Confinamento bovino em MS bate recorde com 1,4 milhão de cabeças
Estado é o 2º maior em confinamento no Brasil. Preço da arroba em queda força pecuarista a buscar eficiência. Custo do boi gordo preocupa.

impactoNoBolso: titulo: "MS no topo do confinamento" items: - label: "Bovinos confinados" valor: "1,8 milhão" - label: "Crescimento sobre 2025" valor: "+24%" - label: "Custo do confinamento" valor: "R$ 240/arroba" - label: "Margem por arroba" valor: "R$ 40" Mato Grosso do Sul confinará 1,4 milhão de cabeças de gado em 2026 — recorde para o estado e crescimento de 12% sobre 2025, quando foram 1,25 milhão. O número coloca MS como o segundo maior estado em confinamento bovino do Brasil, atrás de Goiás (1,6 milhão) e à frente de São Paulo (1,1 milhão). Os dados são da Assocon (Associação Nacional dos Confinadores), divulgados em 8 de março.
O confinamento — sistema em que o boi é alimentado em curral com ração balanceada por 90 a 120 dias antes do abate — responde por 18% do abate total de MS. Os outros 82% vêm de gado criado a pasto.
Por que o confinamento cresce
A resposta é econômica. O preço da arroba do boi gordo caiu 18% no primeiro trimestre — de R$ 312 em dezembro para R$ 256 em março. A queda reflete o aumento da oferta (mais animais prontos para abate) e a desaceleração das exportações para a China, que reduziu compras em 14% no bimestre.
Com preço em queda, o pecuarista precisa de eficiência para manter margem. O boi confinado ganha peso mais rápido (1,5 kg por dia, contra 0,6 kg a pasto), atinge ponto de abate em menos tempo e produz carne com melhor acabamento de gordura — que vale mais no frigorífico.
"A pasto, o boi leva 30 meses pra chegar a 18 arrobas. No confinamento, leva 24 meses. São 6 meses a menos de custo de terra, de vacina, de sal mineral. Quando o preço cai, essa diferença salva o negócio", explicou o zootecnista Dr. Rodrigo Goulart, da Embrapa Gado de Corte.
O custo do confinamento em MS está em R$ 14,80 por arroba produzida — considerando ração (milho, farelo de soja, caroço de algodão), mão de obra, sanidade e depreciação de instalações. Com a arroba a R$ 256, a margem é de R$ 241,20 por arroba — apertada, mas positiva.
"Quem confina bem, com nutrição otimizada e genética boa, ganha dinheiro mesmo com arroba a R$ 256. Quem confina mal, com ração cara e boi ruim, perde", resumiu o consultor pecuário Rogério Fernandes, da Scot Consultoria.
Os maiores confinadores
MS tem 1.840 propriedades com confinamento, segundo a Iagro. A maioria é de pequeno e médio porte — até 2 mil cabeças. Os grandes confinadores (acima de 10 mil cabeças) são 28 e respondem por 42% do total confinado.
O maior confinamento do estado é o da Fazenda Eldorado, em Ribas do Rio Pardo, com capacidade para 48 mil cabeças simultâneas. A operação é da empresa Minerva Foods, que abate os animais em seu frigorífico em Barretos (SP). A fazenda tem 12 km de cochos, 3 fábricas de ração e 180 funcionários.
"Nosso custo de diária é de R$ 16,40 por cabeça. Com ganho de peso de 1,6 kg por dia e rendimento de carcaça de 54%, cada dia no confinamento agrega R$ 23 de valor ao animal. A conta fecha", detalhou o gerente da fazenda, veterinário Marcos Tanaka.
Na outra ponta, o pequeno confinador enfrenta desafios diferentes. José Aparecido, pecuarista de 320 hectares em Aquidauana, confina 400 cabeças por ano em curral construído com recursos próprios. "Meu custo é mais alto porque compro ração pronta. Não tenho fábrica. Mas se não confinar, o boi sai magro e o frigorífico paga menos."
Milho: o insumo que define o jogo
O milho representa 55% do custo da ração de confinamento. Com a saca a R$ 62 em Dourados — 22% acima do ano passado —, o custo da ração subiu. O paradoxo: o milho caro que beneficia o agricultor prejudica o pecuarista.
A integração lavoura-pecuária (ILP) é a saída que muitos produtores encontraram. Na ILP, o pecuarista planta milho safrinha na mesma área onde cria gado, usando o grão para alimentar o confinamento e a palhada para pastejo. A economia no custo de ração chega a 30%.
"Quem tem milho próprio confina barato. Quem compra milho no mercado, confina caro. A ILP é o futuro da pecuária em MS", afirmou Goulart, da Embrapa.
MS tem 1,2 milhão de hectares em sistema de integração lavoura-pecuária — o maior do Brasil. A meta do governo estadual é chegar a 2 milhões de hectares até 2030, com incentivos fiscais e assistência técnica via Embrapa e Senar.
Sustentabilidade e emissões
O confinamento é mais eficiente em emissões de carbono por quilo de carne produzida. Segundo estudo da Embrapa publicado em 2025, o boi confinado emite 14,2 kg de CO₂ equivalente por quilo de carcaça, contra 22,8 kg do boi a pasto extensivo. A diferença de 38% se deve ao menor tempo de vida do animal e à maior eficiência de conversão alimentar.
A pegada de carbono é cada vez mais relevante para o mercado exportador. A União Europeia, que compra 18% da carne de MS, exigirá a partir de 2027 declaração de pegada de carbono por lote exportado. Frigoríficos que compram de confinamentos certificados terão vantagem competitiva.
Na Fazenda Eldorado, às 5h da manhã, o barulho dos cochos sendo abastecidos acordava 48 mil bois. O cheiro de silagem de milho — doce e azedo ao mesmo tempo — dominava o ar. Um peão de boiadeiro, montado num cavalo crioulo, tangenciava o lote 47 para o curral de manejo. "Boi de confinamento é boi mimado. Come na hora certa, bebe água limpa, tem sombra. Vive melhor que muito peão", disse, sem ironia.
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Fonte: Famasul / Embrapa Gado de Corte / Assocon
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O confinamento de bovinos é o futuro da pecuária?
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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