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quinta-feira, 02 de abril de 2026
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O Rio Formoso de Bonito precisa de proteção total: um chamado urgente

Pesquisadores alertam para sinais de degradação no rio mais transparente do Brasil. Turismo, agropecuária e urbanização ameaçam a qualidade das águas.

Marcos Vinícius Borges8 min de leituraBonito
O Rio Formoso de Bonito precisa de proteção total: um chamado urgente

O Rio Formoso é o coração de Bonito. Com águas de transparência que permite enxergar o fundo a até 30 metros de profundidade, o rio é a base ecológica e econômica de um dos destinos turísticos mais importantes do Brasil e da América Latina. No entanto, pesquisadores da Embrapa e da UFMS alertam que indicadores de qualidade da água deterioraram 12% nos últimos 5 anos — um sinal de que o equilíbrio delicado que sustenta a transparência pode estar em risco.

Por que o Formoso é transparente

A transparência excepcional do Rio Formoso não é acidental. Ela resulta de um processo geoquímico singular: a bacia hidrográfica do rio atravessa uma formação calcária (Formação Cerradinho) que dissolve carbonato de cálcio na água. Este carbonato funciona como um floculante natural — ele se liga a partículas de argila, matéria orgânica e outros sedimentos em suspensão, fazendo-os precipitar no fundo do rio. O resultado é uma água quase pura, com turbidez inferior a 1 NTU (Unidade Nefelométrica de Turbidez), enquanto rios brasileiros comuns apresentam turbidez de 20 a 100 NTU.

Esse processo é extremamente sensível. Qualquer alteração na composição química da água — aumento de fósforo, nitrogênio ou matéria orgânica — pode comprometer a precipitação do calcário e, em consequência, a transparência. "O Rio Formoso é como um laboratório da natureza. Funciona perfeitamente quando não perturbado, mas basta um desbalanceamento para que todo o sistema entre em colapso", explicou o geólogo Dr. Paulo Ribeiro, da UFMS.

Os sinais de deterioração

O monitoramento contínuo realizado pela Embrapa Pantanal em 14 pontos ao longo do Rio Formoso revelou tendências preocupantes entre 2020 e 2025:

Parâmetro 2020 2023 2025 Variação
Transparência (m) 28,4 26,2 24,8 -12,7%
Oxigênio dissolvido (mg/L) 7,8 7,4 7,1 -9,0%
Coliformes (NMP/100ml) 42 68 98 +133%
Fósforo total (µg/L) 8 12 18 +125%
Nitrogênio total (µg/L) 120 145 178 +48%
pH 7,8 7,6 7,5 Estável

A transparência média caiu de 28,4 metros em 2020 para 24,8 metros em 2025 — ainda excepcional pelos padrões brasileiros, mas uma redução de 12,7% que preocupa os pesquisadores. O aumento de coliformes (+133%) indica infiltração de efluentes urbanos. O fósforo total (+125%) sugere contribuição de fertilizantes agrícolas carreados por escoamento superficial.

As três ameaças

Ameaça 1 — Esgoto de Bonito: A cidade de Bonito, com 22 mil habitantes, possui sistema de esgotamento sanitário que atende 68% da população — os 32% restantes utilizam fossas sépticas, muitas mal construídas. A estação de tratamento de esgoto (ETE) existente opera no limite da capacidade e lança efluente tratado em um afluente do Rio Formoso. O padrão de tratamento (secundário) remove 85% da carga orgânica, mas não elimina fósforo e nitrogênio — nutrientes que, ao atingir o rio, alimentam algas.

Ameaça 2 — Agropecuária na bacia: A bacia hidrográfica do Rio Formoso tem 420 km², dos quais 38% são ocupados por pastagens de pecuária extensiva e 12% por lavouras de soja e milho. A erosão provocada pelo desmatamento de áreas de encosta e pelo manejo inadequado do solo carrega sedimentos, fertilizantes e agrotóxicos para os cursos d'água da bacia.

Ameaça 3 — Turismo excessivo: Aproximadamente 280 mil turistas utilizam atrativos no Rio Formoso anualmente. Atividades como flutuação (snorkeling), boia-cross e mergulho, quando realizadas sem controle de capacidade, provocam pisoteamento de nascentes, erosão das margens e perturbação da fauna aquática.

As propostas de proteção

Pesquisadores, ambientalistas e o poder público convergem em um conjunto de propostas:

Tratamento terciário do esgoto: Upgrade da ETE de Bonito para tratamento terciário (remoção de fósforo e nitrogênio), com investimento estimado de R$ 18 milhões. A prefeitura pleiteia financiamento do BNDES.

Pagamento por serviços ambientais: Remuneração de proprietários rurais que preservem a vegetação nativa nas áreas de recarga hídrica da bacia — R$ 200/hectare/ano, seguindo o modelo do Programa Produtor de Água da ANA.

APA do Rio Formoso: Criação de uma Área de Proteção Ambiental estadual que regule o uso do solo na bacia, proíba novos desmatamentos em áreas de encosta e exija práticas de conservação do solo (plantio direto, terraças, curvas de nível).

Sistema de monitoramento em tempo real: Instalação de 8 sondas automáticas ao longo do rio que meçam continuamente turbidez, pH, oxigênio, temperatura e condutividade, com dados transmitidos via satélite para uma central de controle.

O futuro do Rio Formoso depende de ação imediata. A transparência é sua identidade, seu atrativo turístico e seu indicador de saúde ecológica. Preservá-la não é romantismo ambiental — é inteligência econômica.

O papel da educação ambiental

A preservação do Rio Formoso passa inevitavelmente pela educação ambiental. O programa "Rio na Escola", mantido pela prefeitura de Bonito em parceria com o ICMBio, leva 6.200 alunos por ano para atividades de campo às margens do Rio Formoso — incluindo coleta de lixo, plantio de mudas nativas e aulas de educação ambiental. O programa tem mostrado resultados: bairros com escolas participantes apresentam 42% menos lixo descartado em vias públicas que bairros sem acesso ao programa. A meta é universalizar o programa para todas as escolas do município até 2028.

💰 O valor econômico e ecológico do Rio Formoso

1

Turistas/ano no rio

280 mil visitantes

2

Receita turística do rio

R$ 180 milhões/ano

3

Índice de transparência

Até 30 metros

4

Espécies de peixes

82 catalogadas

Fonte: Embrapa / UFMS / Imasul / Prefeitura de Bonito

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MV

Marcos Vinícius Borges

Repórter