O Rio Formoso de Bonito precisa de proteção total: um chamado urgente
Pesquisadores alertam para sinais de degradação no rio mais transparente do Brasil. Turismo, agropecuária e urbanização ameaçam a qualidade das águas.

O Rio Formoso é o coração de Bonito. Com águas de transparência que permite enxergar o fundo a até 30 metros de profundidade, o rio é a base ecológica e econômica de um dos destinos turísticos mais importantes do Brasil e da América Latina. No entanto, pesquisadores da Embrapa e da UFMS alertam que indicadores de qualidade da água deterioraram 12% nos últimos 5 anos — um sinal de que o equilíbrio delicado que sustenta a transparência pode estar em risco.
Por que o Formoso é transparente
A transparência excepcional do Rio Formoso não é acidental. Ela resulta de um processo geoquímico singular: a bacia hidrográfica do rio atravessa uma formação calcária (Formação Cerradinho) que dissolve carbonato de cálcio na água. Este carbonato funciona como um floculante natural — ele se liga a partículas de argila, matéria orgânica e outros sedimentos em suspensão, fazendo-os precipitar no fundo do rio. O resultado é uma água quase pura, com turbidez inferior a 1 NTU (Unidade Nefelométrica de Turbidez), enquanto rios brasileiros comuns apresentam turbidez de 20 a 100 NTU.
Esse processo é extremamente sensível. Qualquer alteração na composição química da água — aumento de fósforo, nitrogênio ou matéria orgânica — pode comprometer a precipitação do calcário e, em consequência, a transparência. "O Rio Formoso é como um laboratório da natureza. Funciona perfeitamente quando não perturbado, mas basta um desbalanceamento para que todo o sistema entre em colapso", explicou o geólogo Dr. Paulo Ribeiro, da UFMS.
Os sinais de deterioração
O monitoramento contínuo realizado pela Embrapa Pantanal em 14 pontos ao longo do Rio Formoso revelou tendências preocupantes entre 2020 e 2025:
| Parâmetro | 2020 | 2023 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Transparência (m) | 28,4 | 26,2 | 24,8 | -12,7% |
| Oxigênio dissolvido (mg/L) | 7,8 | 7,4 | 7,1 | -9,0% |
| Coliformes (NMP/100ml) | 42 | 68 | 98 | +133% |
| Fósforo total (µg/L) | 8 | 12 | 18 | +125% |
| Nitrogênio total (µg/L) | 120 | 145 | 178 | +48% |
| pH | 7,8 | 7,6 | 7,5 | Estável |
A transparência média caiu de 28,4 metros em 2020 para 24,8 metros em 2025 — ainda excepcional pelos padrões brasileiros, mas uma redução de 12,7% que preocupa os pesquisadores. O aumento de coliformes (+133%) indica infiltração de efluentes urbanos. O fósforo total (+125%) sugere contribuição de fertilizantes agrícolas carreados por escoamento superficial.
As três ameaças
Ameaça 1 — Esgoto de Bonito: A cidade de Bonito, com 22 mil habitantes, possui sistema de esgotamento sanitário que atende 68% da população — os 32% restantes utilizam fossas sépticas, muitas mal construídas. A estação de tratamento de esgoto (ETE) existente opera no limite da capacidade e lança efluente tratado em um afluente do Rio Formoso. O padrão de tratamento (secundário) remove 85% da carga orgânica, mas não elimina fósforo e nitrogênio — nutrientes que, ao atingir o rio, alimentam algas.
Ameaça 2 — Agropecuária na bacia: A bacia hidrográfica do Rio Formoso tem 420 km², dos quais 38% são ocupados por pastagens de pecuária extensiva e 12% por lavouras de soja e milho. A erosão provocada pelo desmatamento de áreas de encosta e pelo manejo inadequado do solo carrega sedimentos, fertilizantes e agrotóxicos para os cursos d'água da bacia.
Ameaça 3 — Turismo excessivo: Aproximadamente 280 mil turistas utilizam atrativos no Rio Formoso anualmente. Atividades como flutuação (snorkeling), boia-cross e mergulho, quando realizadas sem controle de capacidade, provocam pisoteamento de nascentes, erosão das margens e perturbação da fauna aquática.
As propostas de proteção
Pesquisadores, ambientalistas e o poder público convergem em um conjunto de propostas:
Tratamento terciário do esgoto: Upgrade da ETE de Bonito para tratamento terciário (remoção de fósforo e nitrogênio), com investimento estimado de R$ 18 milhões. A prefeitura pleiteia financiamento do BNDES.
Pagamento por serviços ambientais: Remuneração de proprietários rurais que preservem a vegetação nativa nas áreas de recarga hídrica da bacia — R$ 200/hectare/ano, seguindo o modelo do Programa Produtor de Água da ANA.
APA do Rio Formoso: Criação de uma Área de Proteção Ambiental estadual que regule o uso do solo na bacia, proíba novos desmatamentos em áreas de encosta e exija práticas de conservação do solo (plantio direto, terraças, curvas de nível).
Sistema de monitoramento em tempo real: Instalação de 8 sondas automáticas ao longo do rio que meçam continuamente turbidez, pH, oxigênio, temperatura e condutividade, com dados transmitidos via satélite para uma central de controle.
O futuro do Rio Formoso depende de ação imediata. A transparência é sua identidade, seu atrativo turístico e seu indicador de saúde ecológica. Preservá-la não é romantismo ambiental — é inteligência econômica.
O papel da educação ambiental
A preservação do Rio Formoso passa inevitavelmente pela educação ambiental. O programa "Rio na Escola", mantido pela prefeitura de Bonito em parceria com o ICMBio, leva 6.200 alunos por ano para atividades de campo às margens do Rio Formoso — incluindo coleta de lixo, plantio de mudas nativas e aulas de educação ambiental. O programa tem mostrado resultados: bairros com escolas participantes apresentam 42% menos lixo descartado em vias públicas que bairros sem acesso ao programa. A meta é universalizar o programa para todas as escolas do município até 2028.
💰 O valor econômico e ecológico do Rio Formoso
Turistas/ano no rio
280 mil visitantes
Receita turística do rio
R$ 180 milhões/ano
Índice de transparência
Até 30 metros
Espécies de peixes
82 catalogadas
Fonte: Embrapa / UFMS / Imasul / Prefeitura de Bonito
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
O que protegeria melhor o Rio Formoso?
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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