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quinta-feira, 02 de abril de 2026
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Operário morre em acidente de trabalho em frigorífico de Dourados

Trabalhador de 34 anos foi atingido por peça de maquinário na linha de abate. MPT investiga condições de segurança. Sindicato cobra interdição.

Camila Ferreira6 min de leituraDourados
Operário morre em acidente de trabalho em frigorífico de Dourados

Um operário de 34 anos morreu na manhã de terça-feira, 11 de fevereiro de 2026, após ser atingido por uma peça de maquinário na linha de abate de um frigorífico de grande porte em Dourados, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul. A vítima, identificada como Cláudio Henrique dos Santos, trabalhador do setor de abate há 6 anos, foi socorrida pelo Samu, mas chegou ao Hospital da Vida já sem sinais vitais. O Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou inquérito para investigar as condições de segurança da unidade.

O acidente

O acidente ocorreu por volta das 8h45, durante a realização de manutenção corretiva na nória — sistema de esteira aérea com ganchos metálicos que transporta as carcaças de bovinos ao longo da linha de abate. Segundo o relato de colegas de trabalho à Polícia Civil, Cláudio realizava um ajuste em um dos braços mecânicos da nória quando a peça — pesando aproximadamente 35 quilos — se desprendeu e o atingiu na região da cabeça e pescoço.

O trabalhador usava equipamentos de proteção individual (EPI) — capacete, luvas e óculos de segurança —, mas o impacto de uma peça de 35 kg caindo de uma altura de 3,5 metros excede a capacidade de proteção de qualquer capacete leve padrão. Colegas tentaram prestar primeiros socorros e acionaram o Samu, que chegou em 12 minutos. Os paramédicos constataram parada cardiorrespiratória e iniciaram manobras de reanimação durante o transporte, sem sucesso.

A empresa emitiu nota lamentando o falecimento e informando que "colabora plenamente com as autoridades na investigação das causas do acidente". O nome do frigorífico não é publicado a pedido da família da vítima, que prefere preservar a privacidade enquanto aguarda o resultado da investigação.

A investigação do MPT

O procurador do Trabalho responsável pelo caso, Dr. Cícero Rufino Pereira, do MPT em Dourados, determinou inspeção imediata no local do acidente e solicitou à empresa os seguintes documentos: Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), registros de manutenção preventiva da nória, treinamentos de segurança dos funcionários, prontuários médicos ocupacionais e relatórios de acidentes anteriores.

A perícia técnica, realizada por engenheiro de segurança do trabalho designado pelo MPT, identificou preliminarmente duas irregularidades:

Manutenção corretiva sem isolamento: O procedimento de manutenção foi realizado com a nória em condição de "quase operação" — as demais seções da esteira continuavam em movimento enquanto o técnico trabalhava no trecho com defeito. A NR-12 (Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos) exige o bloqueio total da máquina durante qualquer intervenção mecânica, com sistema de lockout/tagout (bloqueio e sinalização).

Ausência de dispositivo de retenção: O braço mecânico que se desprendeu não possuía trava de segurança secundária — um dispositivo que, caso a fixação principal falhe, impede a queda da peça. A NR-36 (específica para frigoríficos) exige redundância nos sistemas de segurança de componentes aéreos.

Frigoríficos e segurança do trabalho: um problema crônico

O acidente em Dourados não é um caso isolado. Os frigoríficos são consistentemente uma das atividades econômicas mais perigosas do Brasil. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab/MPT) mostram que o setor de "abate de bovinos, equinos, ovinos e caprinos" registrou 14.800 acidentes e 42 mortes no Brasil em 2025.

Indicador MS (2025) Brasil (2025)
Acidentes em frigoríficos 1.240 14.800
Acidentes fatais 6 42
Taxa de acidentalidade 28,4/1.000 trabalhadores 24,2/1.000
Doenças ocupacionais notificadas 580 6.200
Afastamentos >15 dias 340 3.800

Mato Grosso do Sul tem a 4ª maior taxa de acidentes em frigoríficos entre os estados brasileiros — 28,4 acidentes por 1.000 trabalhadores, acima da média nacional de 24,2. O estado concentra 18 frigoríficos de grande porte (JBS, Marfrig, Minerva Foods), que empregam diretamente 43.600 trabalhadores.

Os tipos de acidente mais comuns são: cortes com facas e serras (38%), queimaduras (12%), lesões por esforço repetitivo — LER/DORT (22%), quedas de nível (10%), choques com máquinas (8%) e impactos por peças/objetos (10% — categoria do acidente de Cláudio).

A NR-36 e seus limites

A NR-36 — Norma Regulamentadora nº 36, específica para "Segurança e Saúde no Trabalho em Empresas de Abate e Processamento de Carnes e Derivados" — foi publicada em 2013 após anos de pressão sindical e de dados alarmantes de acidentalidade. Ela estabelece pausas obrigatórias (20 minutos para cada 1h40 de trabalho na linha), limites de temperatura (máximo de -1°C em câmaras frias, com jornada máxima de 6h20), rodízio de funções e treinamento mínimo de 8 horas para operadores de máquinas.

No entanto, a fiscalização é deficitária. A Superintendência Regional do Trabalho em MS conta com apenas 14 auditores-fiscais para cobrir todo o estado — um para cada 3.100 trabalhadores em frigoríficos. O ritmo de fiscalização permite visitar cada frigorífico, em média, uma vez a cada 2,5 anos.

A reação do sindicato

O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Dourados (Stiad) emitiu nota exigindo a interdição imediata do setor de abate até a conclusão da perícia e a implementação de todas as medidas corretivas. O presidente do sindicato, Valdecir Oliveira, classificou o acidente como "previsível e evitável".

"Há anos denunciamos o ritmo alucinante das linhas de abate. As empresas aumentam a velocidade da nória para abater mais cabeças por hora e os trabalhadores são pressionados a acompanhar. Isso custa vidas", declarou Oliveira.

Cláudio Henrique dos Santos deixa esposa e 2 filhos, de 8 e 4 anos. A família será assistida pelo sindicato na solicitação de pensão por morte junto ao INSS e na eventual ação de indenização contra a empresa por danos materiais e morais.

Fonte: MPT / Polícia Civil / Sindicato dos Trabalhadores em Frigoríficos / TRT-24

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Camila Ferreira

Repórter