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quinta-feira, 02 de abril de 2026
📚 Educação

Evasão escolar no ensino médio de MS atinge 9,8% e preocupa secretaria

Quase 1 em cada 10 alunos abandona a escola antes de concluir. Interior e zona rural têm taxas maiores. Trabalho precoce é principal causa.

Patrícia Souza6 min de leituraCampo Grande
Evasão escolar no ensino médio de MS atinge 9,8% e preocupa secretaria

A taxa de evasão escolar no ensino médio da rede estadual de Mato Grosso do Sul atingiu 9,8% em 2025, de acordo com dados preliminares do Censo Escolar compilados pela Secretaria Estadual de Educação (SED). O percentual significa que aproximadamente 12.700 dos 129 mil alunos matriculados no ensino médio abandonaram os estudos antes da conclusão — quase 1 em cada 10 jovens sul-mato-grossenses sai da escola sem diploma.

O mapa da evasão em MS

A evasão escolar em Mato Grosso do Sul não é distribuída uniformemente. As maiores taxas estão concentradas em municípios do interior e em áreas rurais, onde a combinação de trabalho precoce, distâncias longas e falta de transporte escolar cria barreiras intransponíveis para muitas famílias.

Município/Região Taxa de evasão Alunos evadidos Principal causa
Corumbá 14,2% 640 Trabalho em fazendas
Naviraí 13,8% 380 Trabalho em frigoríficos
Ponta Porã 13,1% 520 Contrabando fronteiriço
Aquidauana 12,4% 340 Zona rural dispersa
Dourados 10,6% 980 Trabalho e gravidez
Três Lagoas 9,2% 480 Indústria de celulose
Campo Grande 7,4% 3.200 Desinteresse e drogas
Média MS 9,8% 12.700

Campo Grande, com infraestrutura educacional mais desenvolvida e maior oferta de escolas, tem a menor taxa (7,4%), mas concentra o maior número absoluto de evadidos (3.200) simplesmente por ter a maior matrícula do estado.

As causas da evasão

A SED realizou um estudo qualitativo com 1.800 alunos que abandonaram a escola em 2025, entrevistando-os em suas residências com apoio de assistentes sociais. Os resultados revelam que a evasão raramente tem uma causa única — é geralmente o resultado de múltiplos fatores sobrepostos:

Trabalho precoce ou informal (38%): O fator mais frequentemente citado. Jovens de famílias de baixa renda ingressam no mercado informal — como ajudantes em fazendas, frigoríficos, comércios e construção civil — antes de completar o ensino médio. A remuneração imediata, ainda que baixa (R$ 800-1.200/mês), é percebida como mais urgente do que o diploma.

Em Naviraí, polo de frigoríficos, a evasão está diretamente ligada à contratação de menores de 18 anos para funções auxiliares nas plantas de abate — prática ilegal que persiste apesar da fiscalização do Ministério do Trabalho. "O jovem vê o vizinho ganhando R$ 1.500 no frigorífico e pergunta: por que eu deveria ficar na escola?", descreve a diretora da Escola Estadual Gabriel Terra, Maria das Graças Lima.

Gravidez na adolescência (18%): MS tem a 5ª maior taxa de gravidez na adolescência entre os estados brasileiros. Meninas que engravidam entre 15 e 17 anos frequentemente abandonam a escola por falta de creches, pressão familiar e dificuldade de conciliar maternidade com estudos.

Desinteresse pelo currículo (16%): Alunos relatam que o conteúdo escolar é "desconectado da realidade" e "não serve para nada". A falta de atividades práticas, laboratoriais e de conexão com o mundo do trabalho reduz a percepção de valor do ensino médio.

Dificuldade de transporte (14%): Em áreas rurais, alunos precisam percorrer até 60 km em estradas de terra para chegar à escola mais próxima. O transporte escolar, quando existe, é frequentemente irregular — com ônibus quebrados, atrasos e superlotação.

Uso de drogas e envolvimento com criminalidade (8%): Especialmente em bairros periféricos de Campo Grande e Dourados, o tráfico de drogas compete com a escola pela atenção dos jovens, oferecendo renda imediata e status social.

Outros fatores (6%): Incluem bullying, violência doméstica, transtornos de saúde mental e falta de documentação (especialmente entre filhos de imigrantes paraguaios na fronteira).

O impacto econômico da evasão

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstram que um trabalhador sem ensino médio completo ganha, ao longo da vida, R$ 1,2 milhão a menos do que um trabalhador com diploma — diferença que se traduz em menor poder de compra, menor contribuição previdenciária e maior dependência de programas sociais.

Para o estado, cada aluno evadido representa um desperdício de R$ 28 mil por ano — valor investido pelo SUS em educação por aluno que é "perdido" quando o jovem abandona. Com 12.700 evadidos, MS "joga fora" aproximadamente R$ 355 milhões em investimentos educacionais por ano.

O programa de combate à evasão

A SED implementou em 2025 o Programa Fica Comigo, com três ações principais:

Busca ativa escolar: Equipes compostas por professores, assistentes sociais e agentes comunitários visitam as residências de alunos que acumulam 10 ou mais faltas consecutivas. Em 2025, a busca ativa recuperou 2.400 dos 12.700 evadidos — taxa de recuperação de 19%.

Bolsa permanência: Benefício de R$ 200 por mês para alunos do ensino médio com frequência mínima de 85% e renda familiar de até 1 salário mínimo por pessoa. O programa piloto atendeu 3.200 alunos em 2025 e será ampliado para 8.000 em 2026, com investimento de R$ 19,2 milhões.

Ampliação do tempo integral: A SED pretende converter 60 escolas estaduais para o modelo de jornada integral de 7 horas até 2028. Dados internos mostram que as 24 escolas integrais já existentes em MS têm taxa de evasão de apenas 3,2% — contra 12,4% nas escolas de turno parcial de 4 horas.

"O tempo integral é a arma mais eficaz contra a evasão. O aluno recebe 3 refeições, acesso a internet, atividades esportivas e culturais, e uma rotina estruturada. Isso compete diretamente com as alternativas que levam à evasão — o trabalho precoce e o ócio", explicou o secretário de Educação, Dr. Hélio Daher.

A meta da SED é reduzir a taxa de evasão para 5% até 2028 — nível ainda distante dos melhores estados brasileiros (Santa Catarina, 3,4%) e de países como Japão (1,3%) e Finlândia (0,8%), mas significativamente melhor do que os atuais 9,8%.

💰 O custo da evasão escolar para a sociedade

1

Alunos evadidos em MS (2025)

12.700 jovens

2

Perda salarial ao longo da vida

R$ 1,2 milhão/pessoa

3

Custo por aluno SUS abandonou

R$ 28 mil/ano (investido e perdido)

4

Bolsa permanência proposta

R$ 200/mês

Fonte: Secretaria de Educação de MS / Inep / Censo Escolar

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PS

Patrícia Souza

Repórter