Incêndio florestal atinge Serra da Bodoquena e mobiliza 80 bombeiros e aeronaves
Fogo consumiu 1.200 hectares de vegetação nativa em 48 horas. Parque Nacional da Serra da Bodoquena está parcialmente ameaçado. Causa é investigada.

Um incêndio florestal de grandes proporções atinge desde a manhã de sábado a Serra da Bodoquena, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, consumindo vegetação nativa de transição entre Cerrado e Mata Atlântica em uma área estimada em 1.200 hectares. O Corpo de Bombeiros Militar de MS mobilizou 80 profissionais e duas aeronaves Air Tractor para o combate às chamas, que se concentram em três frentes ativas alimentadas por vento forte e baixa umidade do ar.
O fogo teve início em uma fazenda na zona rural do município de Bodoquena, a cerca de 15 km da sede urbana, e se alastrou rapidamente favorecido pela vegetação seca — a região registra apenas 12 mm de chuva nas últimas três semanas, volume 80% abaixo da média histórica para março. As chamas ganharam intensidade na madrugada de domingo impulsionadas por rajadas de vento de até 45 km/h que mudaram a direção da propagação, ameaçando propriedades rurais e aproximando o fogo da zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra da Bodoquena.
Combate às chamas
O combate ao incêndio envolve um dispositivo operacional composto por 80 bombeiros militares — vindos de Bonito, Jardim, Miranda e Campo Grande —, 15 brigadistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e equipes de quatro fazendas que cederam maquinário para a construção de aceiros. Duas aeronaves Air Tractor, especializadas em lançamento de água e retardante de fogo, operam desde o amanhecer com base de apoio no aeródromo de Bonito, a 80 km do epicentro do incêndio.
"Temos três frentes de fogo ativas. A mais preocupante é a frente norte, que se dirige em direção à serra e ao Parque Nacional. Estamos concentrando esforços na construção de aceiros de 20 metros de largura para criar uma barreira de contenção. A vegetação de encosta de serra é muito mais difícil de combater porque o terreno íngreme impede o acesso de veículos pesados", explicou o comandante da operação de combate.
As condições meteorológicas dificultam o trabalho. A umidade relativa do ar na região da Serra da Bodoquena caiu para 18% na tarde de domingo — nível considerado crítico e comparável ao observado em períodos de seca severa. A temperatura alcançou 37°C e a previsão do INMET não indica chuva para os próximos quatro dias, o que amplia a preocupação com a continuidade e expansão do incêndio.
Parque Nacional ameaçado
O Parque Nacional da Serra da Bodoquena, unidade de conservação federal com 76 mil hectares que abriga espécies endêmicas da fauna e flora brasileiras, está a aproximadamente 3 km do ponto mais avançado do fogo. O ICMBio ativou o plano de contingência do parque e mobilizou todas as brigadas disponíveis para ações preventivas no perímetro da unidade.
O chefe do Parque Nacional informou que a zona de amortecimento mais vulnerável é o setor leste, onde a vegetação é predominantemente de Cerrado stricto sensu — formação altamente inflamável e de recuperação lenta. "Se o fogo alcançar o parque, as consequências para a biodiversidade serão severas. A Serra da Bodoquena abriga populações de onça-pintada, anta, lobo-guará e dezenas de espécies de aves que dependem dessa mata para sobrevivência", alertou.
Fauna em risco
Biólogos do ICMBio e da UFMS que acompanham o incêndio relatam observação de animais em fuga na periferia da área atingida. Antas, capivaras, veados e tamanduás foram avistados cruzando estradas e invadindo propriedades rurais em busca de ponto de água e refúgio. Uma equipe veterinária foi deslocada para a região para atender animais feridos.
"Já resgatamos três filhotes de tamanduá-bandeira, dois tatus e um gavião-de-penacho que estavam com queimaduras. Montamos uma base de atendimento veterinário em uma fazenda próxima. A preocupação maior são os animais que não conseguem fugir — répteis, anfíbios e pequenos mamíferos — que têm taxa de mortalidade altíssima em incêndios florestais", relatou a bióloga coordenadora do resgate de fauna.
Investigação da causa
A Polícia Federal foi acionada para investigar a origem do incêndio. Segundo informações preliminares, o fogo pode ter iniciado a partir de uma queimada para limpeza de pastagem em uma propriedade rural. A prática, proibida por lei sem autorização ambiental, é recorrente na região e já foi responsável por incêndios de grande porte em anos anteriores.
O Ministério Público Federal informou que abrirá inquérito civil para apurar responsabilidades e eventuais danos ao patrimônio ambiental federal. Se confirmada a origem criminosa, os responsáveis poderão ser indiciados por incêndio florestal (art. 41 da Lei de Crimes Ambientais), com pena de reclusão de dois a quatro anos e multa. Em caso de dano ao Parque Nacional, a pena pode ser agravada.
O IBAMA aplicará multas administrativas que podem alcançar R$ 50 milhões, calculadas com base na área destruída e no valor ambiental da vegetação nativa. Em 2025, o órgão aplicou R$ 23 milhões em multas por incêndios florestais em Mato Grosso do Sul, dos quais apenas R$ 4,2 milhões foram efetivamente pagos.
Solidariedade e apoio
Moradores de Bonito e Bodoquena organizaram pontos de arrecadação de água e alimentos para as equipes de combate. A Prefeitura de Bodoquena decretou situação de emergência e solicitou apoio logístico ao governo estadual. O Exército Brasileiro colocou à disposição um pelotão de engenharia sediado em Jardim para auxiliar na construção de aceiros com maquinário pesado.
A previsão do Corpo de Bombeiros é de que o combate se estenda por pelo menos mais 72 horas, mesmo no cenário mais otimista. A próxima atualização oficial sobre o incêndio será divulgada na manhã de segunda-feira, 31, após o sobrevoo de reconhecimento das aeronaves.
Fonte: Corpo de Bombeiros MS / ICMBio
❓ Perguntas Frequentes
Aproximadamente 1.200 hectares de vegetação nativa entre Cerrado e Mata Atlântica até o momento, com foco ativo em três frentes.
O fogo está a 3 km da zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Aceiros de contenção estão sendo construídos para evitar a invasão do fogo.
80 bombeiros militares, 15 brigadistas do ICMBio e apoio de duas aeronaves Air Tractor para lançamento de água.
A Polícia Federal e o ICMBio investigam. A região tem histórico de queimadas criminosas para abertura de pastagem.
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Roberto Mendes
Repórter
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