos ao meio-dia por falta de água para o refeitório e os banheiros. Três restaurantes da região fecharam por falta de condições sanitárias para funcionar.

Infraestrutura envelhecida: um problema crônico

O rompimento expõe um problema crônico: a rede de distribuição de água de Campo Grande tem 4.200 km de tubulação, dos quais 38% foram instalados antes de 2000. A taxa de perdas na distribuição é de 34% — a cada 100 litros tratados, 34 se perdem em vazamentos, conexões irregulares e erros de medição.

Indicador Campo Grande Média Brasil Referência internacional
Extensão da rede 4.200 km
Idade média da rede 22 anos 18 anos 12 anos (Alemanha)
Tubulação com +25 anos 38% 28% 8%
Perdas na distribuição 34% 36% 6% (Japão)
Rompimentos/ano (adutoras) 14

A Sanesul investiu R$ 82 milhões em renovação de rede em Campo Grande em 2025 — substituindo 28 km de tubulação antiga. No ritmo atual, levaria 60 anos para trocar toda a rede com mais de 25 anos — uma defasagem que especialistas classificam como "dívida em infraestrutura".

O Plano Municipal de Saneamento prevê investimento de R$ 1,8 bilhão em 10 anos para universalizar o abastecimento e reduzir perdas para 25%. A meta do Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) é atingir 99% de cobertura de água tratada até 2033.

O que precisa mudar

Engenheiros de saneamento consultados pelo Foco do Estado apontam que a solução para o problema de rompimentos recorrentes não é apenas trocar tubulações velhas, mas modernizar a gestão da rede com tecnologia:

Monitoramento de pressão em tempo real: Sensores de pressão em pontos estratégicos da rede detectam variações anômalas que indicam vazamentos antes que se tornem rompimentos. O custo de implantação para Campo Grande é estimado em R$ 12 milhões.

Setorização da rede: Dividir a rede em zonas de pressão independentes — com válvulas de controle — permite isolar setores com vazamento sem afetar toda a região. Cidades como Campinas (SP) e Curitiba (PR) reduziram perdas em 15 pontos percentuais com esta técnica.

Substituição prioritária: Focar a troca em tubulações de ferro fundido com mais de 25 anos — material mais suscetível a corrosão — por PEAD (polietileno de alta densidade), que tem vida útil projetada de 50 anos.

Na Avenida Guaicurus, às 18h de quinta-feira, a equipe da Sanesul trabalhava sob holofotes. A cratera, agora drenada, revelava a tubulação de ferro fundido rachada — uma cicatriz de ferrugem de 1,5 metro. O encanador-chefe, Marcos Silva, 54 anos, olhou pra tubulação e balançou a cabeça. "Essa aqui eu já soldei 3 vezes. Na quarta, não segura mais."

💰 O preço da infraestrutura envelhecida

1

Moradores sem água

120 mil pessoas

2

Tempo sem abastecimento

36 horas

3

Custo para trocar rede antiga

R$ 48 milhões (só norte)

4

Perda na distribuição

34% do tratado

Fonte: Sanesul / Defesa Civil / Agetran

❓ Perguntas Frequentes

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O que deveria ser prioridade no saneamento de CG?

#adutora#falta de água#Campo Grande#Sanesul#abastecimento#emergência
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Juliana Mendes

Repórter