Pular para o conteúdo
quinta-feira, 02 de abril de 2026
🏥 Saúde

Dengue: MS decreta alerta epidemiológico com 12 mil casos confirmados

Estado registra aumento de 180% nos casos em relação a 2025. Campo Grande, Dourados e Três Lagoas concentram 60% das notificações.

Fernanda Oliveira6 min de leituraCampo Grande
Dengue: MS decreta alerta epidemiológico com 12 mil casos confirmados

A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul decretou alerta epidemiológico de dengue após o número de casos confirmados ultrapassar 12 mil no primeiro trimestre de 2026 — aumento de 180% em relação ao mesmo período de 2025. O estado já registra oito óbitos pela doença, todos em pacientes com comorbidades, e a situação é considerada a mais grave dos últimos cinco anos. Quarenta e dois dos 79 municípios do estado apresentam índice de infestação pelo mosquito Aedes aegypti acima do nível de risco.

O decreto, publicado em edição extra do Diário Oficial, autoriza a mobilização de recursos emergenciais dos fundos estadual e municipais de saúde, antecipa a aquisição de inseticidas e insumos para diagnóstico, e permite a contratação temporária de profissionais de saúde para reforçar o atendimento nas regiões mais afetadas. A medida também autoriza o uso de aeronaves para pulverização de inseticida em áreas urbanas com alta infestação.

Perfil epidemiológico

Município Casos confirmados Incidência/100 mil Óbitos
Campo Grande 4.800 520 3
Dourados 1.600 680 2
Três Lagoas 1.200 920 1
Naviraí 680 1.340 1
Ponta Porã 520 580 0
Corumbá 480 440 1
Demais municípios 2.720 0
Total MS 12.000 428 8

A análise dos dados epidemiológicos revela que o surto de 2026 é predominantemente causado pelo sorotipo DENV-2, que circula com maior intensidade em MS pela primeira vez desde 2019. A reintrodução desse sorotipo após um período de baixa circulação encontrou uma população com imunidade reduzida, o que explica a explosão de casos e a maior proporção de formas graves da doença em relação a surtos anteriores.

Campo Grande concentra 4.800 casos (40% do total estadual), com incidência de 520 casos por 100 mil habitantes — mais que o dobro do limiar de epidemia definido pelo Ministério da Saúde. Dourados registra 1.600 casos e Três Lagoas 1.200, completando o trio de municípios em situação mais crítica. No interior, cidades como Naviraí, Ponta Porã e Corumbá também apresentam números preocupantes.

A faixa etária mais atingida são adultos entre 20 e 49 anos, que representam 58% dos casos. No entanto, a maior preocupação é com crianças de 5 a 14 anos, que apresentam a maior taxa de internação hospitalar por dengue grave — 12% dos casos nessa faixa etária evoluem para formas hemorrágicas ou com sinais de alarme, ante 4% na população adulta.

"O sorotipo DENV-2 tem uma característica peculiar: ele causa doença mais grave em reinfecções. Ou seja, quem já pegou dengue por outro sorotipo e agora contrai o DENV-2 tem risco até 20 vezes maior de desenvolver dengue grave. Por isso estamos vendo tantas internações e formas hemorrágicas", explicou o infectologista e diretor de Vigilância em Saúde da SES-MS.

Ações de combate

O governo estadual anunciou um plano de contingência com seis frentes de ação que serão implementadas simultaneamente nos 42 municípios em situação de risco. A primeira frente é a intensificação do combate ao vetor, com mutirões de limpeza e eliminação de criadouros que mobilizarão 3.200 agentes de endemias — incluindo 800 contratados emergencialmente.

A segunda frente é a pulverização de inseticida com veículos nebulizadores nas áreas de maior incidência. A SES-MS adquiriu 15 novos veículos nebulizadores e 800 mil litros de inseticida de última geração, de classe toxicológica IV (pouco tóxico para mamíferos), para distribuição aos municípios. A aplicação segue protocolo técnico que determina nebulização no período da manhã, quando o Aedes aegypti está mais ativo.

A terceira frente envolve o reforço da rede de atendimento médico. O governo autorizou a abertura de Centros de Hidratação em oito municípios, unidades específicas para atendimento de pacientes com dengue leve que precisam de hidratação endovenosa mas não requerem internação hospitalar. Cada centro terá capacidade para 60 pacientes simultâneos e funcionará 24 horas, desafogando as UPAs e hospitais.

A quarta frente é a campanha de comunicação massiva em rádio, televisão e redes sociais, com foco na eliminação de criadouros domésticos e na identificação dos sinais de alarme da dengue grave — dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas e queda abrupta de temperatura — que devem levar o paciente imediatamente a uma unidade de saúde.

A quinta frente é o diagnóstico laboratorial acelerado. O Laboratório Central (Lacen-MS) ampliou a capacidade de processamento de exames RT-PCR para dengue de 500 para 1.500 amostras diárias, e kits de teste rápido NS1 estão sendo distribuídos a todas as UBSs e UPAs do estado para diagnóstico no ponto de atendimento em 15 minutos.

A sexta frente é a vigilância entomológica reforçada, com instalação de armadilhas inteligentes (ovitrampas) que monitoram em tempo real a densidade de ovos do mosquito em cada bairro, permitindo direcionar as ações de combate com precisão cirúrgica.

Vacinação Qdenga

A vacina contra dengue Qdenga, aprovada pela Anvisa e incorporada ao SUS em 2024, está disponível para a faixa etária de 4 a 60 anos em MS, mas a cobertura vacinal no estado atingiu apenas 32% da população-alvo. O Ministério da Saúde enviou 180 mil doses adicionais para MS em caráter emergencial, e a SES-MS está organizando campanhas de vacinação em escolas, empresas e postos volantes para ampliar a cobertura.

"A vacina não impede completamente a infecção, mas reduz em 80% o risco de dengue grave e hospitalização. Quem está na faixa etária indicada e ainda não se vacinou deve procurar uma unidade de saúde o quanto antes", recomendou o secretário estadual de Saúde.

Projeções e alerta

Especialistas em epidemiologia da UFMS projetam que o pico do surto ainda não foi atingido e deve ocorrer entre abril e maio, quando as condições climáticas — fim do período chuvoso com temperaturas elevadas — favorecem a proliferação do mosquito. A estimativa é que MS possa ultrapassar 30 mil casos até o fim do primeiro semestre, o que configuraria a pior epidemia de dengue da história do estado.

O Ministério Público Estadual notificou 15 municípios que não apresentaram plano de contingência adequado e determinou prazo de 10 dias para adequação sob pena de responsabilização dos gestores por omissão em matéria de saúde pública.

Lições de surtos anteriores e preparação institucional

O enfrentamento do surto de 2026 se beneficia de lições aprendidas nos episódios de 2019 e 2023, quando a resposta estadual foi considerada tardia e desarticulada. A principal mudança institucional foi a criação, em 2024, do Centro de Operações de Emergência em Saúde (COES-Dengue), unidade permanente da SES-MS que monitora indicadores epidemiológicos em tempo real e tem autonomia para acionar protocolos de emergência sem necessidade de autorização hierárquica superior — reduzindo o tempo de resposta de semanas para horas.

O COES-Dengue opera com equipe multidisciplinar de 35 profissionais, incluindo epidemiologistas, entomólogos, analistas de dados e comunicadores de risco, e utiliza um dashboard que integra dados de notificação compulsória, resultados laboratoriais, índices de infestação por mosquito e previsões meteorológicas para antecipar o comportamento da epidemia com até quatro semanas de antecedência.

A experiência de 2023, quando a falta de kits de diagnóstico rápido causou atrasos de até cinco dias na confirmação de casos, levou à criação de um estoque estratégico estadual de 500 mil testes rápidos NS1, dimensionado para atender seis meses de epidemia sem necessidade de aquisição emergencial. O estoque, armazenado no Depósito Central de Medicamentos da SES-MS com controle rigoroso de validade e temperatura, garante que nenhum município fique desabastecido durante o pico do surto.

A articulação interestadual também foi aprimorada. MS firmou acordo de cooperação com Mato Grosso, Goiás e Paraná para compartilhamento de leitos de UTI, transferência de pacientes graves e cessão temporária de equipamentos e profissionais em caso de colapso da capacidade assistencial de qualquer um dos estados signatários. O acordo, mediado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), é o primeiro do tipo no Centre-Oeste e poderá ser acionado caso a projeção de 30 mil casos até junho se confirme.

💰 Custo da Dengue para Você e o Estado

1

Custo médio de internação por dengue

R$ 4.200 por paciente

2

Dias de trabalho perdidos

7 a 14 dias por caso

3

Gasto estadual em combate ao vetor

R$ 48 milhões em 2026

4

Vacina Qdenga disponível

Grátis no SUS (4 a 60 anos)

Fonte: SES-MS

❓ Perguntas Frequentes

DENV-2, que estava com baixa circulação desde 2019. Isso faz com que a população tenha menor imunidade, causando mais casos graves.

Sim. A vacina Qdenga está no SUS para pessoas de 4 a 60 anos, mas a cobertura em MS é de apenas 32%. São necessárias 2 doses.

Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas e queda abrupta de temperatura. Procure a UPA imediatamente.

Não deixe água parada em pneus, vasos, garrafas e calhas. O mosquito se reproduz em água limpa e parada — uma tampinha de garrafa já basta.

🗳️ Enquete

Você já tomou a vacina contra dengue (Qdenga)?

#saude#dengue#epidemia#alerta#MS
Compartilhar:f𝕏watg
FO

Fernanda Oliveira

Repórter