Chuvas intensas provocam alagamentos e desalojam 120 famílias em Aquidauana
Rio Aquidauana subiu 4 metros acima do nível normal em seis horas. Defesa Civil decretou estado de alerta e abriu abrigos em três escolas municipais.

Chuvas intensas que atingiram a bacia do rio Aquidauana entre a tarde de sábado e a madrugada deste domingo provocaram alagamentos em pelo menos oito bairros da cidade de Aquidauana, na região pantaneira de Mato Grosso do Sul. O rio subiu 4 metros em menos de seis horas, atingindo a cota de 7,2 metros às 3h da madrugada — 2,7 metros acima da cota de alerta de 4,5 metros. A Defesa Civil do município decretou estado de alerta e mobilizou equipes para remoção de famílias das áreas mais vulneráveis.
Até o final da manhã deste domingo, 120 famílias — aproximadamente 480 pessoas — haviam sido desalojadas e encaminhadas para três escolas municipais transformadas em abrigos de emergência. Os bairros mais atingidos foram Guanandy, São Francisco, Santa Terezinha, Vila Trindade e a comunidade ribeirinha do Porto Geral, todos localizados nas áreas mais baixas da cidade, próximas às margens do rio.
Operação de resgate
O Corpo de Bombeiros de Aquidauana, reforçado por equipes de Campo Grande e Anastácio, realizou 47 resgates desde a madrugada, utilizando três botes infláveis e dois veículos anfíbios cedidos pelo Exército. Os resgates mais críticos ocorreram na Vila Trindade, onde a água invadiu residências alcançando até 1,5 metro de altura em alguns pontos, impossibilitando a saída dos moradores por conta própria.
"Às 2h da manhã recebemos os primeiros chamados de moradores ilhados. A velocidade da enchente pegou muitas famílias de surpresa porque o rio subiu muito rápido. Em enchentes anteriores, a subida era gradual, ao longo de dois ou três dias. Desta vez, em poucas horas a água já estava dentro das casas", relatou o capitão do Corpo de Bombeiros que coordenou a operação.
Uma idosa de 78 anos precisou ser resgatada do telhado de sua residência no bairro Guanandy, onde se refugiou com dois netos quando a água invadiu a casa durante a madrugada. Os três foram retirados em segurança e encaminhados ao abrigo da Escola Municipal José de Alencar. Não houve registro de mortes ou ferimentos graves até o fechamento desta edição.
Situação dos abrigos
Os três abrigos montados pela Defesa Civil atendem os desalojados com alimentação, água potável, colchões e atendimento médico básico. A Secretaria de Assistência Social do município mobilizou 25 servidores para o cadastramento das famílias e avaliação das necessidades imediatas.
| Abrigo | Famílias | Capacidade |
|---|---|---|
| EM José de Alencar | 52 | 80 |
| EM Pantaneira | 43 | 60 |
| EM Indígena (Aldeia Limão Verde) | 25 | 40 |
A comunidade indígena Terena da Aldeia Limão Verde, localizada nas proximidades de Aquidauana, também foi afetada pelas chuvas. Pelo menos 25 famílias indígenas tiveram casas invadidas pela água e foram acolhidas na escola da aldeia. A FUNAI e o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) de MS enviaram equipe para avaliar a situação e garantir atendimento de saúde aos indígenas afetados.
Infraestrutura urbana comprometida
Além das residências, a enchente causou estragos significativos na infraestrutura urbana. A Prefeitura contabiliza danos em pelo menos 12 ruas asfaltadas que tiveram o pavimento destruído pela força da água, três pontes de madeira em bairros periféricos que foram arrastadas, e a interrupção do abastecimento de água em cinco bairros após a estação de tratamento operar em capacidade reduzida por conta da turbidez elevada do rio.
A concessionária de energia elétrica Energisa informou que realizou corte preventivo em transformadores de oito bairros para evitar riscos de eletrocussão, afetando aproximadamente 3.500 unidades consumidoras. A previsão de religamento depende do recuo das águas, estimado para as próximas 24 a 48 horas.
O trânsito na BR-262, principal rodovia de acesso a Aquidauana, foi parcialmente interrompido no trecho urbano da cidade, com desvio pelo anel viário. A PRF montou sinalização e controle de tráfego nos acessos à cidade. A rodovia MS-345, que liga Aquidauana a Miranda, foi interditada no km 14 devido a ponto de alagamento intransponível.
Previsão meteorológica e alerta
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mantém alerta de chuvas intensas para a região de Aquidauana e Pantanal até terça-feira, 1º de abril, com acumulados previstos de 80 a 120 milímetros em 48 horas. A Defesa Civil estadual elevou o nível de alerta para "atenção máxima" na bacia do rio Aquidauana e em afluentes do rio Miranda.
"O solo está saturado e qualquer chuva adicional vai escoar diretamente para os rios. A previsão de mais chuvas fortes nos próximos dois dias é muito preocupante. Estamos preparando plano de contingência para um cenário de cota máxima de enchente, o que significaria alagamento em áreas que normalmente não são atingidas", alertou o coordenador da Defesa Civil estadual.
O governo de MS informou que enviará equipe do Corpo de Bombeiros Militar com equipamentos especializados para reforçar as operações em Aquidauana e que o governador Eduardo Riedel determinou a liberação de R$ 2 milhões em recursos de emergência para o município. A Prefeitura de Aquidauana solicitou reconhecimento de estado de calamidade pública ao governo estadual, procedimento necessário para acessar recursos federais de reconstrução.
Histórico de enchentes
Aquidauana convive historicamente com enchentes do rio que dá nome à cidade. O evento atual é o mais severo desde março de 2020, quando o rio atingiu 8,1 metros e desalojou mais de 600 famílias. O Plano Municipal de Saneamento, aprovado em 2023, prevê obras de macrodrenagem e construção de barragens de contenção no alto curso do rio, mas o investimento estimado de R$ 180 milhões ainda não foi viabilizado.
Moradores dos bairros mais afetados relatam que convivem com o medo das enchentes todo verão. "Todo ano é a mesma coisa. A prefeitura faz limpeza de bueiro, distribui lona, mas não resolve. Precisamos de obras de verdade, de mudar as pessoas de lugar. Não dá para viver assim, com medo de dormir quando chove", desabafou uma moradora do bairro Guanandy que está pela quarta vez em um abrigo desde 2019.
Fonte: Defesa Civil de Aquidauana
❓ Perguntas Frequentes
Aproximadamente 120 famílias, totalizando cerca de 480 pessoas, foram removidas de áreas de risco nos bairros Guanandy, São Francisco e Santa Terezinha.
A Defesa Civil mantém alerta. A previsão é de mais chuvas nas próximas 48 horas, com risco de o rio alcançar a cota de transbordamento máximo de 8,5 metros.
Em três escolas municipais: EM José de Alencar (bairro Centro), EM Pantaneira (bairro Alto) e EM Indígena (bairro Aldeia Limão Verde).
Doações podem ser entregues na sede da Defesa Civil ou nas escolas-abrigo. Prioridade para água potável, cobertores, roupas e alimentos não perecíveis.
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Roberto Mendes
Repórter
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