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quinta-feira, 02 de abril de 2026
📰 Especiais

As comunidades quilombolas de MS que resistem entre o cerrado e o esquecimento

Reportagem especial visita 3 das 22 comunidades quilombolas do estado e mostra a luta por titulação de terras, acesso a serviços e preservação cultural.

Juliana Mendes11 min de leituraJaraguari
As comunidades quilombolas de MS que resistem entre o cerrado e o esquecimento

impactoNoBolso: titulo: "Os quilombolas de MS em números" items: - label: "Comunidades reconhecidas" valor: "22" - label: "Famílias quilombolas" valor: "1.840" - label: "Processos de titulação" valor: "14 em andamento" - label: "Terras tituladas" valor: "Apenas 3 (14%)" Mato Grosso do Sul tem 22 comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Palmares, com população estimada de 4.800 pessoas. Dessas 22, apenas 3 possuem título definitivo de propriedade da terra. As outras 19 aguardam — algumas há mais de 15 anos — a conclusão do processo de titulação pelo Incra.

Esta reportagem visitou 3 comunidades em janeiro de 2026: Furnas dos Dionísios (Jaraguari), São Benedito (Terenos) e Família Cardoso (Nioaque). O que encontramos foi resistência silenciosa, cultura viva e abandono institucional.

Furnas dos Dionísios: a maior e mais antiga

A 50 km de Campo Grande, no município de Jaraguari, Furnas dos Dionísios é a maior comunidade quilombola de MS — 320 pessoas em 68 famílias, distribuídas em 1.018 hectares de cerrado e mata. A comunidade existe desde 1890, fundada por Dionísio Antônio Vieira, ex-escravizado que comprou a terra com dinheiro de trabalho em fazendas da região.

O título definitivo foi emitido pelo Incra em 2009 — após 11 anos de processo. Furnas é uma das 3 comunidades tituladas de MS.

A estrada de acesso tem 12 km de terra, intransitável em dias de chuva forte. Não há transporte público. A escola municipal atende até o 5º ano — depois, as crianças precisam ir a Jaraguari, a 18 km, de ônibus escolar que passa uma vez por dia.

"Meu neto sai de casa às 5h30 pra pegar o ônibus às 6h. Chega na escola às 7h. Volta às 13h. Chega em casa às 14h. Oito horas e meia pra 4 horas de aula", contou Dona Ramona Dionísio, 72 anos, matriarca da comunidade e neta do fundador.

A UBS mais próxima fica em Jaraguari. O agente comunitário de saúde visita Furnas uma vez por semana. Não há médico, dentista ou farmácia na comunidade. "Quando alguém passa mal de noite, a gente leva de carro até Jaraguari. Se o carro não pega, vai de carroça. Já levei minha mãe de carroça pro hospital às 2h da manhã", disse Marcos Dionísio, 45 anos, líder comunitário.

São Benedito: sem título, sem paz

Em Terenos, a 30 km de Campo Grande, a comunidade São Benedito tem 84 pessoas em 22 famílias. O processo de titulação foi aberto no Incra em 2008. Dezoito anos depois, está na fase de "elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação" — a segunda de seis etapas.

"Dezoito anos esperando um relatório. Meus filhos nasceram, cresceram e foram embora pra cidade nesse tempo. Eu vou morrer esperando", disse Seu Joaquim Pereira, 78 anos, o morador mais antigo.

A comunidade ocupa 180 hectares cercados por fazendas de soja. A pressão fundiária é constante. Em 2024, um fazendeiro vizinho cercou 12 hectares que a comunidade usa como área de coleta de frutos do cerrado — baru, pequi e bocaiúva. O caso está na Justiça Federal.

"A gente não quer a fazenda dele. Quer o que é nosso. Nossos avós plantaram essas árvores. Nossos filhos colhem. Agora vem um de fora e cerca", disse Maria Aparecida, 52 anos, artesã que faz doces de bocaiúva vendidos na feira de Terenos.

Família Cardoso: cultura que resiste

Em Nioaque, a 180 km de Campo Grande, a comunidade Família Cardoso tem 48 pessoas em 14 famílias. É a menor das três visitadas e a mais isolada — o acesso é por 28 km de estrada de terra a partir da MS-382.

O que diferencia a Família Cardoso é a preservação cultural. A comunidade mantém viva a tradição do cururu — dança de roda com viola de cocho e canto improvisado que remonta ao período colonial. O grupo de cururu da comunidade, com 8 integrantes, se apresenta em festas regionais e já foi convidado para o Festival de Folclore de Olímpia (SP).

"O cururu é nossa identidade. Meu avô cantava, meu pai cantava, eu canto. Meu filho tá aprendendo. Se a gente parar, morre junto", disse Antônio Cardoso, 64 anos, mestre de cururu e líder da comunidade.

A comunidade produz farinha de mandioca artesanal, rapadura e doce de leite, vendidos em Nioaque e Jardim. A renda média por família é de R$ 1.200 por mês — abaixo do salário mínimo. Todas as famílias recebem Bolsa Família.

O que falta

As 22 comunidades quilombolas de MS compartilham carências semelhantes: estradas precárias, falta de saneamento (apenas 4 têm água encanada), ausência de serviços de saúde e educação no local, e insegurança fundiária.

O Incra em MS tem 2 servidores dedicados a processos quilombolas — para 19 comunidades em diferentes estágios de titulação. "Dois servidores. Dezenove processos. Cada processo tem centenas de páginas de documentação, pesquisa antropológica, levantamento fundiário. É humanamente impossível", reconheceu um servidor que pediu anonimato.

A Fundação Palmares certificou as 22 comunidades, mas a certificação é apenas o primeiro passo. A titulação — que garante a propriedade definitiva da terra — depende do Incra e pode levar décadas.

O governo estadual criou em 2024 o Comitê Estadual de Comunidades Tradicionais, com orçamento de R$ 2,4 milhões por ano. O comitê financiou em 2025 a construção de 3 cisternas, a reforma de 2 escolas e a compra de 1 van para transporte escolar. Pouco, mas mais do que nos 20 anos anteriores.

Na varanda de Dona Ramona, em Furnas dos Dionísios, o café coava no pano enquanto o sol se punha atrás do cerrado. Ela apontou para as árvores ao redor — baru, jatobá, pequi — e disse: "Essa terra é minha família. Meu avô tá enterrado ali embaixo daquele jatobá. Minha mãe, ali perto do pequi. Eu vou ficar ali também. Terra não é papel. Terra é gente."

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Fonte: Fundação Palmares / Incra / UFMS / Comunidades quilombolas

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Juliana Mendes

Repórter