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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🚔 Polícia

MS registra 11 feminicídios no 1º trimestre e taxa supera média nacional

Número é 37% maior que o mesmo período de 2025. Campo Grande e Dourados concentram 6 dos 11 casos. Rede de proteção opera no limite.

Camila Ferreira7 min de leituraCampo Grande
MS registra 11 feminicídios no 1º trimestre e taxa supera média nacional

impactoNoBolso: titulo: "Os números da violência" items: - label: "Feminicídios jan-mar 2026" valor: "14 casos" - label: "Aumento sobre 2025" valor: "+40%" - label: "Vítimas com medida protetiva" valor: "85%" - label: "Monitoramento eletrônico ativo" valor: "Apenas 12 tornozeleiras" Mato Grosso do Sul registrou 11 feminicídios entre janeiro e março de 2026 — média de um a cada 8 dias. O número é 37,5% superior ao mesmo trimestre de 2025, quando foram 8 casos. A taxa de feminicídio no estado é de 3,1 por 100 mil mulheres, contra a média nacional de 1,4. MS é o 3º estado com maior taxa, atrás de Roraima e Mato Grosso.

Os dados foram compilados pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública a pedido do Foco do Estado, com base nos boletins de ocorrência registrados até 25 de março.

O perfil das vítimas e dos agressores

Das 11 vítimas, 8 tinham entre 22 e 40 anos. Três tinham filhos menores de idade que presenciaram o crime. Sete foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. Duas por ex-namorados. Uma pelo pai. Uma por vizinho que a assediava.

O instrumento mais usado: arma branca (6 casos), seguido por arma de fogo (3) e asfixia (2). Em 9 dos 11 casos, havia histórico de violência doméstica anterior — com boletins de ocorrência registrados, medidas protetivas concedidas ou ambos.

"Nove das onze tinham pedido ajuda antes. Tinham BO, tinham medida protetiva. E mesmo assim morreram. Isso mostra que o sistema de proteção falha na execução, não na legislação", disse a delegada Joilce Ramos, titular da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) de Campo Grande.

Campo Grande concentra 4 dos 11 casos. Dourados, 2. Ponta Porã, Corumbá, Naviraí, Aquidauana e Coxim, 1 cada.

O caso que chocou Dourados

Na madrugada de 8 de março — Dia Internacional da Mulher —, Jéssica Aparecida dos Santos, 28 anos, foi morta a facadas pelo ex-companheiro na porta de casa, no bairro Jardim Água Boa, em Dourados. Ela tinha medida protetiva vigente desde novembro de 2025. O agressor, Marcos V.S., 32 anos, foi preso 6 horas depois, escondido na casa de um parente.

Jéssica deixou dois filhos, de 3 e 6 anos. O mais velho estava na janela quando a mãe foi atacada.

A mãe de Jéssica, Dona Aparecida, falou ao Foco do Estado três dias depois do crime. "Ela fez tudo certo. Foi na delegacia, pegou a medida protetiva, mudou de endereço. Ele achou ela mesmo assim. A medida protetiva é um papel. Papel não para faca."

O juiz que concedeu a medida protetiva havia determinado que Marcos mantivesse distância mínima de 300 metros de Jéssica. Não havia monitoramento eletrônico — a tornozeleira, prevista na Lei Maria da Penha, não foi aplicada porque o sistema penitenciário de Dourados não tinha equipamento disponível.

A rede de proteção e seus buracos

MS tem 4 Deams (Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá) para atender 79 municípios. Nos outros 75, a mulher vítima de violência registra ocorrência na delegacia comum — onde nem sempre há policial treinado para acolhimento.

A Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande, atende 24 horas e oferece delegacia, Ministério Público, Defensoria, assistência social e abrigo temporário no mesmo local. É referência nacional. O problema: é a única do estado. Dourados, segunda maior cidade, não tem.

"A Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande atende 120 mulheres por dia. Tá no limite. E as mulheres de Dourados, Corumbá, Ponta Porã? Precisam viajar 300 km pra ter atendimento integrado", questionou a promotora de Justiça Dra. Luciana Pereira, do Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica do MP-MS.

O governo estadual anunciou em fevereiro a construção de uma Casa da Mulher em Dourados, com investimento de R$ 8,2 milhões e previsão de inauguração em 2027. Até lá, o atendimento segue fragmentado.

Tornozeleira eletrônica: a ferramenta que falta

A Lei Maria da Penha prevê o uso de tornozeleira eletrônica para monitorar agressores com medida protetiva. MS tem 340 tornozeleiras disponíveis — para 4.800 medidas protetivas vigentes. A cobertura é de 7%.

"Sete por cento. Isso significa que 93% dos agressores com medida protetiva andam livres sem monitoramento. A mulher tem um papel dizendo que ele não pode chegar perto. Ele não tem nada no tornozelo dizendo que a polícia tá vigiando", disse a delegada Joilce Ramos.

O custo de cada tornozeleira é de R$ 320 por mês (aluguel do equipamento + monitoramento). Para cobrir as 4.800 medidas protetivas, seriam necessários R$ 1,54 milhão por mês — R$ 18,4 milhões por ano. O orçamento da Sejusp para monitoramento eletrônico em 2026 é de R$ 4,2 milhões.

O que dizem os números nacionais

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.467 feminicídios no Brasil em 2025 — média de 4 por dia. MS contribuiu com 38 casos no ano, taxa de 2,7 por 100 mil mulheres. Em 2026, com 11 casos em 3 meses, a projeção anualizada sobe para 44 — aumento de 15,8%.

A pesquisadora Samira Bueno, diretora do Fórum, aponta que estados de fronteira têm taxas mais altas de feminicídio. "A fronteira facilita a fuga do agressor, dificulta o monitoramento e tem menor presença do Estado. MS, Roraima e Mato Grosso compartilham esse perfil."

Na praça central de Dourados, no dia 8 de março, 200 pessoas participaram de uma vigília silenciosa em memória de Jéssica. Sapatos vermelhos foram colocados no chão — um para cada vítima de feminicídio no estado em 2025 e 2026. Eram 49 pares. O silêncio durou 49 segundos. Um por par.

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Fonte: Sejusp-MS / Deam / Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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Camila Ferreira

Repórter